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Queda da Voepass: veja nomes citados no inquérito da Polícia Federal

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Queda da Voepass: veja nomes citados no inquérito da Polícia Federal

Por Luiz Haab

Atualizado em

A primeira lista, quase dois anos atrás, continha 62 nomes. Eram as vítimas da tragédia que, segundo as investigações, poderia ter sido evitada. Agora, a CGN divulga em primeira mão a lista dos 16 nomes indicados pela Polícia Federal como responsáveis pelo desastre.

A Polícia Federal concluiu o inquérito sobre a queda do voo 2283 da Voepass e apontou 16 pessoas como responsáveis, em diferentes graus, pela tragédia que matou 62 pessoas em Vinhedo (SP), em 9 de agosto de 2024. Entre os investigados está um Despachante Operacional de Voo (DOV) que atuou remotamente para autorizar a decolagem do Aeroporto de Cascavel e que, segundo a investigação, tinha conhecimento do para-brisa danificado e das condições meteorológicas desfavoráveis. A informação é divulgada pela CGN com exclusividade e antecede a divulgação oficial dos nomes envolvidos.

Apesar de atuação, cabe ressaltar que o referido DOV não fazia parte da equipe do Aeroporto de Cascavel, mas sim das empresas aéreas.

A CGN teve acesso, em primeira mão, aos principais detalhes do inquérito por meio de uma entrevista exclusiva com Fátima Albuquerque, mãe de uma das vítimas do acidente. Ela confirmou que a investigação criminal foi concluída e identificou 16 pessoas que deverão responder criminalmente por decisões e condutas que, conforme a Polícia Federal, contribuíram para o desastre aéreo.

O documento representa um marco inédito na aviação brasileira. Pela primeira vez, uma investigação criminal de um acidente envolvendo a aviação comercial individualiza responsabilidades em diferentes níveis dentro da estrutura de uma companhia aérea, alcançando desde a alta direção até profissionais responsáveis pela liberação operacional dos voos.

Segundo Fátima, entre os responsabilizados estão o proprietário da empresa, engenheiros, chefes da manutenção, gestores operacionais, chefes de pilotos, pilotos, Despachantes Operacionais de Voo (DOVs) e outros funcionários que, conforme o inquérito, tinham conhecimento das irregularidades e permitiram que aeronaves continuassem operando.

Um dos nomes apontados atua ou atuava no Aeroporto de Cascavel. Trata-se de um Despachante Operacional de Voo (DOV), profissional responsável por autorizar operacionalmente a saída da aeronave. Conforme relatado por Fátima com base nas conclusões da investigação, ele teria liberado o ATR-72 para o voo mesmo sabendo que a aeronave apresentava um para-brisa quebrado, situação agravada pelas baixas temperaturas e pela chuva registrada naquele dia.

Outro DOV, que trabalhava em São Paulo, também aparece entre os investigados por fatos relacionados à operação da aeronave no dia anterior ao acidente.

A investigação também concluiu que a responsabilidade não ficou restrita aos setores técnicos. De acordo com a mãe da vítima, a Polícia Federal identificou uma cadeia de decisões que permitiu a continuidade de práticas consideradas irregulares dentro da empresa, caracterizando uma estrutura que colocava passageiros e tripulações em risco.

Os 16 responsabilizados pela Polícia Federal

A CGN recebeu com exclusividade a lista completa dos 16 nomes apontados no inquérito, com as respectivas funções desempenhadas por cada um deles.

• José Luiz Felício Filho – Gestor Responsável
• Marcel Sarquis Moura – Diretor de Operações
• Raphael Limongi de Figueiredo – Chefe de Controle Operacional
• William Agatz – Gerente do CCO (Centro de Controle Operacional)
• Juliano Flores – Gerente do MCC (Central de Controle de Manutenção)
• Marcos Hiroyuki Sato – DOV
• Oderlino Figueiredo – DOV
• John Major – DOV
• Carlos Alberto Costa – Diretor de Manutenção
• Thiago Passucci Morani – Inspetor-Chefe
• Alex Leandro – Líder de Manutenção
• Eric Consoli – Diretor Técnico
• David Faria – Diretor de Segurança Operacional
• Rafael Gimenez Rodrigues – Gatekeeper do FOQA (Flight Operations Quality Assurance)
• Rafael Gimenez Rodrigues – Piloto-Chefe
• Rafael Gimenez Rodrigues – Chefe de Pilotos
• Edson Serra Martins – Piloto
• Luciano Alves de Macedo – Piloto

Na tarde de quinta-feira (6), coletiva de imprensa da PF revelou o relatório final e os 16 nomes.

“Sempre dissemos que não foi acidente; foi crime”, afirma mãe de vítima

Durante entrevista exclusiva à CGN, Fátima Albuquerque afirmou que o encerramento do inquérito representa um momento histórico para as famílias das vítimas.

