Com dívidas, cascavelense comprou RG falso na dark web e foi ao Banco do Brasil pegar R$ 47 mil
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Por Redação CGN
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Era uma terça-feira comum na agência do Banco do Brasil na Avenida Brasil, no centro de Cascavel, quando uma mulher entrou pela porta com documentos em mãos e pediu para abrir uma conta.
O que o gerente não sabia é que o RG apresentado era falso — comprado, segundo a própria cliente admitiria depois, numa plataforma clandestina da internet hospedada na “deep web”. O nome na carteira de identidade pertencia a uma mulher real, que vivia a centenas de quilômetros dali e que nunca tinha pisado naquela agência.
A conta foi aberta. Cartão de crédito com limite de R$ 20 mil, desbloqueado. Acesso via aplicativo, ativado. E um pedido de empréstimo de R$ 47 mil já engatilhado.
A mulher que “existia” a 20 anos de distância
A verdadeira dona dos documentos descobriu que tinha uma conta bancária da forma mais desconcertante possível: uma ligação de um gerente de banco de uma cidade que ela não visitava há mais de duas décadas.
O gerente queria confirmar uma análise de crédito. Ela não sabia do que ele estava falando. Informou que seus documentos tinham sumido há algum tempo. Disse que nunca pediu nenhum empréstimo. Disse que não tinha conta no Banco do Brasil.
Do outro lado da linha, o gerente entendeu o que estava acontecendo. Bloqueou a conta na hora.
A mulher não perdeu um centavo. Mas soube, naquele telefonema, que alguém havia tentado usar seu nome — seu RG, sua identidade, sua existência — para pegar R$ 47 mil emprestado numa cidade que ela mal lembrava de ter conhecido.
De volta à agência
A mulher que havia aberto a conta fraudulenta foi chamada de volta à agência — aparentemente para assinar documentos que liberariam o empréstimo. Quando chegou, a Polícia Militar já estava esperando.
Quando abordada, disse o próprio nome de imediato. Confessou na hora.
Disse que estava passando por dificuldades financeiras. Que tinha comprado o RG falso na dark web. Que não tinha conseguido pegar os R$ 47 mil porque a conta foi bloqueada a tempo. Mas admitiu que, antes do bloqueio, tinha usado o cartão vinculado à conta fraudulenta numa compra de R$ 500 num supermercado.
Chorou.
O julgamento
O caso foi a julgamento esta semana na 3ª Vara Criminal de Cascavel. A defesa tentou argumentar que o crime ficou na tentativa — afinal, o grande empréstimo nunca saiu. Tentou também invocar o princípio da insignificância, já que o valor efetivamente obtido foi de apenas R$ 500.
A juíza rejeitou os dois argumentos. Para ela, o estelionato estava consumado no momento em que os R$ 500 foram gastos — independentemente do valor maior que não foi conseguido. E a insignificância não se aplicava porque a acusada havia tentado obter R$ 67 mil no total, usando documento falso para isso, o que demonstrava planejamento e gravidade.
A sentença reconheceu ainda que o uso do RG falsificado foi absorvido pelo próprio estelionato — o documento foi apenas o meio para chegar ao fim.
A pena fixada foi de um ano de reclusão, convertida em prestação de serviços à comunidade. Ela poderá recorrer em liberdade.
O caso, expõe uma cena que poderia ser de Hollywood, uma cadeia que começa no anonimato da internet — onde identidades falsas circulam em mercados clandestinos — e termina num balcão de banco, com uma pessoa real do outro lado, que não faz ideia de que seus documentos estão sendo usados para pedir dinheiro em seu nome.
A verdadeira dona dos documentos saiu ilesa financeiramente. Mas o telefonema que recebeu naquele dia — perguntando sobre uma conta que ela jamais abriu, em uma cidade que ela não via há 20 anos — é o tipo de coisa que não se esquece facilmente.
Cabe destacar que a condenação ainda está sujeita a recurso. O espaço permanece aberto para manifestação de qualquer parte envolvida (mesmo sem serem identificados) que queira apresentar esclarecimentos.