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Davi Moraes lança EP em homenagem ao pai, Moraes Moreira, morto no ano passado

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Foto: FLickr

Em quase duas horas de conversa por telefone com a reportagem do Estadão, o músico Davi Moraes, de 47 anos, não usou o verbo “morrer” para se referir ao pai, o cantor e compositor Moraes Moreira, que, em 13 de abril de 2020, foi vítima de um enfarte, aos 72 anos. Ele preferiu usar “partir”. Isso não indica que ele negue o que tenha acontecido, mas mostra o quanto Moraes segue vivo dentro dele e, sobretudo, nas canções que deixou.

As ligações diárias fazem falta. Por isso, quando a saudade parece querer lhe matar, Davi pega o violão para tocar e cantar as composições do pai.

Essa ligação tão estreita entre pai e filho, que se encontraram, além do afeto, também na música, é celebrada no EP Todos Nós (Biscoito Fino), que Davi acaba de lançar com quatro canções – três delas inéditas. O título, sugestão da irmã mais velha, Ciça, remete ao tempo em que Moraes e a mulher, Marília Mattos – que também morreu no ano passado -, carregavam os filhos pelas turnês. Também se refere à primeira composição feita por Davi e gravada pelo pai no álbum Bazar Brasileiro, de 1980.

Entre as inéditas, o samba Aquele Abraço do Gil, é uma das últimas letras que Moraes escreveu – a outra, Saudação aos Músicos, em parceria com Luiz Caldas, foi lançada em julho – e deu para a cantora e compositora carioca Joyce colocar a melodia. A canção abre com versos que hoje soam premonitórios. “No meu andar de passista / A minha alma de artista / Deixa o corpo / E voa / Ao exalar-se etérea / Ali mesmo onde a matéria ainda não povoa.”

A letra foi entregue a Joyce depois de um encontro em uma padaria – todos os dias, Moraes colocava o jornal debaixo do braço e, de chinelo ou tênis e camiseta, ia para a padaria tomar café e bater papo com os amigos. Depois, passava em seu escritório, perto de casa, para trabalhar. “Sinto que a chegada da pandemia foi um golpe duro para a cabeça dele. Ficou aprisionado em casa, não podia dar sua voltinha, fazer shows, ver os netos que ele adorava. Ele tinha esperança de que tudo iria se resolver rapidamente. Meu pai havia feito um check-up em janeiro que não apontou problemas de saúde. Não era um exemplo de cara que se cuidava, não tinha paciência para academia, mas estava tudo bem com ele. O exercício dele era o trabalho. Não fazia esteira, mas ficava 2, 3 horas cantando em cima do trio no carnaval da Bahia. Tinha uma disposição gigante. Ele viveu a vida de verdade”, diz Davi.

A faixa, cantada por Joyce, traz a guitarra percussiva e característica de Davi – pegada que ele aprendeu com o pai, que desde cedo o incentivou. Uma das lembranças mais fortes de Davi foi quando Moraes o colocou para tocar no palco em duas noites da primeira edição do Rock in Rio, em 1985, para uma plateia ávida pelos shows de roqueiros gringos como Ozzy Osbourne.

Moraes e o Armandinho, com suas guitarras e frevos – como Coisa Acesa, Bloco do Prazer e Festa do Interior – incendiaram a massa. Fez-se carnaval na Cidade do Rock. “Meu pai não fazia música regional. Era uma música para o mundo. Ao lado de Armandinho, nosso Van Halen, aquela guitarra elétrica com distorção. Eles mostraram que também arrastavam multidão”, diz Davi. “A intenção dele não era mostrar um filho prodígio, que tocava Brasileirinho com 11 anos, era para apresentar o Waldir Azevedo para a galera, que fez parte da minha formação, pois eu comecei tocando cavaquinho e, depois, levei o ‘sotaque’ do Waldir para a guitarra.”

Outra composição inédita, assinada por Mu Carvalho, instrumentista da banda A Cor do Som, que acompanhou Moraes em seus primeiros discos solos, e Tuca de Oliveira, chama-se O Cantor das Multidões e fala do “povo sofrido que se encanta no frescor dos carnavais”. A faixa tem participação do baixista Dadi Carvalho, outro integrante de A Cor do Som.

O epíteto “cantor das multidões” é originalmente atribuído a Orlando Silva (1915-1978), mas não é exagero emprestá-lo ao compositor baiano, nascido Antonio Carlos Moreira Pires em Ituaçu, no interior da Bahia. Do rádio falante da praça, ele escutava os cantores do rádio e sonhava ser músico. Ao migrar para o Sudeste, alcançou o sucesso ao lado de Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão, Pepeu Gomes e Baby Consuelo no Novos Baianos, que misturou rock ao samba, bossa-nova e chorinho.

