Quem é o dono da VoePass indiciado pela PF por desastre aéreo com 62 mortos
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Por Diego Cavalcante
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José Luiz Felício Filho assumiu o comando da VoePass em outubro de 2023, após a morte do pai, o empresário José Luiz Felício, fundador da antiga Passaredo Linhas Aéreas. Herdeiro da companhia criada pela família em Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, ele passou a liderar a empresa justamente no período mais turbulento de sua história, marcado pelo acidente aéreo de Vinhedo, em agosto de 2024, pela suspensão das operações e, posteriormente, pela cassação do certificado da companhia pela Agência Nacional de Aviação Civil (Anac).
Nesta quinta-feira (6/8), Felício Filho foi indiciado pela Polícia Federal (PF) no inquérito que apura responsabilidades criminais pela queda do voo 2283, que matou 62 pessoas. Segundo a investigação, ele integrava a cadeia de decisões da empresa apontada pela PF como responsável por falhas de gestão, manutenção e segurança que contribuíram para o acidente.
Antes de assumir a presidência da Voepass, José Luiz Felício Filho já fazia parte da administração da empresa familiar e acompanhou a expansão da antiga Passaredo, que passou por um processo de rebranding em 2019, adotando o nome Voepass. A companhia também ganhou espaço no mercado regional com a compra da MAP Linhas Aéreas e uma parceria comercial com a LATAM, que foi encerrada após o acidente.
A Voepass nasceu em Ribeirão Preto em 1995, sob o nome Passaredo Transportes Aéreos, fundada por José Luíz Felício, neto de libaneses e natural de Mococa, também no interior paulista, e que morreu em 2023, segundo informações da Associação Brasileira das Empresas Aéreas (ABEAR).
Foi com o atual presidente que a Passaredo adquiriu, em 2019, a MAP Linhas Aéreas, ampliando a atuação da aérea em Congonhas. Além disso, Felicio Filho também é associado da ABEAR e tem integrado reuniões da entidade com políticos e representantes do Governo no intuito de debater assuntos que impactam o setor.
O empresário já havia enfrentado problemas na Justiça em razão da frustrada venda da companhia ao Grupo Itapemirim, em 2017. Na época, o Ministério Público de São Paulo investigou suspeitas de crimes como apropriação indébita e lavagem de dinheiro. Em fevereiro de 2024, porém, a investigação foi arquivada por falta de provas, e a Promotoria concluiu que Felício Filho e sua esposa haviam sido vítimas das irregularidades praticadas pelos antigos controladores da Itapemirim.
Após o desastre de Vinhedo, a situação da Voepass se deteriorou rapidamente. As investigações do Cenipa apontaram uma sequência de falhas técnicas, operacionais e de gestão, enquanto auditorias da Anac identificaram problemas estruturais e reincidência de irregularidades. Em 2025, a agência suspendeu as operações da empresa e, meses depois, cassou definitivamente seu Certificado de Operador Aéreo. A companhia ainda entrou em recuperação judicial com uma dívida superior a R$ 400 milhões.
Com o indiciamento da Polícia Federal, José Luiz Felício Filho passa a ser um dos principais alvos da investigação criminal sobre o maior acidente da aviação comercial brasileira desde 2007. O relatório da PF concluiu que a queda do ATR-72 foi resultado de uma combinação de falhas na gestão da empresa, na manutenção da aeronave e na condução operacional do voo, elementos que agora serão analisados pelo Ministério Público para eventual apresentação de denúncia à Justiça.
Piloto comparou avião da Voepass a “fusquinha”
Instantes antes da queda do avião da Voepass, que resultou na morte de 62 pessoas em Vinhedo, interior de São Paulo, em agosto de 2024, a tripulação reclamou dos sistemas de degelo e comparou a aeronave a um “Fusquinha”. A investigação da Polícia Federal (PF), que será apresentada nesta quinta-feira (6/8), aponta que o acúmulo de gelo no avião foi um dos motivos para o acidente.
No documento, ao qual o Metrópoles teve acesso, a PF transcreveu as conversas do piloto e copiloto na cabine da aeronave. Às 15h15, um sinal sonoro identificou a falha no sistema de degelo. “É o Airframe que deu fault. Pode tirar, pode tirar, pelo menos a gente já sabe que tá… f*dido”, disse o piloto.
O copiloto responde: “Olha a situação. Se bem que não está reportado isso aí, mas, para a gente não pegar gelo, teria que ir no 110, né? [110 é referência ao nível de voo na altitude FL110]”. No minuto seguinte, um novo sinal sonoro indica que o sensor identificou o acúmulo de gelo na aeronave.
