CGN - Últimas notícias de Cascavel, Paraná e Brasil
Acesse aqui o Discover e busque as mais lidas por mês!

Em memória das vítimas do voo 2283

Publicado em

Relacionadas:

Imagem referente a Em memória das vítimas do voo 2283
Foto: Reprodução/Portal Surgiu

Por Isabella Chiaradia

Atualizado em

09/08/2024. Para 62 famílias, essa data nunca mais será esquecida. Para a aviação brasileira, também. Quem poderia imaginar que naquela sexta-feira, gelada e com um céu tão azul, tudo se tornaria cinza e angustiante de forma tão rápida? 

Hoje completa um mês da queda do avião da VoePass (antiga Passaredo), que decolou de Cascavel/PR e deveria ter pousado em Guarulhos/SP. Com isso, o acidente do voo 2283 passou a integrar a lista dos acidentes aéreos mais trágicos do Brasil:

  • TAM (2007): Considerada a maior tragédia da aviação brasileira, com 199 mortos;
  • GOL (2006): A colisão no ar entre o Boeing 737 da Gol e o jato Legacy deixou 154 mortos. Toda as vítimas estavam no Boeing;
  • VASP (1982): seis alarmes de alerta de colisão soaram na cabine, mas todos foram ignorados pelo piloto. A aeronave colidiu contra a Serra da Aratanha, deixando 137 mortos;
  • TAM (1996): 24 segundos após a decolagem, a aeronave caiu sobre oito casas da Rua Luís Orsini de Castro, no bairro do Jabaquara, na zona sul de São Paulo. 99 pessoas morreram, sendo 96 a bordo e três em solo;
  • Air France (2009): O acidente ocorreu em zona internacional, no Oceano Atlântico, mas vale a pena ser lembrado, pois dos 228 mortos, 58 eram brasileiros;
  • Voepass (2024): 62 mortos.

Naquele dia, poucos minutos antes de chegar ao destino, a aeronave entrou em “parafuso chato” e caiu dentro de um condomínio de casas em Vinhedo/SP, vitimando todos os 58 passageiros, quatro tripulantes e a cachorrinha Luna, que pertencia à uma família venezuelana a bordo do voo 2283.

Sentiram e ouviram os motores acelerando e desacelerando. Sentiram o avião girando no sentido horário. Aqueles que tiveram coragem de manter os olhos abertos viram a terra se aproximando. Provavelmente todos souberam que iriam morrer. Mas jamais se saberá o que cada um disse, como cada um reagiu, qual foi o último pensamento de cada um. 

Trecho do livro “Perda Total”, de Ivan Sant’anna

As notícias e vídeos do momento da queda do avião não paravam de chegar. Cascavel virou notícia nacional. Quem eram as vítimas? Quais foram as causas do acidente?

Familiares, imprensa, autoridades políticas e da aviação começaram a se reunir para entender o que havia acabado de acontecer e repassar as informações que ninguém está acostumado a ouvir, afinal, 62 pessoas perderam a vida no meio de transporte que é considerado o mais seguro do mundo.

Foi a primeira vez que Cascavel esteve diretamente ligada à uma tragédia que chocou o país e o mundo. Os cascavelenses sentiram na pele a dor, a tristeza e o luto após a notícia de que muitos conterrâneos haviam morrido de forma tão trágica.

O relatório preliminar, contendo informações factuais sobre o acidente do voo 2283, foi apresentado no dia 06/09/2024 em uma coletiva de imprensa realizada no Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (CENIPA), em Brasília/DF.

Foi possível constatar a partir da análise das comunicações registradas pelo gravador de voz da cabine e pelo gravador de dados de voo, que os tripulantes comentaram sobre uma falha no sistema DE-ICING, utilizado para a proteção contra formação e acúmulo de gelo na aeronave, e que o sistema AIRFRAME DE-ICING, responsável por evitar que ocorresse acúmulo de gelo nas asas, foi ligado e desligado diversas vezes.

Portanto, é sabido que, a perda de controle da aeronave da VoePass ocorreu durante o voo sob condições favoráveis à formação de gelo, mas não houve declaração de emergência ou reporte de condições meteorológicas adversas.

