Miltão, o gentleman, desaparece fisicamente e assume dimensão maior
São Paulo, 10 de fevereiro de 1931 – São Paulo, 24 de abril de 2022...
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Por São Paulo FC
Em fevereiro de 2019 tive a satisfação de editar o livro “O São Paulo Futebol Clube no Atletismo. Miltão o Símbolo Tricolor”, Editora InHouse, lançado em uma Reunião do Panathlon Club São Paulo, do qual o querido amigo Dr. Milton Pereira dos Santos era Vice- Presidente, função que exerceu até o dia de sua passagem a uma dimensão maior.
Falar do Miltão, Advogado (Bacharel em Direito pela Universidade Mackenzie), Delegado da Polícia Civil de São Paulo, Membro da Associação dos Delegados Espíritas de São Paulo, Atleta do São Paulo Futebol Clube, Vice Presidente do Panathlon Club São Paulo, pai de família e sobretudo amigo, neste momento em que fisicamente nos deixa, já transformado numa quimera e saudade, embora difícil, paradoxalmente é também um momento senão de alegria, de imensa paz, de compreender a finitude da vida, que como ele sempre em prazerosos papos, judiciosamente dizia: “a vida como tudo, tem início, meio e fim, mas creia que essa finitude é apenas simbólica, de vez que existe algo que a todos nos aguarda no infinito dos tempos”.
Assim devemos lembrar da passagem do Miltão por este mundo com a satisfação de com ele ter convivido, acompanhando sua longeva trajetória de 91 anos, pleno de vitalidade, enfrentando todos os vais e vens, alegrias e tristezas, vitórias e derrotas, enfim tudo aquilo que compõe o cenário que convencionamos chamar vida.
O que resta não é o que passou, mas tudo aquilo que foi feito, construído e base de um portentoso legado, que poucos ao findar seu caminho nesta esfera, podem se orgulhar como o nosso Miltão que enfrentou bandidos, consolidou uma família, suportou perdas infinitas como a de um jovem filho e competiu como nunca, dignificando o esporte brasileiro e o seu São Paulo Futebol Clube, por sinal nas pistas do qual conheceu sua amada Yvone.
Sem jamais se ausentar do Tricolor Paulista já ultrapassando os noventa janeiros, e apesar das dificuldades de horário para treinar, procurando conciliar a carreira profissional e o esporte, conseguiu vencer inúmeros campeonatos e torneios conquistando medalhas, taças e troféus e continuava participando de torneios na categoria veteranos (masters) destacando-se nos âmbitos nacional e internacional, devendo com certeza ter alcançado mais de 1.000 pódios defendendo as Seleções Paulista e Brasileira e o SPFC.
O Dr. Milton Pereira dos Santos foi membro fundador da Associação Brasileira de Atletismo Master (ABRAM) tendo efetiva participação; seja compondo sucessivas diretorias, seja exercendo a presidência e sempre empenhado na realização de competições e na busca de recursos para que os atletas pudessem participar dos vários eventos em alto nível.
Miltão aos 12 anos de idade, era sócio SC Corinthians Paulista onde aprendeu a nadar no cocho (estrutura de madeira sustentada por barricas) nas águas do Rio Tietê quando ganhou o “Distintivo da Mocidade” competição promovida pela Secretaria de Esportes de São Paulo. Aos 14 anos passou a ser sócio do Clube Regatas Tietê onde praticava natação e outros esportes sem a finalidade de disputas. Aos 16 anos, dotado de físico privilegiado foi atraído pelo boxe ingressando no União Radium F C. do Belém sendo Campeão Peso Pesado em 1948 e em seguida participando do Torneio Luvas de Ouro do Jornal A Gazeta Esportiva sagrou-se também Campeão; para em seguida vencer na Categoria Novíssimos do Torneio da Federação Paulista de Pugilismo.
Foi nessa época, 1947, que o Sr. Antônio Ferreira, diretor do União Radium FC, e diretor responsável pelo Setor de Pedestrianismo do São Paulo F.C., assessor do lendário Técnico de Atletismo Tricolor Dietrich Gerner observando seus pendores atléticos o convidou para competir pela equipe de Atletismo do Tricolor Paulista. Literalmente um gigante, mas tão educado quanto solicito sempre cultor da amizade, fair play e solidariedade recebeu a alcunha de “Gentleman”. Ao lado de atletas como Adhemar Ferreira da Silva, Melânia Luz, Wanda dos Santos tornou-se atleta de ponta nas modalidades Arremesso de Peso, Lançamento de Disco e Martelo, sendo campeão Paulista, Brasileiro e Sul Americano, prosseguindo a laureada carreira na categoria Sênior (Master, Veterano). Entretanto, Miltão, de porte físico privilegiado para sua idade, iria ter tal destaque nas competições, que a Federação Paulista de Atletismo tentou proibi-lo de competir na categoria correspondente a sua faixa etária. O Clube Tricolor encaminhou então severo protesto aos dirigentes e autoridades da Federação, manifesto este que está publicado na Revista do São Paulo F.C.
A magnifica performance desse laureado atleta, fica patente numa breve sinopse dos títulos obtidos até os 90 anos, em que competiu em alto nível. Foi vice-campeão e campeão mundial, ganhou 20 medalhas de ouro em competições internacionais, 8 de prata e uma de bronze. Com a Seleção Paulista foi bicampeão brasileiro em 1961 e 1965, e neste último ano o capitão da equipe, por sinal um torneio que venceu dezenas de vezes. Defendendo o São Paulo Futebol Clube foi seis vezes Campeão do Troféu Brasil ganhando medalhas de ouro, prata e bronze.
A profícua carreira do Miltão foi reconhecida tendo em várias oportunidades recebido diversas dignidades: Distintivo de Ouro quando foi campeão estadual pela décima vez consecutiva; Comenda Perseverança São Paulina; Medalha Comemorativa da Conquista de 14 Campeonatos Paulistas de Atletismo; Cartão de Prata alusivo aos 25 anos competindo pelo SPFC; Edição Especial e Histórica da Revista do SPFC, sobre a trajetória no Clube; Diploma e Medalha de Gratidão pela dedicação ao SPPC na Olímpiada Vermelho, Branco e Preto; Comenda da Ordem Panathletica pela contribuição ao Esporte; Troféu e Inserção na galeria um Atleta na História, do Panathlon Club São Paulo; em 2017, eleito o Melhor e Mais Eficiente Atleta no Arremesso de Peso e Lançamento de Disco, pela Associação Atlética Veteranos de São Paulo.
Finalmente é de se lembrar que desde 2017, a Diretoria do Panathlon Club São Paulo, fazia tratativas para que o Dr. Milton Pereira dos Santos, o Gentleman Miltão, fosse indicado para ser entronizado no “Bosque da Fama”, junto ao Parque das Bicicletas, Ibirapuera, em São Paulo, no programa do Panathlon Club São Paulo em parceria com a Secretaria Municipal de Esportes e Lazer da PMSP que homenageia esportistas brasileiros destacados nacional e internacionalmente.
Infelizmente, no período em que a cerimônia oficial deveria ocorrer, o país e o mundo seriam abalados com a pandemia da Covid 19 e o evento teve que ser postergado; Miltão para nossa tristeza, nos deixou sem saber dessa proposição. Mas querido amigo, o seu legado é imorredouro.
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