“Foi só eu falar. O avião escutou. Esse avião parece aquele Fusquinha, Herbie. Um filme bem antigo”, reagiu o piloto. Na obra cinematografica, Herbie é um fusca com emoções e vida própria encontrado por uma garota em um ferro velho.
Cerca de uma hora depois, às 16h20, a tripulação inicia os procedimentos de aterrissagem, mas continua com problemas no sistema de degelo. “Essa bosta não tá funcionando, né?”, questiona o piloto. O copiloto assentiu. O último registro de comunicação na cabine registrado pela PF foi um alerta de pull-up, comando de voz crítico emitido pelo sistema de aviso de proximidade do solo, às 16h22.
Qual é a conclusão da PF sobre o acidente da Voepass
- Condições meteorológicas e falha em sistema: a PF afirma que o voo aconteceu em condições meteorológicas adversas, com frente fria ativa, ar úmido e formação severa de gelo. O laudo destaca que, embora a aeronave tivesse equipamentos anti-gelo, os sistemas registraram falhas no dia do acidente e nos três voos anteriores.
- Operação deveria ter sido interrompida: no documento, a investigação conclui que diferentes tripulações não seguiram uma determinação técnica sobre a reinicialização do sistema de degelo e que a indisponibilidade do equipamento deveria vedar a operação da aeronave naquelas condições. A PF, no entanto, ressalta que “não é possível afirmar se o funcionamento adequado do sistema de degelo seria suficiente para evitar o sinistro”.
- Desempenho insuficiente: os peritos afirmam que, apesar dos alertas, a tripulação não executou os procedimentos previstos. “A sequência de eventos mostra que a tripulação manteve seu foco de atenção em tarefas da cabine, comunicação com o despacho em Guarulhos e preparação para procedimentos de aproximação e pouso, incluindo checklists e briefing, de forma que se mantiveram alheios aos alertas.” O laudo menciona que a tripulação estava habilitada, “de forma que não é possível determinar a razão da não execução adequada desses procedimentos”.
- Irregularidade no despacho: embora não tenha relação direta com o acidente, o despacho para o voo PTB-2283 não respeitou a Lista de Equipamentos Mínimos (MEL), pois a aeronave operou com os limpadores de para-brisa inoperantes mesmo com previsão de chuva no destino, o que deveria ter impedido a decolagem.
- Conclusão: “A causa do sinistro foi a perda de controle em voo, decorrente do acúmulo de gelo na aeronave, da inoperância do sistema pneumático de degelo da estrutura e da não execução tempestiva e adequada dos procedimentos”, sintetiza a PF no laudo.
O laudo tem 200 páginas e detalha a análise técnica das autoridades, incluindo exames no local do acidente, registros meteorológicos e o funcionamento de sistemas de proteção da aeronave. Os dados foram obtidos a partir das caixas-pretas do voo PTB-2283, computadores de bordo e vídeos de testemunhas. O texto também detalha o treinamento e protocolos adotados pela tripulação e o histórico de manutenção da aeronave.
Tragédia da Voepass
O voo PTB-2283 caiu em Vinhedo, no interior paulista, em 9 de agosto de 2024. Naquele dia, o avião da empresa Voepass saiu do Aeroporto Coronel Adalberto Mendes da Silva, em Cascavel, no Paraná, às 11h58, com destino ao Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos.
A aeronave era comandada pelo piloto Danilo Romano, de 35 anos, e pelo copiloto Humberto de Campos Alencar e Silva, de 61 anos. A tripulação contava ainda com as comissárias de bordo Debora Soper Avila, 28, e Rubia Silva de Lima, 41.
Os 58 passageiros tinham comprado as passagens pela Latam, que comercializava os voos da Voepass. Segundo as famílias, alguns deles não sabiam que viajariam pela empresa.
O voo transcorreu aparentemente sem problemas até pouco antes da queda. Três minutos antes do acidente, os pilotos avisaram a torre de comando, em São Paulo, que estavam no ponto ideal para descer rumo ao aeroporto em Guarulhos. Às 13h21, no entanto, o avião começa a perder altitude repentinamente. Um minuto depois, a aeronave caiu no condomínio de casas Residencial Recanto Florido, em Vinhedo, no interior paulista.
O acidente deixou 62 mortos, sendo 58 passageiros e 4 tripulantes. Não houve sobreviventes. Ninguém no solo se feriu.
Minidocumentário do Metrópoles reconta o caso
No ano passado, o Metrópoles mergulhou nas informações sobre o caso, entrevistou familiares, e apurou o que aconteceu desde o acidente até então. O resultado deste trabalho você pode acompanhar no minidocumentário “A história do voo 2283”, que relembra os principais pontos deste caso.
Com informações do Metrópoles