Cascavel ganha poder nas urnas; agora terá de mostrar força fora delas, diz analista
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Por Luiz Haab
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Cascavel saiu das urnas com mais espaço nas decisões do Paraná e de Brasília. Transformar essa representação em energia para a indústria, infraestrutura de transporte e capacidade de negociação será, porém, o verdadeiro teste dos eleitos. Para o analista político Heroldo Secco Júnior, a oportunidade aberta pela eleição depende de uma condição ainda por demonstrar: a disposição das lideranças de trabalhar por uma agenda regional comum.
Em entrevista ao jornalista Luiz Henrique Haab, no Estúdio CGN, na tarde desta terça-feira (6), Secco avaliou o novo cenário político a partir de uma cidade que elegeu quatro deputados estaduais — Gugu Bueno (PSD), Professor Lemos (PT) Fão do Bolsonaro (PL) e Batatinha (PSD) — e dois federais, Leonaldo Paranhos (PSD) e Henrique Mecabô (Novo).
A esse grupo se soma Edson Vasconcelos (PL), eleito vice-governador na chapa de Sérgio Moro (PL), vencedor da disputa pelo governo do Paraná no primeiro turno. Na avaliação do entrevistado, a presença do empresário no Executivo estadual pode ampliar a influência do Oeste sobre projetos estruturantes.
“Isso traz uma força realmente para o Oeste que nós não tínhamos antes”, afirmou.
O desenvolvimento depende de infraestrutura
Secco vê na participação de Vasconcelos uma possibilidade de aproximar as demandas produtivas da região das prioridades do governo. O salto industrial de Cascavel, ponderou, exige condições concretas para produzir e transportar mercadorias.
“Para crescer industrialmente precisa de energia. Para essa energia chegar, precisamos de subestações operacionais. Para a produção escoar a um custo razoável, precisamos de ferrovia operacional, precisamos de rodovias com pedágios realmente econômicos.”
O diagnóstico coloca em discussão o alcance da atuação parlamentar. Segundo o analista, a região já contou com representantes capazes de atrair recursos, mas essa movimentação não foi suficiente para resolver seus principais gargalos.
Com uma representação distribuída entre diferentes partidos, a capacidade de cooperação passa a ser decisiva. Secco questionou como experiência, renovação e interesses eleitorais vão conviver entre os deputados ligados à cidade.
“Essa questão de trabalhar em conjunto para o Oeste do Paraná é uma nova história.”
Paranhos e Mecabô: trajetórias diferentes, cobrança compartilhada
Na Câmara dos Deputados, Secco identifica dois perfis que terão de responder a expectativas distintas. Paranhos chega com uma trajetória consolidada na política municipal e estadual. Mecabô representa, na leitura do analista, um eleitorado que procura mudanças mais rápidas e outra forma de interlocução.
“Inegavelmente, Paranhos tem uma história política de sucesso”, declarou. O reconhecimento veio acompanhado de uma ressalva: realizações administrativas que sustentaram carreiras anteriores podem ter perdido parte de sua capacidade de mobilização.
Para Secco, o eleitor mais jovem cobra também respostas sobre qualidade da educação, oportunidades e preparação para o mercado de trabalho.
“Lógico que nós queremos ruas bem asfaltadas, é lógico que nós queremos escolas bem construídas, mas e a educação?”
A cobrança sobre Mecabô, por sua vez, estará ligada à capacidade de construir protagonismo. Ao avaliar sua passagem pela vice-prefeitura, Secco afirmou que o político não encontrou o espaço que esperava.
“Esse espaço que ele não ocupou na prefeitura, ele terá que mostrar que ocupará na Câmara dos Deputados.”
Apesar das diferenças entre os dois, o analista aposta em uma atuação convergente. Também apontou Paranhos como uma liderança com potencial para ampliar sua presença em municípios da região que ficaram sem os representantes que pretendiam eleger.
“O cargo não começa em janeiro, fevereiro, começa no dia seguinte da eleição.”
O recado das urnas aos políticos tradicionais
Na interpretação de Secco, o resultado eleitoral expõe uma mudança na relação entre representantes e eleitores. Histórico político, sobrenome conhecido e entrega de recursos continuam relevantes, mas já não asseguram a mesma fidelidade.
Sua crítica mais direta foi ao modelo de exposição baseado em cerimônias e inaugurações.
“Aquele candidato, aquele político que ainda acha que uma inauguração vai trazer voto está muito enganado.”
O avanço de nomes com presença nas redes sociais, segundo ele, deve ser entendido também como uma cobrança por identificação e coerência. A comunicação digital permite comparar com mais facilidade o discurso de campanha com o comportamento no mandato.
“Não pode ter duas caras. Falar algo nas redes sociais e na vida política atuar de forma diferente, porque hoje se comparam muito as duas.”
Secco ponderou, contudo, que os novos nomes também terão de entregar resultados. A capacidade de conquistar atenção não elimina a cobrança pelo exercício do cargo.
Ao comentar candidaturas que não alcançaram uma cadeira, o analista evitou tratar todos os resultados como fracassos. Sobre Bia Alcântara (PT), destacou a construção de uma identidade própria e o diálogo com novos públicos. No caso de Márcio Pacheco (Republicanos), avaliou que a tentativa de chegar à Câmara Federal precisa ser compreendida dentro dessa transformação do eleitorado.
“É uma nova realidade política que os da antiga, os ocupantes de cargo, têm que fazer uma leitura e caminhar para frente.”
Moro venceu; a articulação será o próximo teste
Secco atribuiu a vitória de Moro à combinação de três fatores: a demora do grupo de Ratinho Junior (PSD) para definir a sucessão, as dificuldades de comunicação de Sandro Alex (PSD) com novos eleitores e a mobilização bolsonarista.
Na avaliação dele, a escolha de Vasconcelos também ajudou a responder às dúvidas sobre a experiência administrativa da chapa.
“Essa foi a grande felicidade do Moro, colocar um vice que cobria as eventuais dificuldades que ele teria na parte operacional.”
A vitória, entretanto, abre uma etapa diferente. Para o analista, a relação com a Assembleia Legislativa e a escolha de sua próxima presidência serão indicadores da capacidade de sustentação do governo.
Questionado sobre a habilidade de Moro para negociar, Secco deslocou a resposta para o entorno do governador eleito: “O grupo político dele tem”.
O segundo turno também será disputado entre os ausentes
No cenário nacional, Secco prevê um ambiente parlamentar mais favorável a Flávio Bolsonaro (PL) do que a Lula (PT). Ainda assim, considera que a negociação com o centro continuará necessária para construir maiorias.
Ao abordar possíveis conflitos entre Senado e Supremo Tribunal Federal, o analista fez críticas a ministros, mas afirmou rejeitar perseguições por divergência política.
“Caça às bruxas simplesmente por não concordar com ele, não, eu sou o contrário.”
Para a disputa presidencial, sua principal advertência foi dirigida à circulação de mensagens que desacreditam o processo eleitoral. Na avaliação de Secco, esse discurso pode desmobilizar justamente os eleitores que seus autores pretendem conquistar.
“Às vezes a pessoa vota num senador por proximidade e faz outra escolha contrária para o presidente”, observou, ao contestar comparações que pressupõem fidelidade automática entre votos para cargos diferentes.
O desafio das campanhas, concluiu, passa por convencer quem não participou do primeiro turno a comparecer ao segundo.
“Convença o eleitor a ir até a urna, é isso que fará a diferença no Brasil.”