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As elites têm de ter coragem de romper com os populistas, diz cientista político

Müller, professor da Universidade de Princeton, também defende que os líderes democráticos precisam oferecer soluções que respondam aos problemas reais das pessoas e não apenas fazer...

Publicado em

Por Agência Estado

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A derrota eleitoral do presidente Donald Trump e sua saída do governo são um golpe para populistas que o tinham como referência, mas estes grupos só podem ser evitados com o fortalecimento de instituições e a oposição unida. A avaliação é do cientista político alemão Jan-Werner Müller, autor do livro O que é Populismo?, publicado em 2016, uma referência na discussão sobre o avanço desse movimento em diferentes países.

Müller, professor da Universidade de Princeton, também defende que os líderes democráticos precisam oferecer soluções que respondam aos problemas reais das pessoas e não apenas fazer oposição a governos autoritários.

A ideia de “como as democracias morrem” tornou-se famosa depois do livro de Levitsky e Ziblatt, de 2018, e muito se fala sobre ela. Mas o que as democracias devem fazer para sobreviver?

Três fatores importam: primeiro, a ampla mobilização em favor de ideais democráticos básicos. Ao mesmo tempo, não é suficiente dizer “não somos Donald Trump ou algum outro autoritário”. É preciso oferecer uma visão positiva que responda aos problemas reais das pessoas. Nesse sentido, Joe Biden realmente não se saiu tão bem. Em segundo lugar, as elites privadas precisam ter a coragem de romper com os populistas. Isso não é apenas uma questão de psicologia individual. É preciso entender que será cobrado um preço por concordar com um líder autoritário. Em terceiro, a renovação do que chamo de infraestrutura crítica da democracia, principalmente dos partidos políticos e da mídia. Essa é uma questão para uma reforma estrutural de longo prazo.

O que pode ser feito pelos sistemas democráticos para conter e prevenir o populismo?

O populismo nunca pode ser completamente evitado. Além do ponto óbvio de que as preocupações dos cidadãos devem ser tratadas, ajuda ter um sistema partidário funcional e um ambiente midiático no qual a mídia não lucre com a polarização das sociedades. O que, segundo Alexis de Tocqueville intelectual francês, poderíamos chamar de “poderes intermediários” – partidos e mídia – permanecem cruciais para o funcionamento da democracia representativa.

O que a derrota de Donald Trump significa para o populismo e os populistas em todo o mundo?

É um golpe. Mas, assim como a vitória de Trump há quatro anos não significava que agora havia uma onda populista impossível de ser detida, sua derrota não significa que tudo vai para a direção contrária. Os contextos nacionais ainda são muito importantes. Se alguém opta por um partido de extrema direita no Leste Europeu, por exemplo, tem pouco a ver com o que acontece nos Estados Unidos.

Como o sistema de freios e contrapesos da democracia americana facilita ou torna mais difícil o crescimento do populismo?

O presidencialismo pode realmente gerar populismo. Os freios e contrapesos dos Estados Unidos, sob Trump, revelaram-se mais frágeis do que muitos pensavam. Ainda assim, o Judiciário não foi capturado da maneira que outros populistas de extrema-direita fizeram. O federalismo dispersa o poder e coloca um freio real no trumpismo.

Como poderíamos diferenciar o populismo americano do de outros países – se de fato, existe essa diferença?

Na minha avaliação, todos os populistas afirmam que apenas eles representam o que muitas vezes chamam de “pessoas reais”, com a consequência de que outros políticos têm sua legitimidade negada, mas também que os cidadãos que não se enquadram ou não concordam com o entendimento populista são excluídos. O que varia é a descrição de “pessoas reais”.

E a que o sr. atribui a derrota de Trump?

Honestamente, é cedo para dizer. Não temos evidências empíricas suficientes sobre por que as pessoas votaram da maneira que votaram. Se alguém confiar nas pesquisas de opinião, uma coisa é surpreendente: os cidadãos continuaram confiando em Trump na economia, pensando que ele seria bom para liderar uma recuperação pós-pandemia. Os democratas, um pouco como em 2016, pareciam não ter uma mensagem ou símbolo convincente sobre as questões econômicas.

Os democratas decidiram por um centrista como Biden e não por uma figura mais à esquerda como Bernie Sanders para disputar a eleição. Essa escolha serve de inspiração para outros movimentos de oposição?

A oposição ao populismo de extrema-direita precisa ser unida. Mas há outra variável: diante de uma catástrofe nacional como a covid-19, que expõe tantos problemas estruturais, uma estratégia mais ambiciosa também é bastante plausível.

Como o sr. vê o futuro da democracia na União Europeia quando há dois países – Polônia e Hungria – liderados por populistas e onde alguns partidos de extrema-direita ganharam força nas últimas eleições?

Este não é um problema apenas dos Estados-membros em questão, ao contrário do que por vezes alegam políticos e comentaristas. Se a democracia e o Estado de Direito deixarem de funcionar num Estado, o funcionamento da União Europeia no seu todo – que depende do reconhecimento mútuo das decisões dos tribunais nacionais – fica em perigo. Além desse aspecto prático, a ascensão das autocracias enfraquece a capacidade da Europa de ser uma força para a democracia no mundo e trai as promessas feitas aos aspirantes a Estados-membros desde os anos 70, a de que ajudaria a transformá-los em democracias consolidadas.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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