Presidente do Paraguai renuncia em meio à crise bancária; vice assume
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Por CGN
Enquanto a Câmara dos Deputados do Paraguai discutia a abertura de um processo de impeachment contra o presidente, nesta quinta-feira (5), o mandatário do país Santiago Peña anunciou a renúncia ao cargo, em meio a uma crise financeira causada pela intervenção do Banco Central Paraguaio (BCP) no banco digital Ueno Bank.
Abandonado pelo próprio partido, que passou a cobrar sua renúncia, Peña justificou a decisão em nome da estabilidade do país e da necessidade de “preservar nossas instituições”. O vice-presidente Pedro Allana assumirá o cargo.
“Me dirijo a vocês em um dos momentos mais difíceis da minha vida, com o coração voltado para o Paraguai e com a convicção de que a nossa República deve estar sempre acima de qualquer pessoa ou circunstância”, disse o presidente, em pronunciamento nas redes sociais.
“A história se encarregará de julgar e colocar na sua devida dimensão os acontecimentos que hoje nos cabe vivenciar. Tomei a decisão de apresentar a minha renúncia à Presidência da República”, acrescentou.
Crise
A crise financeira que sacudiu o Paraguai começou na terça-feira (3) e se transformou em crise política.
Na manhã de hoje, a Câmara iniciou o debate para abertura de um processo de impeachment que contava com o apoio até mesmo da legenda do mandatário, o Partido Colorado.
Após a liquidação do banco, o presidente do BC paraguaio, Carlos Carvallo, renunciou ao cargo. Ele foi dirigente do banco digital até 2023, antes de assumir a chefia do Banco Central do país. https
Protestos de rua cobram que os responsáveis pela crise sejam punidos. O Ministério Público do Paraguai pediu a prisão de oito pessoas, incluindo o presidente do Ueno, Juan Manuel Gustale.
Presidência
A crise atingiu o presidente Santiago Peña por ele ter sido acionista, até março de 2025, do grupo que controla o banco, o Grupo Vázquez.
A oposição acusa o governo pelos investimentos realizados pelo Instituto de Seguridade Social (PIS), que é estatal, no Ueno Bank.
Policiais policiam uma agência do Ueno Bank em Assunção, no Paraguai – REUTERS/Cesar Olmedo/Proibida reprodução
O banco digital ainda administra o pagamento de pensões de milhares de aposentados e tem cerca de 30% dos depósitos de fundos públicos, estimados em US$ 850 milhões.
A oposição responsabiliza Peña pela crise por ele ter nomeado para presidente do BC um ex-dirigente do Ueno. Ao anunciar a renúncia, o presidente pediu desculpas ao povo paraguaio.
“Também quero pedir desculpas ao povo, caso em algum momento eu tenha falhado. Nunca foi minha intenção trair a confiança que depositaram em mim. A cada dia, assumi esta responsabilidade com a vontade de trabalhar pelo Paraguai”, afirmou Peña.
Partido Colorado
O presidente do Partido Colorado e ex-presidente do país, Horácio Cartes, afirmou que a legenda não estará ao lado “do latrocínio de fundos públicos, privados e dos aposentados”.
O presidente do Congresso paraguaio, Bachi Nunéz, dois dias antes de pedir a renúncia de Peña, avaliava à imprensa que o presidente não poderia ser responsabilizado porque o Banco Central tinha autonomia institucional.
“Temos alertado sobre conflitos de interesses, sobre a utilização de instituições públicas para favorecer negócios privados de uns poucos, e sobre o crime de gestão em proveito próprio — prática na qual este Presidente da República tem incorrido sistematicamente”, afirmou.
O Paraguai conta com um fundo garantidor que pode reembolsar até US$ 38 mil por pessoa, o que representa ₲ 228.300.000 na moeda local, o equivalente a 75 salários-mínimos.
Consequências econômicas
A crise financeira e política do Paraguai abala a reputação que o país vinha construindo de destino emergente da América do Sul para o capital estrangeiro, com repercussões sobre a economia local.
“Ocorrerá, sem dúvida, uma semiparalisação do mercado comercial no Paraguai. Essa situação não nos afeta apenas no âmbito comercial; ela impacta também o cotidiano das famílias, afetando, assim, a vida diária de milhões de pessoas”, disse o comunicado publicado na mídia local.
A agência de risco Moody’s afirmou que o caso coloca em prova a capacidade das autoridades de gerir a situação de um banco importante.
“Um dos principais riscos que a Moody’s identifica está nos depósitos que excedem a cobertura do seguro. Ainda que o BCP indicou que 97% dos depositantes estariam completamente cobertos, somente 30% dos depósitos do Ueno se encontravam dentro dos limites da garantia”, afirmou a agência Bloomberg Línea, com base na nota do Moody’s.
O antropólogo Salvador Schavelzon, professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), afirma que a admiração desses grupos com o Paraguai vem da ocupação que o agronegócio do Brasil realiza no país vizinho.
Fonte: Agência Brasil