Se você é de esquerda, será que ainda deve votar em Lula?
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Por Redação CGN
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Editorial – O que está acontecendo com Luiz Inácio Lula da Silva? O presidente passou a defender propostas que, até pouco tempo atrás, eram combatidas por setores de seu próprio partido. A mudança é tão repentina que fica difícil saber se Lula realmente mudou de opinião ou se simplesmente descobriu que suas antigas convicções já não são suficientes para conquistar a maioria dos brasileiros.
Se você é de esquerda e acredita nas bandeiras que o PT defendeu durante décadas, talvez seja a hora de fazer uma pergunta: o Lula que pede seu voto hoje ainda representa aquilo em que você acredita?
Afinal, quando um político muda seu discurso justamente no momento em que precisa desesperadamente de votos, é legítimo desconfiar de suas intenções.
E motivos para desconfiar não faltam.
Lula perdeu o primeiro turno e parece ter descoberto as pautas da direita
O resultado das urnas foi um recado contundente. Flávio Bolsonaro recebeu 47,03% dos votos válidos, enquanto Lula ficou com 45,16%. Foram mais de 2,2 milhões de votos de diferença.
Pela primeira vez nesta eleição, Lula teve de encarar uma realidade desconfortável: o eleitorado não demonstrou a confiança que ele esperava para garantir sua permanência no poder.
E o que fez o presidente?
Em vez de apresentar uma avaliação profunda dos erros de seu governo, passou a incorporar ao discurso propostas historicamente identificadas com seus adversários.
A mais emblemática delas é a redução da maioridade penal.
Durante anos, a esquerda brasileira resistiu a essa medida. Agora, às vésperas do segundo turno, Lula declarou ser favorável à responsabilização penal a partir dos 16 anos para determinados crimes graves.
Mas existe um detalhe que torna toda essa história ainda mais interessante: nem mesmo dentro do PT há consenso sobre a proposta.
Ou seja, Lula procura transmitir ao eleitorado uma posição que enfrenta resistência no próprio campo político que o sustenta.
Como confiar em uma promessa quando nem os aliados do presidente parecem dispostos a defendê-la?
Será que Lula realmente mudou de pensamento? Será que finalmente reconheceu a necessidade de endurecer a legislação contra criminosos? Ou será que a aproximação com uma pauta da direita tem uma finalidade muito mais simples: conquistar votos?
A resposta definitiva depende de suas atitudes. Mas o momento escolhido para essa mudança é, no mínimo, conveniente.
Alcolumbre: quando uma pauta interessa, ela anda; quando incomoda, ela para
O comportamento do presidente do Senado, Davi Alcolumbre, acrescentou outro capítulo a essa história.
O Senado acelerou a discussão e aprovou a proposta que acaba com a escala de trabalho 6×1, justamente em um momento politicamente favorável ao presidente Lula.
Não se discute aqui apenas o mérito da proposta, que merece uma avaliação séria de seus benefícios e impactos econômicos. A questão é o uso político do calendário legislativo em pleno segundo turno de uma eleição presidencial.
Por que determinadas propostas passam a receber tratamento prioritário exatamente quando podem beneficiar um candidato?
A situação ficou ainda mais curiosa na quinta-feira (15).
Quando a discussão chegou à PEC da Segurança Pública, que recebeu emendas para reduzir a maioridade penal, Alcolumbre decidiu retirar a matéria da pauta.
O presidente do Senado justificou a decisão pela necessidade de ampliar as negociações e evitar uma votação precipitada. Também negou que estivesse atendendo a um pedido do governo.
Essa é sua explicação.
Mas a coincidência política merece ser examinada.
De um lado, uma proposta popular, cujo avanço pode render dividendos eleitorais a Lula, recebe celeridade. De outro, uma votação que expõe as divergências do PT e ameaça colocar o presidente em uma situação desconfortável acaba adiada.
A decisão foi regimentalmente possível. Mas nem tudo aquilo que o regimento permite está imune a questionamentos políticos.
Quem ganha com esse adiamento?
Quem deixa de enfrentar o desgaste de uma votação que poderia revelar as contradições entre o discurso presidencial e as convicções de sua base?
Alcolumbre não pertence ao PT. Isso, porém, não impede que suas decisões tenham consequências favoráveis ao projeto eleitoral do presidente.
E há outra pergunta que merece atenção: quais interesses aproximam os diferentes grupos políticos que hoje ajudam a sustentar a governabilidade e a candidatura de Lula?
Não é necessário presumir acordos secretos para reconhecer que decisões aparentemente administrativas podem produzir resultados eleitorais bastante concretos.
O eleitor de esquerda ficou sem saber quem Lula realmente é
Existe uma contradição que os apoiadores mais fiéis do presidente deveriam considerar.
Durante anos, Lula construiu sua imagem como representante de um determinado conjunto de ideias. Agora, pressionado pelas urnas, aproxima seu discurso de propostas tradicionalmente defendidas por seus adversários.
É claro que um político pode mudar de opinião. Aliás, reconhecer erros deveria ser uma virtude.
Mas mudanças de convicção exigem explicações, coerência e compromisso.
O problema aparece quando elas acontecem justamente na reta final de uma campanha, sem que o eleitor saiba se representam uma transformação verdadeira ou apenas uma estratégia para permanecer no poder.
