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Foto: Marcos Santos/ USP

Sem homens no debate sobre violência doméstica, diz juiz, tudo seguirá como está

A partir dali e da comoção pública, surgiu a Campanha do Laço Branco com o objetivo de estimular a igualdade de gênero, relacionamentos saudáveis e um...

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Por Diego Cavalcante

Foto: Marcos Santos/ USP

Você sabia que existe o Dia Nacional de Mobilização de Homens pelo Fim da Violência contra as Mulheres? Celebrado nesta semana, na última segunda-feira (6/12), ele foi instituído no Brasil em 2007. A mobilização remete a uma tragédia ocorrida no Canadá no fim da década de 90, quando um homem de 25 anos invadiu uma sala de aula, ordenou que os homens saíssem e matou 14 mulheres. Elas estudavam engenharia e o assassino dizia que a profissão deveria ser exclusiva para homens. 

A partir dali e da comoção pública, surgiu a Campanha do Laço Branco com o objetivo de estimular a igualdade de gênero, relacionamentos saudáveis e um novo olhar sobre as masculinidades. No Brasil, a campanha é coordenada pela Rede de Homens pela Equidade de Gênero (RHEG) e constituída por um conjunto de organizações não governamentais e núcleos acadêmicos.

O juiz Rafael Resende Britto, titular da 1ª Vara Cível de Videira, integrante do Grupo de Diversidades do Poder Judiciário de Santa Catarina, falou sobre a data. A seguir, os principais trechos da entrevista, realizada por e-mail: 

Qual é a importância de uma data como esta? 

Ela dá visibilidade ao problema da violência contra a mulher e estimula o debate sobre o papel do homem neste contexto. Embora saibamos que o protagonismo nas ações de combate à violência contra a mulher é feminino, os responsáveis pela violência são os homens. Então, pouco adianta para o avanço da causa se o debate ocorrer exclusivamente entre as mulheres. Os homens devem entender as origens, os reflexos e consequências de seus comportamentos com as mulheres para coibir ao máximo todas as formas de violência – não só a física.  Ou seja, sem a participação dos homens no debate sobre violência doméstica, tudo continuará como está. 

Isso que o senhor fala tem relação com o projeto Troca de Ideias, idealizado pelo PJSC?    

Tem, mas o foco do projeto não é a violência contra a mulher. O Troca de Ideias é um espaço exclusivo para homens, no qual são debatidas várias questões: saúde, comportamento, paternidade, igualdade de gênero e masculinidade. Assim, servidores e magistrados têm a possibilidade de ampliar o conhecimento sobre esses assuntos e tentar melhorar o comportamento no convívio com as mulheres, tanto no aspecto pessoal quanto no profissional.  Recentemente, o PJSC criou um protocolo de escuta humanizada e não revitimizadora da mulher em situação de violência, com uma série de regras para o magistrado aplicar em audiências ao ouvir vítimas de violência doméstica, sem a revitimização que implica novo sofrimento a uma pessoa já traumatizada e em busca de justiça.

Como o senhor avalia a atuação do Judiciário catarinense na luta contra a violência de gênero?   

As ações são muito positivas, tanto com a criação de novos projetos – como este do Troca de Ideias – como na manutenção e aperfeiçoamento dos que já existem há mais tempo, consolidados em todo o Estado. Destacam-se projetos que promovem o diálogo com os agressores, com o objetivo de conscientizá-los e educá-los. Como magistrado, o que considero mais importante para prevenir a violência contra a mulher é estar atualizado, participar do debate público sobre questões como masculinidade tóxica e abusividade de relacionamentos afetivos, por exemplo, além de rever alguns conceitos, muitos deles transmitidos desde a infância e permeados por preconceitos de gênero. 

Por exemplo? 

A masculinidade não está ligada à força e não é menos homem aquele que expressa suas emoções. Muitos desses preconceitos colocam a mulher numa posição de submissão ou como objeto a ser conquistado, reduzindo sua liberdade de escolha, de expressão, patrimonial e financeira. O machismo deve ser combatido todos os dias e também nos pequenos gestos, por exemplo, com a conscientização de que não há mais espaço para piadas a respeito das mulheres ou para deboches comumente escutados: “ela está se fazendo de difícil”, “é falta de homem”. Essas expressões reduzem a mulher a um acessório masculino e geram uma percepção de que a violência seria justificável em alguns casos, principalmente por ciúmes. Isso não podemos aceitar de forma alguma.

Fonte: Assessoria de Imprensa/NCI

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