Fotos comuns de crianças podem virar imagens sexuais falsas com IA; entenda o perigo
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Por Redação CGN
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Uma fotografia comum de uma criança ou adolescente, publicada nas redes sociais, pode ser utilizada para criar uma imagem sexual falsa com inteligência artificial. A tecnologia permite manipular imagens de pessoas vestidas e produzir conteúdos que simulam situações íntimas que nunca aconteceram. A prática preocupa especialistas em proteção infantil e amplia os riscos de exposição, humilhação, ameaças e chantagem pela internet.
O problema vai muito além de uma montagem ou brincadeira de mau gosto. Quando essas imagens envolvem menores de idade, a produção e a divulgação podem configurar crimes previstos na legislação brasileira.
Dados da SaferNet Brasil mostram que, em 2025, foram registradas 63.214 denúncias de imagens de abuso e exploração sexual infantil na internet. O número representa crescimento de aproximadamente 19,3% em comparação com 2024, quando foram contabilizadas 52.999 denúncias.
A organização aponta o uso da inteligência artificial como um dos fatores que contribuem para o aumento. Os registros, porém, abrangem diferentes formas de abuso e exploração sexual infantil, não apenas imagens falsas geradas por IA.
Como uma foto comum pode ser transformada em imagem sexual falsa?
Ferramentas de inteligência artificial conseguem modificar fotografias existentes, criando representações artificiais do corpo de uma pessoa.
Em alguns casos, uma imagem publicada em um perfil de rede social pode ser utilizada por terceiros para produzir uma falsa fotografia de nudez.
A vítima não precisa ter enviado nenhuma imagem íntima e pode sequer saber que sua fotografia foi utilizada.
O resultado pode parecer real para quem recebe o conteúdo, mesmo quando a cena jamais existiu.
Esse tipo de manipulação é frequentemente associado à expressão deepfake, utilizada para descrever conteúdos falsificados digitalmente com recursos tecnológicos avançados.
A facilidade de produzir e espalhar essas imagens aumenta os desafios de proteção, principalmente quando o material circula em grupos de mensagens e redes sociais.
Quase 3 milhões de crianças e adolescentes sofreram violência sexual facilitada pela tecnologia
A dimensão da violência sexual no ambiente digital aparece em outro levantamento.
O estudo Disrupting Harm in Brazil, desenvolvido pelo UNICEF Innocenti em parceria com a ECPAT International e a INTERPOL, aponta que 19% das crianças e adolescentes brasileiros de 12 a 17 anos que utilizam a internet sofreram alguma forma de exploração ou abuso sexual facilitado pela tecnologia em um período de um ano.
O percentual equivale a aproximadamente 3 milhões de meninas e meninos.
A pesquisa também identificou que, em 49% dos casos, o responsável pela violência era alguém conhecido da vítima.
Outro dado chama a atenção: 34% das crianças e adolescentes que passaram por essas situações não contaram a ninguém o que havia acontecido.
Esses números abrangem diferentes formas de violência sexual facilitada pela tecnologia, como aliciamento, exposição a conteúdos sexuais não solicitados e exploração por meios digitais. Não representam exclusivamente casos envolvendo inteligência artificial.
O risco não termina quando a imagem é descoberta
Mesmo sendo falsa, uma imagem sexual criada com inteligência artificial pode provocar consequências graves.
O material pode ser compartilhado entre colegas, circular em aplicativos de mensagens ou ser utilizado para constranger e ameaçar uma vítima.
Segundo o Centro Marista de Defesa da Infância, a prevenção precisa acompanhar as mudanças tecnológicas.
A analista de projetos Cecília Landarin destaca que a proteção das crianças e adolescentes exige responsabilidade de famílias, plataformas digitais, sociedade e poder público.
“A tecnologia muda a forma como a violência pode ocorrer e amplia seu alcance em larga escala, mas a proteção integral é uma responsabilidade compartilhada entre família, sociedade e Estado”, afirma.
A especialista também ressalta a importância de manter espaços de confiança e diálogo dentro das famílias.
A orientação é evitar que crianças e adolescentes sintam medo ou vergonha de procurar ajuda quando enfrentarem situações de violência digital.
Criar imagens sexuais falsas de crianças é crime?
A legislação brasileira prevê punições para a produção e a divulgação de material de violência sexual envolvendo crianças e adolescentes, inclusive conteúdos manipulados ou gerados artificialmente.
Em agosto de 2026, a Lei nº 15.487 ampliou as medidas de combate à violência sexual infantil, incluindo situações relacionadas ao uso de inteligência artificial.
A legislação passou a abranger expressamente conteúdos produzidos, manipulados ou gerados por tecnologias digitais, inclusive materiais integralmente fictícios.
O enquadramento e as penalidades dependem das circunstâncias de cada caso.
O Ministério da Justiça também adotou medidas contra ferramentas utilizadas para produzir imagens falsas de nudez.
Em 2026, a pasta identificou plataformas que ofereciam esse tipo de serviço e encaminhou informações para investigação e providências dos órgãos competentes.
O que os pais podem fazer para proteger os filhos?
A orientação dos especialistas é combinar cuidados com a exposição digital e diálogo frequente sobre os riscos da internet.
Famílias podem adotar medidas como limitar a divulgação pública de fotografias de crianças, revisar as configurações de privacidade das redes sociais e conversar sobre o uso indevido de imagens.
Também é importante orientar os filhos a procurar um adulto de confiança caso recebam ameaças, sofram constrangimentos ou descubram que uma fotografia foi manipulada.
A responsabilidade pela violência é de quem produz, divulga ou utiliza indevidamente o material, e não da criança ou adolescente cuja imagem foi exposta.
Onde denunciar?
Casos suspeitos de violência sexual contra crianças e adolescentes podem ser denunciados pelo Disque Direitos Humanos, no número 100.
Também é possível registrar denúncias de conteúdos criminosos na internet pelos canais da SaferNet Brasil, além de procurar a Polícia Civil.
Se houver ameaças ou chantagem, é importante preservar informações que possam auxiliar a investigação, como mensagens, endereços eletrônicos e identificação dos perfis envolvidos, sem compartilhar o material sexualizado.
O crescimento das denúncias mostra que a proteção de crianças e adolescentes precisa acompanhar o avanço das tecnologias.
Uma imagem falsa pode ser produzida em ambiente digital, mas suas consequências para a vítima são reais.