CGN - Últimas notícias de Cascavel, Paraná e Brasil
Acesse aqui o Discover e busque as mais lidas por mês!

Lula venceu. Mas a democracia precisa de algo além dos votos: confiança.

Publicado em

Diante de tantas incertezas, permanece a fé de milhões de brasileiros: Deus sabe o que faz.
Imagem referente a Lula venceu. Mas a democracia precisa de algo além dos votos: confiança.
Foto: Reprodução/CGN

Por Redação CGN

Atualizado em

O Brasil amanheceu nesta segunda-feira diante de uma realidade que não pode ser ignorada: Luiz Inácio Lula da Silva foi reeleito presidente da República. Com 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% de Flávio Bolsonaro, o petista conquistou seu quarto mandato presidencial. Foram mais de 64 milhões de votos para Lula e quase 60 milhões para seu adversário. Uma eleição disputada, marcada pela polarização e que deixa desafios para o país.

Mas há uma questão que precisa ser discutida com serenidade, responsabilidade e, sobretudo, compromisso com a democracia: não basta que um processo eleitoral seja correto. É fundamental que sua correção possa ser demonstrada, compreendida e reconhecida pela sociedade.

Partimos de uma premissa importante: as urnas eletrônicas brasileiras possuem mecanismos de segurança e fiscalização, e não há evidências apresentadas até aqui que comprovem manipulação do resultado presidencial. O Tribunal Superior Eleitoral tem reiterado a confiabilidade do sistema, respaldado por procedimentos técnicos de auditoria.

Entretanto, a confiança pública não pode depender exclusivamente da palavra de uma autoridade, por mais respeitável que seja. Ela precisa estar sustentada na transparência, na possibilidade de verificação independente e na disposição permanente das instituições para responder a questionamentos legítimos.

É justamente aí que reside um dos maiores desafios do Tribunal Superior Eleitoral.

A democracia não exige que todos concordem com o resultado das urnas. Exige, porém, que todos tenham condições de verificar sua legitimidade por mecanismos objetivos e acessíveis.

E questionar, quando há fundamentos e disposição para examinar as evidências, não significa necessariamente desacreditar. Pode representar o exercício legítimo da cidadania.

O próprio TSE disponibiliza Boletins de Urna, registros digitais e instrumentos de auditoria que permitem comparar os resultados das seções eleitorais com a totalização oficial. Esses mecanismos precisam ser conhecidos e utilizados, porque a melhor resposta a uma dúvida fundamentada não é a imposição do silêncio, mas a apresentação de provas verificáveis.

A eleição de domingo trouxe ainda um episódio que merece esclarecimento público rigoroso: a prorrogação extraordinária do horário de votação em determinadas seções, determinada pelo Supremo Tribunal Federal, e as dificuldades operacionais decorrentes dessa decisão. O próprio presidente do TSE, ministro Kassio Nunes Marques, reconheceu os desafios técnicos e a necessidade de aperfeiçoar procedimentos. Isso não constitui, por si só, evidência de fraude ou de alteração do resultado. Mas reforça a importância de explicações completas, fiscalização e prestação de contas.

O Brasil não precisa de suspeitas transformadas em verdades sem provas. Tampouco precisa tratar toda pergunta como uma ameaça às instituições.

Precisa de instituições suficientemente fortes para serem examinadas, questionadas e fiscalizadas.

A credibilidade de uma eleição deve resistir ao escrutínio, não depender da ausência dele.

E há outro aspecto que não pode ser deixado em segundo plano: Lula venceu a eleição, mas vencer uma eleição é muito diferente de governar uma nação.

Durante a campanha, promessas foram feitas, compromissos assumidos e propostas apresentadas ao eleitorado. Agora, cada uma dessas promessas terá de enfrentar a realidade das contas públicas, das limitações orçamentárias, da capacidade de investimento do Estado e das necessidades de milhões de brasileiros.

A pergunta é inevitável: o Brasil terá condições de pagar a conta das promessas eleitorais?