Em carreira solo, a partir de 1975, emplacou Lá Vem o Brasil Descendo a Ladeira, Pombo Correio, Guitarra Baiana, Chão da Praça, Meninas do Brasil, Sintonia, Santa Fé, A Lua e o Mar, além de fornecer repertório para outros cantores. No carnaval baiano, levou o afoxé, ritmo que marca os cortejos dos terreiros de candomblé pelas ruas durante a folia, para o trio elétrico de Armandinho, Dodô e Osmar, algo que, mais tarde se transformou no que é chamado de axé music, pelas mãos de Luiz Caldas.

“Meu pai tinha noção de tudo o que fez, que foi gigante. Porém, nunca se gabou. Se ele tivesse feito só os Novos Baianos, uma das maiores bandas de todos os tempos, já seria muito. Mas, depois, foi o primeiro cantor de trio elétrico e emplacou grandes sucessos. Na carreira solo, era um hit atrás do outro. Ele dizia que o canto dele era fora de padrão, era um jeito de cantar de forma percussiva – e fazia boleros e canções românticas com a mesma paixão que fazia frevos, afoxés e maracatus. Teve uma relação bonita com grandes maestros e arranjadores como Lincoln Olivetti, Sivuca, Francis Hime e Cesar Camargo Mariano, que adoravam trabalhar com ele por conta do inesperado que ele trazia para as músicas”, conta.

A terceira música inédita de Todos Nós é um bolero que Davi compôs, com letra de Carlinhos Brown e o título de Aos Santos. Os versos parecem ilustrar o que Davi sente após dez meses da partida de Moraes e como ele lida com isso. “Eu mereço o fim desse sentimento / Esse sofrimento determina as horas (…) Não sou de gritar / estou lamentando.”

A única regravação é Davilicença, de 1977, na voz de Marina Lima, que a canta acompanhada apenas pelo violão de Davi. A escolha é sentimental. A cantora era prima de Marília, mãe de Davi, que morreu em novembro de 2020, aos 69 anos, também vítima de enfarte, sete meses após Moraes.

Entre as perdas do pai e da mãe, Davi também enfrentou a morte da avó materna, dona Cândida, vítima de covid-19 aos 97 anos. Era ela que cuidava dele e da irmã mais velha, Ciça, enquanto Moraes caía na estrada, quase sempre acompanhado da mulher. “Minha avó nos levava para passear, fazia o dever de casa conosco. Só faltou me levar para o Maracanã ver o Mengo jogar”, brinca Davi, flamenguista roxo, assim como o pai.

Da mãe, Marília, ele guarda a imagem de uma mulher forte e companheira de Moraes, mesmo depois que o casamento de mais de 20 anos chegou ao fim. “Ela era lindíssima, da turma do Arpoador. Reunia as pessoas. Foi uma partida parecida. De repente, é aquilo que dizem… eles queriam ficar juntos também no outro plano”, diz.

Futuro

Pouco antes da pandemia, Moraes se apresentou com o show Elogio à Inveja, no Rio de Janeiro. Nele, cantava composições que dizia que gostaria de ter feito, como Quem Há de Dizer, de Lupicínio Rodrigues. O último disco ele havia gravado dois anos antes, Ser Tão, inspirado na literatura de cordel.

Moraes gostava do novo. “Quando um fã o parava na rua e falava de músicas antigas, ele dizia, brincando: legal, mas eu ainda não me aposentei não, viu? Tenho músicas novas”, conta Davi.

Davi diz que ele e a irmã encontraram algumas músicas inéditas nos guardados do pai. Moraes também deixou 15 poemas que escreveu quando a pandemia começou e que planejava entregar para o filho fazer uma trilha para que ele pudesse declamá-los. Com calma, Davi vai trabalhar nesse material.

Davi prepara um novo álbum – que pretende lançar ainda no primeiro semestre – com músicas inéditas feitas em parceria com nomes como Fausto Nilo, Luiz Caldas, Chico Brown, Rodrigo Maranhão e Gerônimo.

Sem cobranças, Davi observa sua única filha, Alice, de 8 anos, do seu casamento com a cantora Maria Rita – neta, portanto, de Moraes, Elis Regina e Cesar Camargo Mariano – se interessar pelo piano. “Ela é fã de Alicia Keys. Também canta o repertório dos Novos Baianos de maneira muito certa, como A Menina Dança, com divisão perfeita e com os improvisos que a Baby (do Brasil) faz”, lembra, orgulhoso.
As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.


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