Se Lula realmente acredita na redução da maioridade penal para crimes hediondos, por que essa prioridade não foi defendida com a mesma intensidade ao longo de seu governo?
Por que somente agora?
O eleitor tem o direito de exigir mais do que declarações feitas diante das câmeras.
Porque palavras são fáceis. Compromissos políticos são medidos pelas decisões tomadas quando as eleições já terminaram.
Lula não sabia que o próprio governo deixou o Bolsa Família sem reajuste
Mas talvez o momento mais revelador da quinta-feira tenha ocorrido durante a entrevista de Lula ao Jornal Nacional.
Ao ser questionado sobre a ausência de reajuste do Bolsa Família durante seu terceiro mandato, o presidente afirmou que desconhecia a situação até pouco antes da eleição.
É difícil imaginar uma declaração mais preocupante.
Estamos falando do principal programa de transferência de renda do governo federal, uma das maiores vitrines políticas do próprio Lula.
Como o presidente da República não sabia que o benefício permanecia sem reajuste havia anos?
Quem estava acompanhando a perda de poder de compra das famílias atendidas pelo programa?
Quem deveria ter informado o presidente?
O governo anunciou posteriormente um aumento de 15% no benefício. Mas isso não elimina a questão central: por que foi necessário chegar tão perto da eleição para que o problema recebesse a atenção devida?
O brasileiro que faz compras no supermercado não precisa de uma equipe de assessores para descobrir que seu dinheiro perdeu poder de compra.
A mãe que precisa escolher entre alimentos, material escolar e contas domésticas sabe exatamente quanto o dinheiro rende.
O trabalhador que vê o salário desaparecer antes do fim do mês conhece uma realidade que parece surpreender quem ocupa o Palácio do Planalto.
E Lula, que construiu sua trajetória política afirmando conhecer as dificuldades dos brasileiros mais pobres, declarou desconhecer justamente uma questão essencial para milhões dessas famílias.
É uma admissão grave, independentemente da preferência partidária de quem a escuta.
O presidente que não sabe precisa começar a responder
O desconhecimento alegado sobre o Bolsa Família também levanta uma questão mais ampla: até que ponto Lula acompanha efetivamente as decisões e os problemas de seu governo?
A administração federal enfrenta questionamentos sobre gastos públicos, sustentabilidade fiscal, segurança e o impacto do endividamento das famílias.
Há ainda escândalos financeiros, como o caso Banco Master, envolvendo investigações e suspeitas que precisam ser esclarecidas com rigor, sem transformar acusações ainda não comprovadas em condenações antecipadas.
Diante desse cenário, não basta ao presidente afirmar que desconhecia determinado problema.
Governar é assumir responsabilidades, inclusive por falhas que não tenham sido pessoalmente determinadas pelo chefe do Executivo.
O presidente não precisa conhecer cada detalhe administrativo. Mas deve conhecer as condições dos principais programas de seu governo, sobretudo daqueles que afetam diretamente a sobrevivência de milhões de brasileiros.
Quando algo dá certo, o mérito costuma ser reivindicado pelo governo.
Quando dá errado, a responsabilidade não pode simplesmente desaparecer.
Lula mudou de ideia ou está tentando mudar a ideia do eleitor?
O que se vê nesta reta final de campanha é um presidente empenhado em reconstruir sua imagem diante de um eleitorado que já demonstrou resistência à sua continuidade no poder.
Para isso, Lula apresenta novas promessas, incorpora pautas historicamente associadas à direita e tenta convencer os brasileiros de que um novo mandato será diferente.
Mas existe uma pergunta inevitável: se tantas dessas medidas são importantes, por que não receberam a mesma prioridade durante os quatro anos em que ele esteve no comando do país?
Por que as soluções aparecem com tanta intensidade justamente depois de uma derrota no primeiro turno?
O presidente teve tempo, instrumentos políticos e uma ampla estrutura de governo para demonstrar suas prioridades.
Agora pede ao eleitor que confie em uma nova versão de seu discurso.
E essa é justamente a questão.
O eleitor não deveria avaliar um governante apenas pelo que ele promete fazer depois da eleição, mas principalmente pelo que fez enquanto teve oportunidade.
Se você é de esquerda, deve se perguntar se as posições apresentadas por Lula ainda correspondem àquelas que o levaram a apoiá-lo.
Se você defende maior rigor na segurança pública, precisa avaliar se a promessa feita agora tem consistência suficiente para ser cumprida.
Se você reprova a atuação política de Davi Alcolumbre, vale observar os efeitos de suas decisões sobre a disputa presidencial.
E, independentemente de sua posição ideológica, deve exigir explicações de um presidente que afirmou desconhecer a situação de um dos programas mais importantes de seu próprio governo.
O Brasil não precisa de um presidente que descubra os problemas do país apenas quando corre o risco de perder uma eleição.
Precisa de alguém que os reconheça e enfrente enquanto governa.
No fim, talvez a principal pergunta desta eleição não seja se Lula está mais à esquerda ou mais à direita.
A pergunta é outra: o que Lula realmente acredita, e quanto de seu discurso atual continuará existindo depois que as urnas forem fechadas?
Porque uma eleição passa.
Mas as consequências da escolha de um presidente permanecem por quatro anos.