Imprensa internacional vê eleição no Brasil como teste para onda conservadora na América Latina
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Por Agência Estado
As eleições presidenciais deste domingo, 25, têm repercutido na imprensa internacional. Jornais pelo mundo acompanham a disputa entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL) como uma possível mudança no pêndulo político do País, que pode se juntar a uma onda conservadora que atinge outros países da América Latina e determinar um novo alinhamento do Brasil na geopolítica global.
Para o jornal argentino La Nación, uma vitória de Flávio, que saiu à frente no 1º turno e se manteve em vantagem nas pesquisas de intenção de voto, consolidaria o que alguns, entre eles, o presidente da Argentina, Javier Milei, chamam de uma onda azul de governos de direita na região.
“Será o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, condenado e preso por tentativa de golpe de Estado, mais um do grupo? E, ainda mais importante: implicará a chamada onda azul uma virada de médio ou longo prazo ou, pelo contrário, apenas um movimento do pêndulo latino-americano, que carece da força necessária para perdurar por longos anos?”, questiona a publicação.
O jornal destaca ainda que o desgaste de Lula após três mandatos foi o principal fator que levou Flávio Bolsonaro a ser o candidato mais votado no primeiro turno. “Claro que os Bolsonaro têm sua base ideológica fiel, mas com essa base não ganhariam uma eleição. Se ganharem, será por serem a opção frente a Lula. E o mesmo vale para o presidente do Brasil. Ser o único que pode derrotar um Bolsonaro é o que lhe permite dizer que, sem ele, não haverá democracia no Brasil e estará em jogo a soberania do País”, disse.
lsonaro votou no Rio e Lula, em SP. Foto: Pedro Kirilos/Estadão e Natacha Pisarenko/AP Foto: Pedro Kirilos/Estadão e Natacha Pisarenko/AP
Por sua vez, o jornal Clarín observa que a discussão nas urnas não é um “básico esquerda ou direita”, mas de capacidades. A reportagem aponta que Lula vem de três mandatos, incluindo o atual, e com um desempenho macro eficiente, enquanto Flávio tem buscado se firmar nas questões sociais.
“A questão social desempenha um papel decisivo nesta etapa final”, diz o Clarín, acrescentando que o governo conseguiu reverter, segundo as pesquisas, o golpe inicial da derrota com base em uma ofensiva intensa que incluiu benefícios, como o pagamento do reajuste do Bolsa Família e o fim da escala de trabalho 6×1.
O francês Le Monde escreveu que a eleição brasileira é considerada a mais importante do ano, juntamente das eleições de meio mandato dos Estados Unidos, que vão ocorrer em 3 de novembro. Para o jornal, os eleitores do País estão sendo chamados para escolher “entre duas visões radicalmente opostas, cujas consequências se estenderão muito além das fronteiras do País”.
A publicação francesa avalia que a candidatura do presidente Lula “personifica a continuidade do progresso social, a proteção ambiental, a defesa das instituições democráticas, a soberania nacional e o multilateralismo”, enquanto, do outro lado, o senador do PL defende uma “política de segurança repressiva, um programa econômico ultraliberal e o alinhamento com o governo Trump”. Para o Le Monde, uma vitória de Flávio colocaria toda a América do Sul, com exceção do Uruguai, sob a influência de Washington.
O ponto também foi tema de um editorial de opinião do jornal americano The New York Times. Publicado neste domingo, o texto diz que os Estados Unidos têm um “histórico problemático” de interferência em eleições estrangeiras. Segundo a publicação, os EUA têm se tornado mais respeitosos com outras democracias e evitado, em grande parte, intervir em suas campanhas, mas o presidente Donald Trump estaria levando Washington de volta ao seu passado “intrometido e contraproducente”.
Como exemplo, o jornal cita as eleições brasileiras deste domingo e diz que os eleitores vão escolher entre “um populista de esquerda” e “um senador de extrema-direita cujo pai está cumprindo uma sentença de 27 anos por tentar um golpe após perder a última eleição”. O NYT reforça que Trump não endossou formalmente o jovem Bolsonaro, mas que ele “fez tudo, exceto endossar oficialmente”, incluindo promulgar políticas fora do mainstream da tradição diplomática americana.
“Essa intromissão é prejudicial à causa da democracia e ao interesse nacional dos Estados Unidos. A interferência externa nas eleições de um estado democrático é antidemocrática: afinal, os americanos não fazem parte do corpo político brasileiro. Subjacente às intervenções do governo Trump está uma mensagem desrespeitosa de que os americanos – ou pelo menos um pequeno número deles – acham que sabem melhor do que os brasileiros o que é melhor para o Brasil”, diz o editorial.
A rede Al Jazeera, do Catar, destacou que países da América Latina vêm estreitando laços com Israel, com uma nova onda de líderes atuando para reverter medias adotadas anteriormente para isolar o governo israelense por causa da guerra em Gaza. O texto afirma que, se o senador Flávio Bolsonaro vencer a eleição, o Brasil pode se somar a esse movimento.
A Al Jazeera diz que o senador tem exibido bandeiras israelenses em comícios e enfatizado sua amizade com o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu. Para a pesquisadora Marta Tawil Kuri, do Colégio do México, há uma “convergência” entre líderes de direita em busca de validação em Washington, apoio de bases evangélicas e uma ofensiva diplomática israelense na região.