‘Rota’ trata de leveza e gravidade

A dificuldade está, segundo Deborah, na fusão de estilos distintos. “O espetáculo pede que bailarino tenha domínio das técnicas clássica, contemporânea e acrobata, pois Rota é...

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Por Agência Estado

O espetáculo Rota tem um significado especial para sua criadora, a coreógrafa Deborah Colker – além de ter sido uma de suas primeiras produções (1997), foi durante uma de suas apresentações que ela se despediu do palco, em 2008, em Berlim. “E, até hoje, essa é considerada uma das minhas coreografias mais difíceis”, conta Deborah que, por conta disso, não fez nenhum reparo nas apresentações de Rota, que acontecem até terça-feira, 29, no Teatro Alfa, e que encerram a 16ª temporada de dança do espaço.

A dificuldade está, segundo Deborah, na fusão de estilos distintos. “O espetáculo pede que bailarino tenha domínio das técnicas clássica, contemporânea e acrobata, pois Rota é uma brincadeira com a dança clássica, mas com seriedade”, conta ela.

De fato, o espetáculo é um marco em sua trajetória, pois consolidou sua popularidade também entre os frequentadores esporádicos da dança. E, em Rota, Deborah equilibrou os conceitos de espaço, geometria, peso e volume, uma combinação que resultou em momentos cênicos memoráveis, como o segmento Roda, em que os dançarinos se posicionam em uma roda móvel, desafiando a gravidade.

“Todos os movimentos, dentro e fora da roda, buscam a ideia da circularidade.”
Rota surgiu logo depois de Velox (1995), espetáculo inspirado na prática esportiva e que tinha a emoção como linha condutora. “Foi quando trabalhamos com a força estática e, a partir daí, a palavra dinâmica tornou-se fundamental”, explica Deborah, observando que, entre todos os bailarinos que hoje compõem sua companhia, nenhum já dançou essa coreografia. O que, de uma certa forma, é algo positivo. “Isso porque a principal característica de Rota é a alegria sem ser algo banal.”

A começar pela trilha sonora: o espetáculo tem quatro movimentos no primeiro ato e abre com a Serenata Noturna K 239 em Ré Maior, de Mozart. “É um compositor maravilhoso, com um estilo galhofeiro, o que me permite brincar com o repertório do balé, deixando os bailarinos exibindo humor, vitalidade, sexualidade.” E o final desse ato é marcado pela obra Quinteto em Lá Maior Opus 114, a Truta, de Schubert. “A ideia aqui é o de criar a sensação de se estar remando em um barco inspirado nos desenhos animados e na alegria contagiante do incrível exército de Brancaleone”, explica Deborah, referindo-se à clássica comédia dirigida por Mario Monicelli, em 1966. “Uma brincadeira com o antigo e o novo.”

Já o segundo ato é dividido em dois movimentos, Gravidade e Roda. O primeiro foi inspirado nos lentos movimentos dos astronautas quando, dentro de uma nave, não sentem o efeito gravitacional. “Aqui, exploramos as várias possibilidades de se caminhar em suspensão, o que oferece um novo estado para o movimento.” Finalmente, Roda é inspirado no famoso brinquedo dos parques de diversões e também na rotação da Terra.

São 17 bailarinos em cena, número superior ao da montagem original. Deborah justifica por ser o tamanho da companhia capaz de realizar seu próximo trabalho, Cura, que deve estrear apenas em janeiro de 2021 e em Londres – antes, Deborah e seu grupo planejam excursões que incluem Nova York e algumas cidades da China, com o trabalho anterior, o premiado Cão Sem Plumas, inspirado na poesia de João Cabral de Melo Neto.

Ali, Deborah atingiu um grande momento de sofisticação de sua trajetória como coreógrafa. O trabalho, que lhe rendeu o prêmio Benois de la Danse, apontado como o Oscar da dança, foi pioneiro em sua carreira ao estabelecer o diálogo com o cinema. “Também me abriu novas perspectivas para a presença da dramaturgia”, comenta. “Cão Sem Plumas me apresentou, de uma certa forma, a força da poesia, presente nessas canções que falam da ilusão que temos quando vivemos uma grande paixão.”

Um profundo trabalho de pesquisa promete marcar também a concepção de Cura. A ideia do espetáculo nasceu depois de uma viagem da coreógrafa ao continente africano. “Quando voltei, o rabino e escritor Nilton Bonder me perguntou se havia encontrado a cura para os malefícios que atingem aquela população. Respondi que não, mas o que vi me motivou profundamente: encontrei um povo que, mesmo com inúmeros problemas, não abandona a alegria nem a força de viver.”

O espetáculo estreia em Londres porque Deborah e sua companhia foram convidados pelos ingleses para fazerem uma residência, que inclui um workshop. “Lá, vamos contar como terá sido todo o processo criativo, da dramaturgia à direção.”

SERVIÇO
ROTA
TEATRO ALFA
RUA BENTO BRANCO DE ANDRADE FILHO, 722. TEL.: 5693-4000. 5ª (24), 6ª (25), 2ª (28) E 3ª (29), 20H30. SÁB. (26), 20H. DOM. (27), 18H. R$ 75 / R$ 190. ATÉ 29/10

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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