A França torrou a herança. O Brasil está gastando o salário dos netos
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Por Redação CGN
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Editorial CGN – Imagine uma família que passou a vida inteira trabalhando, economizando e construindo patrimônio. Comprou uma boa casa, colocou os filhos nas melhores escolas, garantiu uma aposentadoria confortável e acumulou dinheiro suficiente para viver tranquilamente.
Até que, um dia, essa família começou a gastar mais do que ganhava.
Primeiro, usou as economias. Depois, começou a pegar empréstimos. Quando os empréstimos ficaram caros, fez novas dívidas para pagar as antigas. E, para não desagradar ninguém dentro de casa, continuou prometendo que ninguém precisaria abrir mão de nada.
O problema é que o dinheiro acabou. As promessas, não.
Essa família tem nome: França.
Agora imagine outra família, que nunca conseguiu acumular aquele patrimônio, nunca teve a mesma renda e, mesmo assim, resolveu copiar o padrão de vida da primeira.
Essa família também tem nome: Brasil.
E é justamente aí que mora o perigo.
A França ficou rica antes de começar a gastar como rica
Existe uma coisa que muitos políticos brasileiros parecem não compreender: a França não ficou rica porque distribuiu benefícios. Ela conseguiu construir um amplo sistema de proteção social porque antes desenvolveu uma economia rica, produtiva e industrializada.
O país construiu fábricas, ferrovias, usinas, empresas internacionais e uma infraestrutura que se tornou referência mundial
Com essa riqueza, ampliou os serviços públicos, as proteções trabalhistas e os benefícios sociais.
Saúde pública, universidades financiadas pelo Estado, cinco semanas de férias remuneradas, jornada legal de 35 horas semanais e um sistema generoso de aposentadorias.
Tudo muito bonito.
Mas existe um detalhe que costuma desaparecer dos discursos políticos: nada disso é gratuito.
O hospital pode não cobrar na entrada, mas o médico recebe salário. A universidade pode não cobrar mensalidade de determinados estudantes, mas os professores precisam ser pagos. A aposentadoria chega à conta do beneficiário porque alguém está financiando o sistema.
O dinheiro não nasce dentro do governo.
Ele sai da economia, dos impostos, das contribuições e, quando isso não basta, dos empréstimos.
E foi justamente aí que a França começou a se complicar.
Em 2025, as despesas públicas francesas representaram 57,3% de toda a riqueza produzida pelo país naquele ano. Isso não significa que o governo confiscou 57% da economia, mas que seus gastos alcançaram essa proporção do PIB.
Para entender melhor, imagine um país produzindo R$ 100 em riqueza durante um ano. O governo francês gastou o equivalente a R$ 57,30.
E mesmo com toda a capacidade de arrecadação de uma das economias mais desenvolvidas do planeta, não conseguiu fechar a conta.
A França terminou 2025 com déficit público de 5,1% do PIB e dívida equivalente a aproximadamente 115% da produção anual do país.
Ou seja, o governo continua gastando mais do que arrecada e acumulando dívidas.
Agora vem a pergunta: se nem uma nação rica está conseguindo sustentar esse modelo sem dificuldades, por que o Brasil acredita que conseguirá?
O francês reclama porque está perdendo benefícios. O brasileiro deveria reclamar porque paga caro e recebe pouco
Vamos comparar a vida de duas pessoas.
De um lado, um trabalhador francês. Ele paga impostos elevados, mas vive em um país com infraestrutura desenvolvida, transporte público abrangente, serviços públicos consolidados e renda média muito superior à brasileira.
Do outro, um trabalhador brasileiro.
Ele também paga impostos no salário, na energia elétrica, no combustível, no supermercado e praticamente em tudo que consome.
Mas frequentemente precisa pagar por fora aquilo que já deveria receber do Estado.
Paga plano de saúde porque não quer esperar meses por determinados atendimentos.
Paga escola particular porque não confia na qualidade do ensino disponível para seus filhos.
Paga pedágio para circular por rodovias.
Paga segurança privada porque não se sente protegido.
Paga impostos para sustentar serviços públicos e, em muitos casos, paga novamente para conseguir alternativas melhores.
É como entrar em um restaurante, pagar antecipadamente pelo almoço e, quando a comida não chega, precisar atravessar a rua e comprar outro prato.
O mais impressionante é que ainda aparece alguém dizendo que a solução é cobrar mais caro pelo primeiro almoço.
Essa é uma das grandes distorções brasileiras.
O cidadão não está apenas financiando o Estado. Muitas vezes, está financiando também a ineficiência do Estado.
A França está endividada. O Brasil paga uma fortuna para continuar endividado
Aqui começa a parte mais assustadora dessa comparação.
A França tem uma dívida proporcionalmente maior que a brasileira. Mas o Brasil enfrenta um custo de financiamento muito mais pesado.
Segundo o Banco Central, nos 12 meses encerrados em julho de 2026, os juros nominais do setor público brasileiro atingiram aproximadamente R$ 1,15 trilhão.
Sim, trilhão.
Estamos falando de um valor que equivale a cerca de 8,7% de toda a riqueza produzida pelo Brasil em um ano.
Para colocar isso na realidade de qualquer família, imagine alguém que trabalha o mês inteiro, recebe o salário e descobre que uma parcela enorme de sua renda está comprometida apenas com os juros das dívidas.
Não é para comprar comida.
Não é para reformar a casa.
Não é para pagar a escola dos filhos.
É o custo de carregar o endividamento acumulado.
Agora multiplique essa situação por milhões de brasileiros.