Segundo ela, desde os primeiros dias após a queda do avião, os familiares sustentavam que a tragédia não havia sido resultado de uma fatalidade, mas da soma de decisões conscientes tomadas dentro da companhia aérea.

“Esse inquérito é um divisor de águas. Pela primeira vez na história da aviação comercial brasileira nós teremos responsabilização criminal daqueles que deram causa a essa tragédia.”

Ela lembra que, ainda nos primeiros dias da investigação, enfrentou críticas por afirmar publicamente que se tratava de um crime.

“As pessoas diziam para eu tomar cuidado, que eu poderia ser processada. Eu respondia que o que mais poderiam fazer comigo? Minha única filha já havia sido tirada de mim.”

Segundo Fátima, o relatório final da Polícia Federal confirma o que o Cenipa já havia apontado parcialmente: a existência de uma cultura organizacional que tolerava irregularidades e fazia com que problemas técnicos deixassem de impedir a operação das aeronaves.

Ela afirma que pilotos eram pressionados a não registrar defeitos, aeronaves continuavam voando mesmo com falhas conhecidas e fiscalizações eram, segundo as investigações, burladas.

Ao comentar a responsabilização dos pilotos, Fátima disse que considera ambos também vítimas do sistema implantado na empresa.

“Eles pagaram com a própria vida. Se estivessem vivos, responderiam criminalmente, mas também foram vítimas de uma organização que normalizou o risco.”

Para ela, o objetivo da responsabilização vai muito além da punição dos envolvidos.

“Não lutamos apenas pelos nossos familiares. Lutamos para que nenhuma outra família passe pelo que estamos passando. Empresas não podem colocar trabalhadores e passageiros em risco e acreditar que nada acontecerá.”

A mãe da vítima acredita que o trabalho da Polícia Federal inaugura um novo modelo de investigação de acidentes aéreos no Brasil, ao buscar não apenas compreender as causas técnicas do desastre, mas também identificar responsabilidades individuais.

Agora, com o inquérito concluído, caberá ao Ministério Público Federal analisar o material e decidir sobre o oferecimento das denúncias criminais contra os investigados. Para as famílias, a expectativa é de que o processo represente um passo decisivo na busca por justiça quase dois anos após a maior tragédia da aviação brasileira das últimas décadas.

