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Quem tem medo da liberdade?

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Quem tem medo da liberdade?

Por Redação CGN

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Editorial – As urnas falaram no domingo (25). Luiz Inácio Lula da Silva foi reeleito com 51,79% dos votos válidos, pouco mais de 64 milhões de brasileiros. Do outro lado, quase 60 milhões votaram em Flávio Bolsonaro. Dois dias depois, o senador deixou o país rumo aos Estados Unidos, após o ministro Alexandre de Moraes determinar a entrega de seu passaporte. Aliados falam em exílio e perseguição política. Mas, deixando os bastidores de Brasília e Washington de lado, a pergunta que interessa ao cidadão comum de Cascavel é outra: o que muda na vida de quem acorda cedo, abre a loja, paga o boleto e paga o imposto?

Se depender do roteiro que já conhecemos, muda pouco. Há quatro anos, quando Lula derrotou Jair Bolsonaro, pai de Flávio, as redes foram tomadas por uma campanha contra o Nordeste e contra empresas identificadas com o petismo e a esquerda. Qual foi o resultado prático? Nenhum. Quatro anos depois, Lula vence de novo, e a mesma onda volta: listas de comerciantes e profissionais tachados de “petistas” circulam em grupos de WhatsApp, sobretudo no Sul, onde Flávio passou dos 62% dos votos.

Sejamos francos. Se o eleitor de direita levasse um boicote a sério e não cedesse, empresas que apoiam o petismo teriam problemas reais aqui no Paraná, e em Cascavel em especial. A recíproca não é tão verdadeira nesta região. O problema é que a direita não consegue se organizar para sustentar esse tipo de mobilização: começa barulhenta e se dispersa em poucas semanas.

O governo, por sua vez, reagiu rápido. O líder do governo na Câmara, Paulo Pimenta (PT-RS), acionou o Ministério Público Federal e a Polícia Federal para identificar os autores das campanhas. O Ministério do Trabalho condenou a mobilização, e o Ministério Público do Trabalho contabilizou 530 relatos de assédio eleitoral só depois do segundo turno. A mensagem é clara: quem apoiar ou divulgar boicote pode ser investigado e punido.

É aqui que a história fica interessante.

Janeiro de 2023, Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça. Fernando Haddad, recém-empossado ministro da Fazenda e representante oficial do Brasil no evento, contou à plateia internacional que muita gente havia deixado de consumir produtos de empresas engajadas com o governo anterior, a quem chamou de “extremista”. E fez questão de dizer que ele próprio era um desses consumidores: não compraria “nem um palito de fósforo” de empresa sem compromisso com as causas que defende.

O que Haddad descreveu, num palco mundial e em nome do país, não é exatamente o que parte do eleitorado de direita quer fazer agora? Haddad foi investigado? Foi punido? Não. E não deveria ter sido. Porque o que ele defendeu ali, por mais que se discorde do tom, é liberdade. Qualquer pessoa tem o direito de comprar onde quiser, de frequentar o lugar que quiser, de gastar o próprio dinheiro com quem bem entender. Governo nenhum pode proibir ou ordenar algo diferente. Isso é coisa de ditadura.

E a liberdade não pode ter mão única. O empregador deveria ter o direito de escolher quem trabalha ao seu lado, inclusive quem compartilha dos seus valores, da mesma forma que o empregado escolhe para quem quer trabalhar. Hoje, o trabalhador pode recusar uma vaga ou pedir as contas porque o patrão é de direita, e ninguém chama isso de crime. Basta o empresário fazer o mesmo caminho, no sentido inverso, para virar caso de Ministério Público. E nem sempre o patrão é o lado forte: em muitas empresas da região, é ele quem depende do funcionário. Ainda assim, a lei só protege o empregado. Direito que vale só para um lado não é direito, é privilégio. Ou a liberdade de escolha vale para todos, ou não vale para ninguém.

O mercado vai sofrer com ações e boicotes desse tipo? Vai. Parte do empresariado vai colher tempos magros. Mas isso é do mercado, e o mercado se ajusta com o tempo, sem que o governo precise tomar partido. O que não se admite é o Estado decidir que o boicote de um lado é cidadania exibida em Davos e o boicote do outro é caso de polícia.

Presidente Lula, o senhor foi reeleito presidente do Brasil, não presidente dos petistas. Se fosse diferente, quase 60 milhões de brasileiros teriam o direito de não pagar impostos, de não ajudar a sustentar o país que o senhor governa. Eles vão pagar, como sempre pagaram. Por isso mesmo, tomar medidas que beneficiam apenas um dos lados não é correto. Dar direitos a uma parcela da população retirando-os de outra não é justiça, é revanche. O senhor aponta o dedo para o empreendedor, mas a culpa não é dele: é de um Estado omisso, parcial, que está sufocando uma grande parcela do povo brasileiro. A missão do senhor agora é apaziguar, é mostrar que é líder em atitudes, e não só da boca para fora. O Brasil precisa olhar para quem é de esquerda e para quem é de direita, pensar em todos e não em um lado só.

Caso contrário, mais cedo ou mais tarde, a direita vai aprender a se organizar de verdade. E aí vai boicotar para sempre, seguindo à risca a lição que o seu ministro da Fazenda deu ao mundo.

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