Assim, resta saber como e porque a aeronave, certificada para voo em condição de gelo e comandada por pilotos experientes e treinados para este tipo de voo, acompanhados de duas comissárias, ambas com Licença de Comissária de Voo (CMS) e com as habilitações para a aeronave tipo AT47 em vigor, foram vítimas, junto com outras 58 pessoas, deste trágico acidente. Estas são perguntas que ainda não tem respostas e que deverão ser respondidas até a entrega do Relatório Final.

O acidente do voo 2283 deixou uma ferida aberta na comunidade e que levará anos para cicatrizar. Foram 62 vidas perdias, mais incontáveis histórias, sonhos e planos perdidos em menos de um minuto. De forma abrupta e amargamente a despedida aconteceu.

Durante uma semana, as vítimas foram sendo identificadas e os corpos liberados para sepultamento. Aqueles, antes anônimos, que embarcaram no voo 2283, voltaram para suas cidades sob muitos olhares, a maioria marejados pelas lágrimas. Aviões da Força Aérea Brasileira (FAB) pousaram no Aeroporto Coronel Adalberto Mendes da Silva, em Cascavel, trazendo os caixões das vítimas. Com urnas fechadas, tivemos que nos despedir sem ao menos um abraço ou um beijo. Só memórias.

Perdemos crianças, profissionais da saúde, empresários, avós, mães, pais e filhos. Será mesmo que era a “hora” deles ou a tragédia poderia ter sido evitada? Infelizmente, a resposta não parece tão simples e envolve questões filosóficas e técnicas.

O que resta, além das lembranças dos entes queridos, é esperar que o acidente seja esclarecido e que a justiça alcance aqueles que necessitam ser responsabilizados. Que as 62 vidas perdidas não sejam em vão e que a aviação aprenda com esse acidente para que as causas da queda da aeronave da VoePass não se repitam.

Em memória de:

Tripulantes:

  • 1. Debora Soper Avila, de 28 anos
  • 2. Rubia Silva de Lima, de 41 anos
  • 3. Humberto de Campos Alencar e Silva, de 61 anos
  • 4. Danilo Santos Romano, de 35 anos

Passageiros:

  • 1. Rosangela Souza
  • 2. Eliane Andrade Freire
  • 3. Luciani Cavalcanti
  • 4. Jose Fer
  • 5. Denilda Acordi
  • 6. Maria Auxiliadora Vaz de Arruda
  • 7. Jose Cloves Arruda
  • 8. Nelvio Jose Hubner
  • 9. Gracinda Marina Castelo da Silva
  • 10. Ronaldo Cavaliere
  • 11. Silvia Cristina Osaki
  • 12. Wlisses Oliveira
  • 13. Hialescapine Fodra
  • 14. Daniela Schulz Fodra
  • 15. Regiclaudio Freitas
  • 16. Simone Mirian Rizental
  • 17. Josgleidys Gonzalez
  • 18. Maria Parra
  • 19. Joslan Perez
  • 20. Mauro Bedin
  • 21. Rosangela Maria de Oliveira
  • 22. Antonio Deoclides Zini Junior
  • 23. Kharine Gavlik Pessoa Zini
  • 24. Mauro Sguarizi
  • 25. Leonardo Henrique da Silva
  • 26. Maria Valdete Bartnik
  • 27. Renato Bartnik
  • 28. Hadassa Maria da Silva
  • 29. Raphael Bohne
  • 30. Renato Lima
  • 31. Rafael Alves
  • 32. Lucas Felipe Costa Camargo
  • 33. Adrielle Costa
  • 34. Laiana Vasatta
  • 35. Ana Caroline Redivo
  • 36. Jose Carlos Copetti
  • 37. Andre Michel
  • 38. Sarah Sella Langer
  • 39. Edilson Hobold
  • 40. Rafael Fernando dos Santos
  • 41. Lizibba dos Santos
  • 42. Paulo Alves
  • 43. Pedro Gusson do Nascimento
  • 44. Rosana Santos Xavier
  • 45. Thiago Almeida Paula
  • 46. Adriana Santos
  • 47. Deonir Secco
  • 48. Alipio Santos Neto
  • 49. Raquel Ribeiro Moreira
  • 50. Adriano Dalu Cabueno
  • 51. Miguel Arcanjo Rodrigues Junior
  • 52. Diogo Ávila
  • 53. Luciano Trindade Alves
  • 54. Isabella Santana Pozzuoli
  • 55. Tiago Azevedo
  • 56. Mariana Belim
  • 57. Arianne Risso
  • 58. Constantino Thé Maia
  • Cachorrinha Luna, que pertencia à família de Josgledys Gonzalez, que estava a bordo com a filha, Maria Parra, e o neto, Joslan Perez.

