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“Ele atacava quem era mais indefesa”, diz nova vítima de ‘pai social’ preso em parque de Cascavel

No domingo (25), um vendedor ambulante de doces foi detido pela Polícia Militar no Complexo Esportivo Ciro Nardi, após ser flagrado por mães enquanto, segundo relatos,...

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Por Luiz Haab

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“Ele atacava quem era mais indefesa”, diz nova vítima de ‘pai social’ preso em parque de Cascavel

Mais uma mulher rompeu o silêncio e procurou a CGN nesta terça-feira (27) para relatar o que descreve como um “pesadelo” vivido durante a infância e adolescência em na Casa Lar de Cascavel. O depoimento, concedido em entrevista exclusiva, soma-se à denúncia divulgada pela nossa equipe de reportagem, aprofundando as acusações de abusos sexuais e psicológicos supostamente cometidos pelo mesmo homem de 70 anos, que chegou a ser preso no último domingo (25 ), após ser flagrado filmando crianças em um parquinho público da cidade.

Relembre o caso

No domingo (25), um vendedor ambulante de doces foi detido pela Polícia Militar no Complexo Esportivo Ciro Nardi, após ser flagrado por mães enquanto, segundo relatos, gravava imagens de crianças sem autorização. O suspeito tentou apagar arquivos do celular e chegou a ameaçar uma das mães, mas foi contido até a chegada dos agentes. A repercussão do caso trouxe à tona antigas denúncias envolvendo o homem, que já havia participado do programa Família Acolhedora na antiga Casa Lar, destinada a adolescentes afastados do convívio familiar.

Na segunda-feira (26), uma empresária de 32 anos, atualmente residente em Curitiba, relatou à reportagem ter sido vítima de abusos sexuais, psicológicos e de silenciamento institucional enquanto esteve sob a tutela do suspeito, entre os 13 e 15 anos. Segundo ela, as violações eram recorrentes e atingiam diversas meninas sob a responsabilidade do casal. Recebia auxílio financeiro para abrigar as meninas, sendo as denúncias sistematicamente ignoradas – segundo a denúncia – por escola, assistentes sociais e direção do abrigo.

Novo testemunho: “A gente não tinha voz”

A nova entrevistada, que prefere não se identificar, conta que viveu na Casa Lar dos 13 aos 18 anos. Ela reforça o padrão de violência e omissão denunciado pela primeira vítima. “Quando a Casa Lar abriu, foi escolhido um casal. Tinha que ser uma pessoa casada. E a gente foi morar nessa Casa Lar”, contou. Ela narra episódios de assédio, ameaças e constrangimento, especialmente dirigidos às meninas totalmente destituídas das famílias biológicas, consideradas mais vulneráveis pelo agressor.

“Ele mexia com as meninas que não tinham voz, com as meninas que ele sabia que não tinham ninguém por elas. E eu, graças a Deus, de certa forma eu tinha [família]. Então, ele tinha medo. Ele atacava quem era indefeso, quem não tinha ninguém por elas, as meninas que não tinham parente vivo, não tinham família. Era com essas que ele mexia”, relatou.

A entrevistada descreve a atmosfera de medo e silenciamento que imperava no local. “Mesmo quando a gente falava sobre o que estava acontecendo, a gente saía como louca. Teve uma menina que denunciou, que a gente foi na delegacia… depois ela sumiu, ninguém sabe nada dela, ninguém sabe pra onde levaram ela, ela simplesmente sumiu. E ninguém fez nada. Nem psicóloga, nem diretor, nem as freiras”, afirmou.

Ela detalha ainda que, durante a noite, o acusado aproveitava momentos em que as meninas pediam bênção para forçá-las a sentar em seu colo e beijá-lo, sob a justificativa de que ele era o “pai” delas. “A gente parou de pedir bênção porque ele aproveitava o momento que a gente ia pedir bênção pra abraçar, pra beijar, pra forçar a sentar no colo dele. E ela [a esposa] falava: vocês têm que pedir bênção, vocês têm que beijar, porque ele é um pai. Ele é o pai de vocês”, recorda.

A entrevistada relata ter fugido da instituição em razão dos abusos e da omissão dos responsáveis, mas acabou sendo devolvida pela própria mãe. “Eu era taxada como a ovelha negra, como a revoltada. E eu fugi porque eu não aguentava”, afirmou.

Desaparecimentos e silenciamento

O depoimento também faz referência ao desaparecimento de meninas que tentaram denunciar os abusos. Segundo ela, uma das vítimas, identificada como Camila, foi a primeira a procurar a delegacia e, após a denúncia, “sumiu” sem que as demais soubessem seu paradeiro. “Ela denunciou que foi abusada, que foi tocada por ele, que ele ejaculou nela. Todo mundo tinha medo. Tinha medo de morar na rua”, relatou.

A entrevistada também menciona o caso da primeira vítima que concedeu entrevista à CGN e que também foi tirada do convívio das demais após fazer denúncias. “A gente foi juntas para a escola e ela não voltou. Então a gente perguntava, cadê? E ninguém falava. Ela simplesmente desapareceu. Ninguém sabe para onde ela foi. Tempo depois, a gente reencontrou ela. E a gente também saiu de lá. A gente ficou maior de idade, a gente reencontrou. E a gente começou a conversar, a juntar as coisas”, afirmou.

Reação à prisão e mobilização

Ao tomar conhecimento da prisão do suspeito, a vítima relata ter sentido alívio e indignação. “Eu estava trabalhando quando eu recebi a notícia. Eu não sabia se eu chorava, se eu dava risada, se eu comemorava. Porque são muitos anos esperando alguém enxergar, alguém ver, alguém denunciar. São anos que a gente foi calada, que a gente foi taxada como louca”.

Ela afirma que, atualmente, as antigas moradoras da Casa Lar têm se mobilizado para buscar justiça e dar visibilidade às violações sofridas. Agora adultas, elas criaram um grupo de WhatsApp, reunindo mulheres de várias partes do país que teriam sido vítimas do suposto abusador.  “Até peço a quem puder investigar a fundo isso, desde lá do Recanto, vocês vão descobrir muita coisa. Vocês vão achar muita coisa podre por trás disso, desde adoção irregular, espancamento, criança que não podiam comer, que ficavam trancadas no banheiro”, afirmou, pedindo apoio para que as vítimas sejam ouvidas.

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