'Essa bosta não tá funcionando': CGN mostra transcrição na íntegra da caixa-preta da Voepass
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Por Luiz Haab
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O laudo da Polícia Federal sobre o acidente com o ATR 72 da Voepass, que caiu em Vinhedo (SP) no dia 9 de agosto de 2024, traz a íntegra das principais conversas registradas pelo Cockpit Voice Recorder (CVR), a caixa-preta de voz da aeronave. Os registros mostram desde momentos descontraídos da tripulação no voo anterior até a sequência de alertas, preocupações com o gelo e os últimos diálogos antes da perda de controle da aeronave.
“Chegamos vivos”: o voo anterior já havia enfrentado gelo
Antes do voo que terminou em tragédia, a mesma tripulação havia realizado o voo PTB2282, também entre Guarulhos e Cascavel. Durante a aproximação para pouso, o comandante comentou sobre o gelo acumulado na aeronave.
Às 14h13min55s (UTC), ele disse:
“Ó lá o gelo, o gelo foi embora agora, finalmente, escutei um barulho aqui, foi o gelo que voou.”
Após o pouso em Cascavel, vieram comentários de alívio.
O copiloto afirmou:
“Muito bom, comandante.”
Na sequência, o piloto respondeu:
“Chegamos vivos.”
Poucos minutos depois, às 14h21min23s, o comandante voltou a repetir:
“Ufa, chegamos vivos.”
Logo em seguida, houve uma conversa sobre um equipamento da aeronave.
Piloto: “O seu foi?”
Copiloto: “Foi.”
Piloto: “O meu tá uma merda, hein… agora foi. Tem que dar uma mexidinha.”
Decolagem ocorreu normalmente
Já no voo PTB2283, que saiu de Cascavel com destino a Guarulhos, a gravação teve início às 14h44min04s.
Durante a decolagem, às 14h58min22s, o copiloto realizou os chamados operacionais:
“V1… Rotate… Positively.”
Cerca de um minuto depois, quando o piloto automático foi acionado, ocorreu o diálogo:
Piloto: “Autopilot engaged.”
Copiloto: “Autopilot engaged.”
Primeiros alertas de gelo
Às 15h14min55s surgiu o primeiro alerta de detecção de gelo.
Menos de um minuto depois, às 15h15min39s, a aeronave registrou uma falha no sistema de degelo (Airframe Fault).
O comandante comentou:
“É o Airframe que deu fault, pode tirar, pode tirar, pelo menos a gente já sabe que tá… [fudido].”
Pouco depois, às 15h16min07s, o copiloto sugeriu alterar a altitude para fugir das condições de formação de gelo.
“Olha a situação, se bem que não tá reportado isso aí, mas pra gente não pegar gelo teria que ir no 110, né?”
Em seguida, um novo alerta de gelo foi emitido.
O piloto brincou com a situação:
“Foi só eu falar. O avião escutou. Esse avião parece aquele Fusquinha, Herbie lá… Herbie, filme bem antigo.”
Aproximação de São Paulo
Já próximo de São Paulo, diversos contatos ocorreram com o Controle de Aproximação.
O voo foi instruído a manter o nível FL170 e realizar mudanças de frequência entre diferentes controladores.
Enquanto isso, novos alertas de gelo continuavam aparecendo na cabine.
Às 16h11min01s, após outro aviso sonoro, o piloto afirmou:
“Tamo com tudo já.”
O copiloto perguntou:
“Hã?”
O comandante respondeu:
“Já liguei tudo.”
Na sequência, houve comunicações com o despacho operacional da empresa, com a comissária de bordo e também um anúncio aos passageiros informando a chegada em Guarulhos.
“Bastante gelo”
Pouco antes do acidente, a preocupação com a formação de gelo voltou a aparecer de forma explícita.
Às 16h20min00s, o copiloto afirmou:
“Bastante gelo [ali].”
O comandante respondeu apenas:
“Éh.”
Na tentativa de utilizar novamente o sistema de degelo, o copiloto orientou:
“Ligar o airframe.”
O piloto respondeu:
“Essa bosta não tá funcionando, né?”
O copiloto confirmou:
“É.”
Controle ainda mantinha a aeronave no FL170
Enquanto a tripulação enfrentava dificuldades, o Controle de Aproximação determinou que a aeronave permanecesse por mais dois minutos no nível de voo FL170.
A resposta foi:
“Sim senhor, tamos autorizados a SANPA mantendo Uno Sete Zero ainda, 2283.”
Logo depois surgiu um novo alerta automático indicando perda de velocidade (Increase Speed).
Em seguida, a gravação registra uma vibração da aeronave.
Poucos segundos depois, às 16h21min05s, o copiloto pronunciou apenas uma palavra:
“Gelo.”
Os últimos segundos
Na sequência iniciou-se o primeiro alarme de estol.
O piloto automático foi desligado automaticamente.
Outro alarme de estol permaneceu ativo por cerca de 48 segundos.
Durante esse período, o copiloto voltou a mencionar:
“[Gelo].”
Às 16h21min36s, o Controle de Aproximação finalmente autorizou a descida para o nível FL090.
Pouco depois, perguntou:
“Passaredo 2283, confirma a proa que o senhor está mantendo?”
Não há resposta registrada da tripulação.
Na sequência, foi emitido um alerta geral (Master Warning), seguido por novo alarme de estol.
Nos últimos segundos captados pela caixa-preta, o sistema automático de alerta de proximidade com o solo repetiu:
“Pull-up… Pull-up.”
Esta é a última mensagem registrada antes do impacto da aeronave.