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Edição reconstrói ópera ‘O Contractador de Diamantes’ de Francisco Mignone

Duarte não só quis como, ao longo de sua carreira, tornou-se um dos principais intérpretes da obra do compositor, que ajudou a divulgar em todo o...

Publicado em

Por Agência Estado

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O maestro e pesquisador Roberto Duarte ainda se lembra do primeiro encontro com o compositor Francisco Mignone. Foi ainda na escola de música que conheceu “aquele homem de dois metros de altura”. E que, mais tarde, descobriria ter “quilômetros de coração”. “Quando me formei, ele me chamou para ser seu assistente. Fiquei espantado, não consegui falar nada. E ele me olhou, curioso: o que foi, você não quer não?”

Duarte não só quis como, ao longo de sua carreira, tornou-se um dos principais intérpretes da obra do compositor, que ajudou a divulgar em todo o mundo. E para a qual contribui agora com a edição da partitura da ópera O Contractador dos Diamantes, construída a partir de documentos encontrados em longa pesquisa: o segundo e o terceiro atos da partitura, uma das mais importantes do gênero no Brasil, sumiram.

Francisco Mignone (1897-1986) foi um dos principais autores brasileiros do século 20. Sua obra faz parte do que se costumou chamar de nacionalismo musical, com uma preocupação de revelar pela música clássica a riqueza do folclore brasileiro, mas sem que o compositor deixasse de lado outras influências, como a italiana.

O Contractador, do início dos anos 1920, é justamente do período em que Mignone estudou na Itália. A ópera, baseada em peça de Afonso Arinos sobre a exploração das minas de diamantes no interior mineiro no século 18, estreou em São Paulo em 1924, por uma companhia argentina. No mesmo ano, uma de suas passagens mais famosa, a Congada, foi tocada no Brasil pela Filarmônica de Viena. Nos anos 1950, houve uma montagem no Rio de Janeiro, com o próprio compositor na regência. E, então, desapareceu.

“Em 2019, a Academia Brasileira de Música me convidou para fazer uma nova edição da partitura. E eu resolvi aceitar o desafio”, conta Duarte. Como não havia o manuscrito original do segundo e do terceiro atos, ele precisou buscar outras fontes. Uma delas foi o material de orquestra, que traz a parte de cada instrumento. O maestro também teve acesso a duas partituras para piano e voz da ópera, uma de 1924 e uma dos anos 1950.

E os problemas começaram a surgir. “Havia alguns conflitos entre as edições, algumas com compassos a mais, outras com compassos a menos. É provável também que Mignone tenha feito revisões e cortes quando regeu a peça no Rio de Janeiro, sem anotá-los. Era algo que ele costumava fazer. Certa vez, regendo uma peça dele, segui o que estava escrito e ele sugeriu uma maneira diferente de tocar. Pedi a ele que anotasse então na partitura a nova forma e ele disse que não precisava.”

Havia também dúvidas nas passagens de alguns instrumentos. E diferenças no texto. Para resolver essas questões, Duarte e sua equipe seguiram critérios específicos. No caso dos instrumentos, por exemplo, encomendou a músicos “laudos” sobre como eles eram tocados nos anos 1920, para compreender as anotações. A partir do pressuposto de que Mignone pode ter alterado a obra nos anos 1950, eles restauraram os trechos que teriam ficado de fora, mas indicando na partitura os possíveis cortes, de acordo com a edição de piano e voz dos anos 1950. “É um trabalho cuidadoso, que precisa ser feito com carinho. Todas as opções que fizemos são explicadas de maneira clara.”

Este não é um desafio novo para Duarte, responsável pela edição de obras como O Guarani, de Carlos Gomes. O trabalho de cotejar fontes é apenas o ponto de partida. “Algumas coisas não batem, às vezes os compositores erram em seus manuscritos e você precisa fazer escolhas”, ele explica. Neste caso, o contato próximo com o compositor ajudou. “Ele tinha uma grandeza ímpar com relação a sua obra.”

Duarte se lembra de receber de Mignone elogios ao tocar uma de suas valsas para piano – e, pouco depois, ouvi-lo interpretá-la de uma forma totalmente diferente. “Eu disse isso a ele, que ficou espantado e respondeu: cada um toca do seu jeito. Se eu quisesse que todo mundo tocasse do meu, eu gravava e jogava fora a partitura. Uma vez também perguntei a ele se, em determinada peça, uma nota era dó ou ré. Ele pediu que eu tocasse dos dois jeitos e falou que ambos estavam bons, que era para eu escolher.”

O maestro recorda-se também de, certa vez, ter pedido a Mignone a partitura de uma peça para coro. Foram até a casa dele e, revirando as gavetas, o compositor não a encontrava. “Duarte, escolhe uma poesia que eu faço outra, vai ser mais rápido do que encontrar essa.”

E onde poderiam estar os originais do Contractador dos Diamantes? “É possível que, em alguma biblioteca, as partituras tenham se misturado com as de outro compositor e sido catalogadas e guardadas no lugar errado. Um dia, talvez, alguém as encontre por acaso. Até que isso aconteça, porém, a música já poderá ser ouvida pelo público.”

O que, se a pandemia permitir, deve acontecer logo. Segundo o compositor João Guilherme Ripper, presidente da Academia Brasileira de Música, o Festival Amazonas de Ópera prevê fazer a “reestreia” da obra em 2022.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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