Resumo do que aconteceu

O que aconteceu com o voo 2283 da Voepass em agosto de 2024?
R: No dia 9 de agosto de 2024, o voo 2283 da Voepass, que partiu de Cascavel (PR) com destino a Guarulhos (SP), caiu em um condomínio residencial em Vinhedo (SP) minutos antes do pouso, resultando na morte de todos os 62 ocupantes — 58 passageiros, 4 tripulantes — e uma cachorrinha de estimação. Não houve sobreviventes nem feridos em solo.
Quem eram as vítimas do acidente com o avião da Voepass?
R: As vítimas eram 58 passageiros e 4 tripulantes, incluindo profissionais de saúde, professores, empresários, avós, mães, pais, filhos e crianças, muitos deles moradores de Cascavel (PR). A lista completa inclui nomes como Danilo Romano (piloto), Humberto de Campos Alencar e Silva (copiloto), Debora Soper Avila e Rubia Silva de Lima (comissárias), além de passageiros como Rosangela Souza, Eliane Andrade Freire, Luciani Cavalcanti, entre outros, além da cachorrinha Luna.
Quais foram as principais causas apontadas para a queda do voo 2283?
R: Segundo o relatório da Polícia Federal, a queda foi causada pela perda de controle da aeronave devido ao acúmulo de gelo, à inoperância do sistema pneumático de degelo e à não execução tempestiva e adequada dos procedimentos previstos. O laudo também destacou falhas de gestão, manutenção e segurança da empresa, além de problemas operacionais e técnicos reincidentes.
O que mostraram as investigações técnicas sobre o acidente?
R: O relatório do Cenipa e o laudo da Polícia Federal indicaram que o sistema de degelo apresentou falhas no dia do acidente e em voos anteriores. A tripulação reclamou do funcionamento do sistema e, mesmo diante dos alertas, não executou todos os procedimentos previstos. Também foi apontado que a aeronave operava com limpadores de para-brisa inoperantes, contrariando normas técnicas, e que havia falhas de manutenção e gestão recorrentes.
Quem foi responsabilizado criminalmente pelo desastre aéreo?
R: Em 6 de agosto de 2026, José Luiz Felício Filho, presidente da Voepass, foi indiciado pela Polícia Federal por integrar a cadeia de decisões da empresa considerada responsável por falhas que contribuíram para o acidente. O inquérito agora será analisado pelo Ministério Público para possível denúncia à Justiça.
Quais outras irregularidades foram identificadas na operação da Voepass após o acidente?
R: Foram identificadas irregularidades como escalas de trabalho que reduziram o tempo de descanso dos tripulantes, descumprimento da Lei dos Aeronautas, falhas recorrentes na manutenção, reutilização irregular de peças, tentativas de esconder aeronaves da fiscalização, reincidência de irregularidades já apontadas e não sanadas, além de descumprimento de exigências da Anac.
Como foi a resposta dos órgãos reguladores e do governo após o acidente?
R: A Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) iniciou operações de fiscalização assistida na Voepass, determinou redução da malha aérea, aumento do tempo de solo para manutenção, troca de administradores e execução de plano corretivo. Após auditorias constatarem reincidência de falhas, a Anac suspendeu as operações da empresa em março de 2025 e, posteriormente, cassou definitivamente o Certificado de Operador Aéreo. O Ministério de Portos e Aeroportos apoiou a decisão.
Quais foram os impactos econômicos e operacionais para a Voepass após o acidente?
R: Após o acidente, a Voepass enfrentou grave crise financeira, entrou com pedido de recuperação judicial, perdeu exclusividade de slots em aeroportos importantes, demitiu funcionários e teve suas operações suspensas e, depois, cassadas pela Anac. A empresa acumulou dívidas superiores a R$ 400 milhões e não conseguiu retomar suas atividades aéreas.
Como as famílias das vítimas reagiram à tragédia e às ações da Voepass?
R: As famílias criaram uma associação para apoio mútuo, buscar justiça e acompanhar investigações. Elas expressaram indignação com a postura da Voepass, repudiaram o uso da tragédia como justificativa para problemas financeiros da empresa e exigem responsabilização criminal dos envolvidos. Muitas famílias também buscaram indenizações na Justiça, mas destacam que nenhuma compensação financeira substitui a perda dos entes queridos.