Resumo do que aconteceu

O que aconteceu no acidente do voo 2283 da Voepass em agosto de 2024?
R: No dia 9 de agosto de 2024, o voo 2283 da Voepass, um ATR 72-500, caiu em Vinhedo (SP) enquanto fazia a rota Cascavel (PR) - Guarulhos (SP). O acidente matou as 62 pessoas a bordo, incluindo 58 passageiros e 4 tripulantes. Não houve sobreviventes nem vítimas em solo.
Quais foram as causas identificadas para a queda do avião da Voepass?
R: As investigações da Polícia Federal e do Cenipa concluíram que o acidente foi causado por uma combinação de falhas técnicas, operacionais e meteorológicas. O sistema de degelo da aeronave estava inoperante, o para-brisa apresentava defeito e havia formação severa de gelo, situação prevista pelas autoridades. Além disso, procedimentos de emergência não foram executados integralmente pela tripulação.
Havia histórico de problemas com a aeronave antes do acidente?
R: Sim. A aeronave já apresentava falhas recorrentes no sistema de degelo e outros problemas técnicos em voos anteriores, que não foram devidamente registrados nos relatórios de bordo. Isso impediu que a manutenção tivesse pleno conhecimento da gravidade das falhas.
Por que a aeronave foi liberada para voar mesmo com falhas conhecidas?
R: Segundo depoimentos e investigações, havia uma cultura organizacional na Voepass de não registrar determinadas panes para evitar que aeronaves ficassem fora de operação. Pilotos eram orientados a não formalizar falhas, e o proprietário da empresa admitiu ter conhecimento dessa prática. A Anac já havia alertado a empresa sobre o comportamento dos pilotos.
Como a tripulação reagiu aos alertas durante o voo?
R: As gravações da caixa-preta mostram que os pilotos notaram o acúmulo de gelo e a falha do sistema de degelo, chegando a comentar que o equipamento 'não estava funcionando'. Apesar dos alertas sonoros e visuais, os procedimentos previstos em manual para esse tipo de emergência não foram seguidos integralmente, o que contribuiu para a perda de controle da aeronave.
Que falhas operacionais e de manutenção foram identificadas após o acidente?
R: A Anac e o Cenipa identificaram que a Voepass deixou de realizar inspeções obrigatórias, utilizou componentes defeituosos em diferentes aeronaves e operou quase 2.700 voos em condições irregulares. A empresa também descumpriu normas de descanso de tripulação, o que pode ter contribuído para a fadiga dos pilotos.
Quais as consequências administrativas para a Voepass após o acidente?
R: A Anac suspendeu as operações da Voepass em março de 2025 e, em junho do mesmo ano, cassou definitivamente seu Certificado de Operador Aéreo devido a falhas graves e persistentes em inspeções e controles internos. A empresa entrou com pedido de recuperação judicial em abril de 2025.
Quem foi responsabilizado criminalmente pelo acidente?
R: Em agosto de 2026, a Polícia Federal indiciou 16 pessoas ligadas à Voepass, incluindo o presidente José Luiz Felício Filho, diretores, chefes de manutenção, pilotos e despachantes operacionais de voo. Eles foram indiciados pelo crime de atentado contra a segurança do transporte aéreo, previsto no artigo 261 do Código Penal.
Quais penas podem ser aplicadas aos indiciados no caso Voepass?
R: O crime de atentado contra a segurança do transporte aéreo prevê pena de 4 a 12 anos de prisão, que pode ser dobrada (8 a 24 anos) em caso de morte, como ocorreu no acidente. O comandante do voo anterior ao acidente foi indiciado por falsidade ideológica.
O que acontece após o indiciamento dos envolvidos no acidente?
R: O relatório da Polícia Federal foi encaminhado ao Ministério Público Federal, que irá analisar se apresenta denúncia à Justiça Federal. Caso a denúncia seja aceita, os indiciados se tornarão réus em uma ação penal. A Justiça já determinou que todos os indiciados não podem deixar o país durante o processo.
Qual foi a reação das famílias das vítimas diante da tragédia e das investigações?
R: As famílias fundaram uma associação para buscar justiça e responsabilização dos envolvidos. Consideram que o acidente foi resultado de decisões conscientes e não uma fatalidade. Muitas famílias receberam indenizações, mas afirmam que nada substitui a perda. Um memorial foi inaugurado em Vinhedo em agosto de 2025.
Como a Voepass se posicionou publicamente após o acidente e as investigações?
R: A Voepass declarou que sempre tratou a segurança operacional como prioridade, cumpria protocolos e colaborou com as investigações. A empresa afirmou que aguarda os desdobramentos do processo para exercer seu direito de defesa e reiterou solidariedade às famílias das vítimas.
Que impacto o acidente teve no setor aéreo e na fiscalização da aviação brasileira?
R: O caso é considerado um marco na aviação brasileira, pois pela primeira vez uma investigação criminal individualizou responsabilidades em diversos níveis dentro de uma companhia aérea. A Polícia Federal solicitou o compartilhamento das investigações com a Anac e a Procuradoria da República para apurar possíveis falhas de fiscalização.
Houve consequências para os passageiros da Voepass após a suspensão das operações?
R: Com a suspensão e posterior cassação do certificado da Voepass, milhares de passageiros tiveram voos cancelados. A Latam, parceira comercial, ofereceu reacomodação ou reembolso para a maioria dos clientes afetados. A Anac e órgãos de defesa do consumidor monitoraram o cumprimento dos direitos dos passageiros.
O que apontou o relatório do Ministério do Trabalho e Emprego sobre a Voepass?
R: O MTE concluiu que a Voepass não controlava adequadamente a jornada de trabalho dos funcionários e descumpria o tempo de descanso legal dos tripulantes, o que pode ter contribuído para a fadiga dos pilotos no acidente. Foram lavrados autos de infração e aplicadas multas à empresa.
O acidente da Voepass poderia ter sido evitado?
R: Segundo as investigações da PF e do Cenipa, o acidente poderia ter sido evitado se as falhas tivessem sido devidamente registradas, se a aeronave não tivesse sido liberada para voar com problemas conhecidos e se os procedimentos de emergência tivessem sido corretamente executados.
O que foi registrado na caixa-preta do voo 2283 da Voepass?
R: A caixa-preta registrou que a tripulação comentou sobre o acúmulo de gelo, a falha do sistema de degelo e a dificuldade de operar o avião nessas condições. Os pilotos tentaram acionar o sistema de degelo diversas vezes, mas constataram que 'não estava funcionando'. Alertas de perda de velocidade e estol foram emitidos pouco antes da queda.
Quais foram as consequências financeiras para a Voepass após o acidente?
R: Além da suspensão e cassação do certificado de operação, a Voepass entrou com pedido de recuperação judicial em abril de 2025, acumulando dívidas de cerca de R$ 210 milhões. A parceria comercial com a Latam foi encerrada após o acidente e a empresa deixou de operar em diversos destinos.
O acidente teve impacto em outras operações aéreas no Brasil?
R: Sim. A suspensão da Voepass afetou o atendimento a destinos como Fernando de Noronha, levando a Anac a autorizar operações emergenciais de outras companhias para suprir a demanda e garantir o transporte de passageiros afetados.
Qual é a importância do caso Voepass para a segurança e cultura organizacional na aviação?
R: O caso evidenciou a necessidade de rigor na cultura de segurança, no registro de falhas e no cumprimento dos procedimentos operacionais. Mostrou que a normalização de desvios e a omissão de problemas técnicos podem resultar em tragédias, levando a mudanças na fiscalização e responsabilização criminal de gestores e operadores.

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