O dinheiro público não nasce de discursos, não se multiplica por vontade política e não pode ser administrado como se as limitações econômicas fossem irrelevantes. Toda despesa precisa de financiamento. Toda escolha tem consequências. E todo compromisso assumido durante uma eleição precisa ser confrontado com sua viabilidade.

A vitória nas urnas confere legitimidade democrática para governar. Não concede imunidade às cobranças, aos limites econômicos nem às consequências das decisões administrativas.

E a história brasileira oferece motivos para reflexão.

Em 2014, Dilma Rousseff também venceu uma eleição presidencial apertada. Pouco tempo depois, o país enfrentou uma grave recessão econômica, intensa crise política, perda de apoio parlamentar e um processo de impeachment, concluído em 2016.

Naturalmente, contextos históricos diferentes não autorizam afirmar que os mesmos acontecimentos voltarão a ocorrer. Mas a experiência de 2014 demonstra que uma vitória eleitoral, mesmo legítima, não garante estabilidade política, prosperidade econômica ou governabilidade.

A história não está condenada a se repetir. Entretanto, ignorar suas lições é uma forma perigosa de se aproximar dos erros do passado.

Lula iniciará seu novo mandato diante de um país dividido, com uma oposição expressiva e milhões de brasileiros que não escolheram seu projeto político.

Isso exigirá mais do que habilidade para vencer eleições. Exigirá responsabilidade fiscal, capacidade de diálogo, respeito às instituições, disposição para prestar contas e habilidade para governar também para aqueles que votaram contra ele.

Da oposição, por sua vez, será exigida uma postura igualmente responsável. Fiscalizar é dever democrático. Cobrar explicações é legítimo. Exigir transparência é necessário. Mas acusações de irregularidade precisam ser acompanhadas de evidências concretas, para que a legítima fiscalização não se transforme em combustível para uma instabilidade ainda maior.

O Brasil já viveu conflitos políticos suficientes para compreender que uma nação não pode permanecer indefinidamente dividida entre vencedores e derrotados.

O eleitor que votou em Flávio Bolsonaro não perdeu seu direito de cobrar. E o eleitor que votou em Lula não recebeu uma garantia antecipada de que tudo dará certo.

Ambos continuarão pagando impostos, enfrentando os preços dos alimentos, dependendo da economia, convivendo com os problemas da segurança pública e esperando respostas do poder público.

Porque, depois que as urnas são encerradas, a realidade não distingue eleitores pela cor da bandeira que carregaram durante a campanha.

É por isso que esta segunda-feira precisa ser menos um dia de celebrações ou ressentimentos e mais um momento de profunda reflexão nacional.

O TSE terá a responsabilidade de continuar demonstrando, com transparência e abertura à fiscalização, a integridade do processo eleitoral. O governo reeleito terá a obrigação de transformar promessas em políticas sustentáveis. A oposição deverá fiscalizar com firmeza e responsabilidade. E a sociedade precisará compreender que defender a democracia é também respeitar os resultados legitimamente apurados, sem renunciar ao direito de questionar e exigir explicações.

Ninguém pode afirmar, nesta manhã, como estará o Brasil daqui a quatro anos.

Sabemos quem venceu a eleição. Ainda não sabemos quais serão os resultados desse novo mandato.

O futuro dependerá de escolhas políticas, decisões econômicas, respeito institucional e da capacidade dos brasileiros de superar conflitos sem abrir mão de suas convicções.

Há quem diga que a história se repete. Outros preferem acreditar que ela oferece oportunidades para corrigir os próprios erros.

Que o Brasil tenha sabedoria para aprender com o passado e responsabilidade para construir seu futuro.

E, diante de tantas incertezas, permanece a fé de milhões de brasileiros: Deus sabe o que faz.

A nós cabe confiar Nele, mas também exercer, com consciência e responsabilidade, o dever de cuidar do país que deixaremos às próximas gerações.

Veja também

Notícias Mais Acessadas Agora

Notícias Mais Lidas