Houve denúncias internas sobre problemas na manutenção das aeronaves da Voepass?
R: Sim. Um ex-mecânico da Voepass denunciou publicamente que a aeronave do voo 2283 apresentava constantes problemas técnicos e que alertas sobre sua condição eram ignorados pela chefia. Ele relatou falta de ferramentas adequadas, reutilização irregular de peças e tentativas de esconder aeronaves da fiscalização da Anac.
O cansaço da tripulação foi considerado um fator para o acidente?
R: Uma auditoria do Ministério do Trabalho e Emprego concluiu que a Voepass montou escalas que reduziram o tempo de descanso dos tripulantes, descumprindo a legislação e podendo causar fadiga em nível capaz de prejudicar a concentração e o tempo de reação, o que pode ter contribuído para o acidente.
Como foi a atuação dos políticos e do Congresso após a tragédia?
R: A Câmara dos Deputados criou uma comissão externa para acompanhar as investigações, fiscalizou as operações da Voepass e cobrou explicações da Anac e do Cenipa. Parlamentares apresentaram o Projeto de Lei 5033/2024 para criar um comitê de atendimento a vítimas e familiares de acidentes aéreos e discutir atualização da legislação do setor.
Quais foram os desdobramentos judiciais e indenizatórios após o acidente?
R: Diversas famílias entraram com ações judiciais pedindo indenização por danos morais, materiais e pensão, alegando responsabilidade objetiva das companhias aéreas. Algumas famílias aceitaram acordos de reparação financeira, mas destacam que o principal objetivo é a responsabilização criminal dos envolvidos.
Como o acidente impactou a cidade de Cascavel (PR)?
R: Cascavel foi profundamente impactada, pois 25 das vítimas eram moradores da cidade. A tragédia mobilizou a comunidade, gerou homenagens e eventos em memória das vítimas, como o ato 'Amores Além da Vida'. O acidente deixou marcas emocionais e sociais duradouras na cidade.
A Voepass tentou justificar seus problemas financeiros pelo acidente?
R: Sim, a Voepass alegou que o acidente agravou sua situação financeira e justificou pedidos de tutela preparatória e recuperação judicial com base nesse argumento. A Associação dos Familiares das Vítimas contestou essa versão, afirmando que os problemas financeiros e de manutenção já existiam antes do acidente e foram a verdadeira causa da tragédia.
Quais mudanças ocorreram na malha aérea da Voepass após o acidente?
R: Após o acidente, a Voepass suspendeu a rota do voo 2283 e outros oito trechos, readequando sua malha por ter uma aeronave a menos e por dificuldades operacionais. Com a suspensão e posterior cassação do certificado, a empresa perdeu slots em aeroportos importantes e deixou de operar em diversos destinos.
O que revelou a caixa-preta do voo 2283?
R: As gravações da cabine mostraram que a tripulação identificou falhas no sistema de degelo e discutiu o problema durante o voo, chegando a comparar a aeronave a um 'Fusquinha'. Pouco antes da queda, os pilotos enfrentaram alertas críticos e não conseguiram restabelecer o funcionamento do sistema, culminando na perda de controle da aeronave.
Qual foi a posição da Voepass diante das acusações e investigações?
R: A Voepass negou irregularidades, afirmou que sempre priorizou a segurança, alegou que a aeronave tinha certificação válida e que a reutilização de peças era permitida com rastreabilidade. A empresa declarou seguir protocolos regulatórios e afirmou que nunca tentou burlar fiscalizações.
Quais homenagens e ações de memória foram realizadas pelas famílias das vítimas?
R: As famílias organizaram homenagens como o evento 'Amores Além da Vida', com caminhada simbólica, culto ecumênico e ações solidárias. Livros foram lançados em memória das vítimas, e a associação de familiares atua para manter viva a lembrança dos entes perdidos e lutar por justiça.
Por que o acidente da Voepass é considerado um marco na aviação brasileira?
R: O acidente do voo 2283 foi a maior tragédia da aviação comercial brasileira desde 2007, com 62 mortos. Ele expôs graves falhas de gestão, manutenção e fiscalização no setor aéreo, provocou mudanças regulatórias, impactou milhares de pessoas e gerou uma mobilização nacional por justiça e segurança na aviação.

Veja também

Notícias Mais Acessadas Agora

Notícias Mais Lidas