Caso Nando: “Ela assumiu o risco de matar e deve ir a júri popular”, defende advogado da mãe do menino atropelado e morto em Cascavel

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Por Luiz Haab

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Em entrevista exclusiva, a mãe do menino Nando, Mônica Souza, esteve acompanhada no estúdio da CGN pelos advogados Lauri da Silva e Vinícius Broetto Raini. Eles falaram sobre a audiência de instrução realizada na terça-feira (2) e revelaram novos detalhes sobre o andamento do processo e como a família tem enfrentado a fase mais decisiva desde a morte de Fernando Souza, em junho de 2024, após ser atropelado na calçada, no Centro de Cascavel.

Segundo os advogados, a audiência do dia 2 de dezembro reuniu depoimentos de testemunhas de acusação e defesa e analisou elementos periciais que, na avaliação deles, indicariam ausência de frenagem e possível aceleração do veículo antes do atropelamento.

“Nós entendemos que aquela conduta não foi um homicídio culposo, e sim um homicídio com o dolo eventual. [A motorista] assumiu o risco de produzir o resultado. Nós, enquanto assistentes de acusação, levamos subsídios para tentar fazer prevalecer a nossa tese”, disse o advogado Lauri da Silva, que também falou sobre as provas reforçadas na audiência:

“Entendemos que foram produzidas boas provas e vamos aguardar agora o decorrer do processo. Na questão da prova pericial, no local dos fatos não existe nenhuma frenagem. Nós temos três elementos de provas que são permitidos em direito. As testemunhas afirmaram, após prestar o compromisso legal em juízo, que eles perceberam a aceleração do veículo. Percebendo a aceleração do veículo com a prova testemunhal. E a prova pericial dizendo que não houve frenagem, conclui-se que houve aceleração. O itinerário que o veículo percorria era a Avenida Piquiri. E o veículo ultrapassou o obstáculo de 24 centímetros da calçada, onde atingiu a vítima, Fernando, atingiu a mãe de Fernando e mais o Vicente. Então, nós temos dois fatos: o primeiro é a primeira colisão que se dá com o motoqueiro. Posterior a isso, o veículo vira para a Rua Paraná e percorre uma longa distância [antes de atingir os três pedestres]”.

O Ministério Público denunciou o caso como homicídio culposo (quando não há intenção de matar). Após a instrução, o MP poderá manter a denúncia ou aditá-la, decisão que influenciará diretamente o rumo do processo, caso seja transformado em dolo eventual (quando a pessoa assume o risco de matar). Nesse caso, o julgamento do processo iria a júri popular.

A dupla de advogados de acusação diz que vai lutar por isso até o fim: “Se esse caso agora não for configurado, nós vamos recorrer e buscar amparar o direito dessa mãe, o direito dessa vítima do Tribunal de Justiça. Não deu o Tribunal de Justiça, vamos brigar e lutar até onde nós conseguirmos.”

Na entrevista, Mônica contou ter ido à audiência acompanhada por psicólogos e relatou desconforto com depoimentos que considerou contraditórios, a exemplo do que disse a condutora do automóvel em outros depoimentos, quando alegou ter prestado todo o apoio às vítimas.

“Eu não estava preparada para ouvir algumas mentiras. […] Ela subiu sobre a calçada. Ela passou sobre minhas pernas. Meu filho estava abraçado a mim, e eu estava protegendo meu filho. Meu filho não estava na rua. Ele ficou comigo, na calçada. Nandinho foi arrastado por 18 metros. Sabe quando você olha uma centrífuga e a roupa dela batendo? É essa imagem que eu tenho do meu filho embaixo do carro. Ela só parou o carro porque eu corri atrás. Eu corri atrás do carro para tirar meu filho. Ela parou o veículo quando ela foi bater na vidraça que virou o veículo. Nesse ato de proteger o veículo, foi quando ela anulou qualquer chance do Fernando ser salvo.”

Ainda restam as alegações finais do Ministério Público, da assistência de acusação e da defesa, cada uma com prazo de dez dias. Depois disso, o processo retorna ao juiz para decisão sobre o enquadramento penal.

Encerrando a entrevista, Mônica destacou que o caso tem repercutido em debates sobre segurança no trânsito e sobre a necessidade de políticas públicas preventivas, e reiterou que sua expectativa é que o desfecho judicial reflita a gravidade do ocorrido.

“Eu digo como cidadã, como mãe e uma das vítimas. Eu já estou presa. Eu estou pagando essa pena. Eu pago a pena há um ano e cinco meses. A minha pena não tem liberdade, eu não vou sair por bom comportamento, muito menos para fazer trabalho comunitário. Eu não procuro vingança, eu procuro justiça.”

A CGN está à disposição para ouvir a defesa da ré, Márcia Pereira Sobrinho.

