Olhar diferenciado é o legado de Cannes 2022

Desta vez, foi o próprio presidente, o ator Vincent Lindon. Quando a mestre de cerimônias, a atriz Virginie Efira, lhe pediu que desvendasse o segredo –...

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Por Agência Estado

No livro Sélection Officielle, Thierry Frémaux contextualiza a importância da Palma de Ouro. Diz que tal filme pode ser melhor para um júri, mas que outro corpo de jurados não chegaria à mesma decisão. Na coletiva, anos atrás, Pedro Almodóvar deixou claro que a decisão de premiar The Square, de Ruben Östlund, não foi dele, como presidente. Como a única pessoa que chegou contente àquela premiação, quem fez campanha por Östlund foi Paolo Sorrentino.

Desta vez, foi o próprio presidente, o ator Vincent Lindon. Quando a mestre de cerimônias, a atriz Virginie Efira, lhe pediu que desvendasse o segredo – “Quem ganhou a Palma?” -, Lindon disse que “nós”, seu júri e ele, “ficamos sacudidos pelo filme de Ruben Östlund”. Sacudidos e maravilhados. Bouleversés (chateados).

E a Palma de Ouro de 2022 foi para Triangle of Sadness, em francês, Sans Filtre. Poucos títulos são tão adequados. Os personagens de Östlund, como o autor, não possuem filtro algum. Refletem o estado do mundo em que vivemos. Há quem goste, muito. Há quem dispense, e também somos muitos. Havia a expectativa de que o júri, na coletiva após a premiação, explicasse suas escolhas. Não houve espaço. Todos responderam à mesma pergunta – como viveram a experiência? Foram quase 40 minutos de babação de ovo. Todo mundo amou as discussões, os filmes. A atriz Noomi Rapace foi a única a tentar explicar o efeito que filmes como o dos irmãos Dardenne, Tori e Lokita, tiveram sobre ela. “Eles me revelaram um mundo de injustiça, mas também de afeto. E os dois atores!”

O júri atribuiu oito prêmios, tendo criado um, o Prêmio do 75.º aniversário do festival, que, justamente, foi para os Dardennes. Dois dos oito, justamente o prêmio do júri e o Grand Prix, foram divididos. Dez premiados e 21 concorrentes, quase a metade. Mesmo assim, o júri de Vincent Lindon conseguiu ignorar completamente o vencedor do prêmio da crítica – Leila e Seus Irmãos, de Saeed Roustaee.

Divórcio

Há tempos não se via um divórcio tão completo entre júri e crítica. Podiam não coincidir na Palma, mas algum prêmio o vencedor dos críticos sempre levava. Roustaee mostra um Irã como nunca se viu na tela. Aliás, esse olhar diferenciado talvez ainda venha a ser o legado desse festival. Não apenas o Irã de Leila, mas também o de Holy Spider, de Ali Abbasi, baseado na história real do serial killer de Mashhad – prêmio de melhor atriz para Zar Amir Ebrahimi -, e o Egito de Boy From Heaven, de Tarik Saleh – vencedor do prêmio de roteiro.

Cannes, como toda a França, aboliu a máscara, recomendada apenas para as sessões. Foi um festival solar, com muita gente nas ruas, na praia. A par da ausência de Saeed Roustaee do Palmarès, o júri conseguiu o absurdo de dividir seu Grand Prix entre o outro maior filme desse festival – Close, de Lukas Dhont, sobre a morte do amigo, a traição do próprio eu – e o que o jornal Le Figaro considerou o pior de todos, atribuindo a Palme de Plomb, de Chumbo, a Claire Denis de Stars at Noon. Terá sido brodagem? Lindon foi ator de Claire em Bastardos, também massacrado em Cannes, mas ele defendeu o filme com paixão.

Acabou. Agora só no ano que vem. O agradecimento mais bonito foi o de Lukas Dhont. Agradeceu à mãe, ao irmão, que choravam na plateia. “Vocês me ajudaram a fazer quem sou.” Um artista sensível às questões de gênero neste mundo às vezes tão intolerante.
As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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