• Ricardo Oliveira
  • JC Online

02 Abril 2018 | 07h40min

O cheiro forte da água suja no chão, vinda do esgoto que corre a céu aberto, o vaivém de gente que dribla as roupas estendidas em frente às casas para passar pelos becos estreitos, o morador faminto que “engana a barriga” cheirando cola num canto de parede. Tudo isso chama a atenção de quem entra pela primeira vez na Rua do Patrimônio, Roda de Fogo, Zona Oeste do Recife. As cenas soam comuns, porém, para as centenas de moradores daquela área.

O costume de viver num caos provocado pela falta de estrutura para condições mínimas de uma moradia digna, no entanto, não deixa passar batidas a ninguém as cenas diárias de crianças sentadas ao chão, livros e cadernos sobre as pernas, canetas e lápis às mãos, olhos atentos à menina Steffany Rafaelly da Silva, 11 anos, que conta histórias, explica atividades, chega junto para tirar dúvidas sobre as tarefas da escola.

“Ela é assim desde pequena. Ainda muito nova, antes mesmo de entrar na escola, já gostava de brincar de ensinar. Cresceu e não mudou. Todos os dias está aí, em pé ou sentada no chão. Procura um cantinho mais limpo e seco, onde não tenha esgoto escorrendo e, com a maior paciência, vai ensinando inglês aos meninos, contando historinhas, ajudando nas tarefas. Só não tem aula se chover, porque eles não têm onde ficar”, elogia a cozinheira Cátia da Silva, vizinha da menina desde que ela nasceu.

Foi em meio às brincadeiras, ali mesmo, nos becos da comunidade, há alguns anos, que Stefanny começou a alimentar o sonho de ser professora. A “escola” já existia. “Tinha uma amiga nossa, mais velha do que eu, que gostava de brincar de escolinha. Era ela quem ensinava. Mas um dia ela se mudou daqui. E eu decidi continuar”, conta Steffany, que, há pouco mais de um ano, pegou um livro que não usava mais na escola, arrancou uma folha e foi a uma lan house próxima à sua casa. Pediu que fizessem algumas cópias, levou para a rua e saiu chamando os amigos, de porta em porta. “Vai começar a aula. Quer participar?”.

Conseguiu a atenção de cinco, seis, dez crianças… Hoje são 14 que, diariamente, à tarde ou à noite, esperam “a professora” chamar para começar a aula. “Como são muitas crianças, chamei minha amiga para me ajudar. Eu assumo os maiores e ela, os menores”, fez questão de explicar, já que a amiga, Camila, 7, não estava presente no dia em que a reportagem visitou a comunidade.

Tímida, Steffany responde com poucas palavras às perguntas que lhe são feitas, mas não hesita quando o questionamento é sobre o seu maior sonho. “Ter uma sala, um cantinho pra estudar junto com os meus amigos. No beco a gente não consegue ficar quando chove e também preciso de um lugar para guardar o material e para organizar as aulas”, comenta, emocionada. Enquanto não tem um espaço apropriado, ela guarda o material dentro de casa.

O imóvel de apenas um cômodo que divide com a mãe funciona como sala, quarto, cozinha. Ao fundo, um banheiro dividido por uma parede e uma cortina. O local para estudo e planejamento das aulas é a cama. Nem mesmo a pouca luz do ambiente, nem a estrutura precária fazem Steffany desanimar.

A mãe, Rafaela da Silva, 29, desempregada, conta apenas com o dinheiro do Bolsa Família como renda. Em casa, nem sempre tem comida e algumas vezes elas precisam contar com a solidariedade dos vizinhos.

“Ninguém recusa ajuda a Steffany, ela é motivo de orgulho para a gente. Faz tudo por essa ‘escola’. Consegue até festas em datas especiais, como Natal e Dia das Crianças. Pede R$ 1, R$ 0,50 à gente, junta, compra refrigerante, ingredientes para bolo. É impressionante a dedicação dela”, relata a vizinha Cátia. “Peço dinheiro à minha mãe, às minhas tias, aos amigos. Arrumo um jeito de nunca deixar faltar material”, garante Steffany. Nem chocolate, nem chiclete. Periodicamente, a menina aplica testes para checar se os amigos realmente aprendem o que ela ensina. “Aí sempre recompenso com doces. Porque vejo que as crianças ficam felizes.”

As informações são do JC Online.

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