Resumo do que aconteceu

O que aconteceu com o menino Nando em Cascavel e por que o caso chocou a cidade?
R: Fernando Lorenzo Souza Gehlen, conhecido como Nando, de 9 anos, morreu após ser atropelado na calçada no cruzamento da Avenida Piquiri com a Rua Paraná, em Cascavel, no dia 14 de junho de 2024. O caso gerou forte comoção e mobilizou a população local por justiça e punição exemplar.
Quem foi responsabilizado pela morte de Nando e qual foi a decisão da Justiça?
R: A motorista do Fiat Stilo que atropelou Nando foi responsabilizada e condenada a quatro anos e dois meses de prisão em regime semiaberto, posteriormente convertida em penas restritivas de direitos, por homicídio culposo, ou seja, sem intenção de matar.
A condenação encerrou a disputa judicial?
R: Não. Tanto a defesa da motorista quanto a família de Nando anunciaram que vão recorrer da decisão. A defesa quer reduzir a pena e a família busca que o caso seja reconhecido como dolo eventual, o que pode aumentar a pena e levar a motorista a júri popular.
O que pode acontecer se a tese de dolo eventual for aceita?
R: Se o Tribunal de Justiça do Paraná aceitar que houve dolo eventual, a motorista pode ser levada a julgamento pelo Tribunal do Júri e, se condenada, a pena pode chegar a até 20 anos de prisão.
Como aconteceu o acidente que tirou a vida de Nando?
R: A motorista avançou a preferencial na Avenida Piquiri, colidiu com uma motocicleta e, após perder o controle do veículo, subiu na calçada, atropelando Nando, sua mãe e um amigo da família. Nando morreu na hora.
Quais são os argumentos da defesa da motorista?
R: A defesa afirma que o caso é de homicídio culposo, sem intenção de matar, pois a motorista perdeu o controle do carro após a colisão com a moto e não teve como evitar o atropelamento. Diz ainda que ela não estava usando celular, não estava embriagada e não tentou fugir.
O que dizem a família de Nando e seus advogados?
R: A família de Nando, representada por advogados, defende que a motorista assumiu o risco de matar ao não parar após a primeira batida, não tentar frear e subir na calçada, caracterizando dolo eventual. Eles querem que a motorista seja julgada pelo Tribunal do Júri e receba pena mais dura.
O laudo da perícia apontou tentativa de frear o carro?
R: Segundo laudo particular, não houve tentativa de frenagem imediata após a colisão com a moto. O freio só foi acionado 4,83 segundos depois, o que, para os advogados da família, indica atitude de fuga e agravamento da conduta.
A motorista estava usando celular ou embriagada no momento do acidente?
R: Não. Investigações e perícia no celular indicaram que nenhum aplicativo estava em uso nos momentos anterior e posterior ao acidente, e não há indícios de embriaguez.
Houve tentativa de fuga por parte da motorista?
R: A defesa e o delegado responsável afirmam que não houve tentativa de fuga. A motorista parou o veículo após o atropelamento e permaneceu no local, sendo retirada pelos policiais devido ao tumulto. Já a família de Nando acredita que a demora em parar o carro indica tentativa de fuga.
O que aconteceu com a motorista após o acidente?
R: Ela foi indiciada por homicídio culposo e lesão corporal, respondeu ao processo em liberdade e, segundo seu advogado, teve a vida transformada, deixando o emprego e mudando sua rotina por conta do impacto emocional.
Por que a Prefeitura de Cascavel e o dono do carro não foram responsabilizados?
R: A Justiça excluiu tanto a Prefeitura quanto o proprietário do veículo do processo, entendendo que não havia vínculo de solidariedade com a motorista e que eventuais falhas de sinalização devem ser tratadas em ação separada.
Quais foram as reações da população e da família após o acidente?
R: Houve grande indignação e comoção popular, com manifestações, homenagens, protestos no local do acidente e pedidos por justiça, além de pressões por mais rigor nas leis de trânsito e criação de uma delegacia especializada na cidade.
O caso influenciou debates sobre segurança no trânsito em Cascavel?
R: Sim. O caso Nando impulsionou discussões sobre segurança viária, respeito às leis de trânsito e políticas públicas preventivas, além de ações de conscientização, especialmente lideradas pela mãe de Nando.
Quais mudanças foram feitas no local do acidente após a tragédia?
R: Duas semanas após o acidente, a Transitar instalou uma lombada e reforçou a sinalização vertical e horizontal no cruzamento onde Nando foi atropelado.
Como a família de Nando tem buscado justiça?
R: A mãe de Nando, Mônica Souza, tem liderado campanhas por justiça, divulgado cartas abertas, feito manifestações públicas e buscado apoio para contratar advogados e pressionar por punição exemplar à motorista.
Como está a situação judicial atualmente?
R: Em junho de 2026, a motorista foi condenada, mas tanto a defesa quanto a acusação anunciaram recursos. O caso segue em disputa no Tribunal de Justiça do Paraná, sem decisão definitiva.
O que dizem os advogados sobre a conduta da motorista?
R: A acusação aponta que a motorista não prestou socorro, tentou fugir e assumiu o risco de matar. A defesa rebate, dizendo que ela ficou em estado de choque, não fugiu e não teve intenção de causar o acidente.
Quais provas principais embasam os lados do processo?
R: As principais provas são laudos periciais, imagens de câmeras de segurança, depoimentos de testemunhas e análises da dinâmica do acidente, incluindo tempo de frenagem e trajetória do veículo.
Que impacto o caso teve sobre a mãe de Nando?
R: Mônica Souza relata sofrimento intenso, sensação de impunidade e afirma que, para ela, a dor é uma pena perpétua. Ela se tornou símbolo da luta por justiça e conscientização no trânsito.
O caso Nando pode mudar a forma como crimes de trânsito são julgados em Cascavel?
R: O caso ganhou repercussão e pode servir de exemplo para endurecimento de punições e maior atenção das autoridades a crimes de trânsito, além de inspirar mudanças na legislação local e na fiscalização.
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