O mais grave é que os juros brasileiros não são simplesmente uma escolha arbitrária. Eles refletem fatores como inflação, riscos econômicos, credibilidade fiscal e as características da dívida pública.
Quanto maior a desconfiança de quem empresta dinheiro ao governo, maior tende a ser o preço exigido.
É uma lógica conhecida por qualquer brasileiro que já precisou de crédito no banco.
Quem demonstra capacidade de pagar consegue condições melhores.
Quem vive renovando dívidas acaba pagando mais caro.
E há uma ironia cruel nisso tudo: quanto mais dinheiro o Estado precisa destinar ao custo da dívida, mais difícil fica ampliar os recursos para serviços públicos sem aumentar impostos ou assumir novos compromissos.
É um círculo perigoso.
Na França, a população está nas ruas. No Brasil, ainda acreditam que a solução é prometer mais
No sábado, 17 de outubro, a França viveu uma enorme onda de manifestações.
Segundo o governo francês, aproximadamente 550 mil pessoas participaram dos protestos. Os organizadores estimaram 800 mil.
O movimento reuniu trabalhadores, estudantes e pessoas insatisfeitas com o custo de vida e a deterioração dos serviços públicos.
A maior parte dos manifestantes protestou pacificamente. Mas também houve confrontos, depredações, saques e prisões.
É importante entender que nem toda essa insatisfação decorre dos gastos sociais. Existem problemas econômicos, políticos e institucionais que se acumulam há anos.
Mas a crise revela uma contradição cada vez mais difícil de esconder: a população exige mais proteção e melhores serviços justamente quando o governo enfrenta dificuldades para financiar os compromissos que já assumiu.
E aqui surge um problema que também conhecemos no Brasil.
É muito fácil para um político conquistar aplausos prometendo benefícios.
Difícil é explicar de onde virá o dinheiro.
Mais fácil ainda é dizer que a culpa está sempre em alguém: nos empresários, nos bancos, nos ricos, nos pobres, nos governos anteriores ou nos adversários políticos.
Enquanto isso, a dívida continua crescendo.
E o contribuinte continua pagando.
O Brasil está tentando construir uma França sem ter a riqueza da França
Essa talvez seja a comparação mais importante de todas.
A França construiu um padrão de vida elevado e, posteriormente, ampliou suas obrigações sociais.
O Brasil ainda enfrenta problemas básicos de saneamento, educação, segurança, produtividade e infraestrutura, mas já possui um orçamento extremamente comprometido com despesas obrigatórias.
É como alguém que ainda não terminou de construir a própria casa, mas já assumiu financiamento de carro de luxo, viagens internacionais e despesas que seu salário não consegue pagar.
E, quando o dinheiro falta para colocar o telhado, em vez de rever o orçamento, procura um novo cartão de crédito.
No Brasil, esse cartão tem nome: dívida pública.
E a conta chega em forma de juros, inflação, impostos e menor capacidade de investimento.
Não significa que o Brasil deva abandonar programas sociais ou deixar pessoas vulneráveis sem proteção.
Significa justamente o contrário.
Um país que não organiza suas finanças corre o risco de comprometer a própria capacidade de proteger quem realmente precisa.
Porque uma coisa é ajudar uma família a sair da pobreza.
Outra, completamente diferente, é construir um modelo político no qual a permanência de milhões de pessoas na dependência do Estado passa a ser tratada como algo normal e permanente.
O sucesso de uma política social deveria ser medido também pela quantidade de pessoas que conseguem melhorar de vida, conquistar autonomia e deixar de depender dela.
Não apenas pela quantidade de beneficiários que consegue reunir.
O problema não é o trabalhador ter direitos. É o governo prometer aquilo que não consegue pagar
É preciso acabar com uma confusão conveniente.
Defender responsabilidade fiscal não significa ser contra aposentados, professores, médicos ou pessoas pobres.
Significa compreender que todos eles dependem de um Estado financeiramente capaz de cumprir suas obrigações.
Antes de pedir mais sacrifícios à população, o Brasil precisa enfrentar privilégios, supersalários, desperdícios, estruturas ineficientes, benefícios tributários sem resultados e despesas públicas que crescem sem avaliação adequada.
Isso exige coragem política.
E coragem política é justamente o que costuma desaparecer quando uma reforma ameaça interesses organizados ou votos nas próximas eleições.
O Brasil precisa de um Estado que funcione, e não simplesmente de um Estado que cresça.
Precisa de uma economia capaz de produzir riqueza antes de distribuí-la.
Precisa facilitar a vida de quem empreende, contrata, investe e trabalha.
Porque nenhum país consegue sustentar benefícios sociais duradouros destruindo a capacidade de sua economia financiá-los.
A França está recebendo a conta. O Brasil já está pagando os juros
A França ainda tem uma vantagem enorme sobre nós.
É um país rico, com infraestrutura consolidada, empresas globais, elevada produtividade em diversos setores e uma sociedade que acumulou patrimônio ao longo de gerações.
Mesmo assim, enfrenta uma crise fiscal e política que exige decisões difíceis.
O Brasil não tem a mesma margem de segurança.
Nossa renda é menor. Nossa infraestrutura é mais precária. Nossa desigualdade é maior. E nosso custo de financiamento público é muito mais pesado.
Se um país rico está descobrindo que não pode prometer tudo para sempre, imagine o perigo de um país mais pobre continuar fingindo que pode.
O mais preocupante é que uma parcela da política brasileira ainda trata responsabilidade fiscal como se fosse falta de sensibilidade social.
Como se gastar dinheiro fosse prova de bondade.
Como se questionar despesas fosse atacar os pobres.
Como se o governo tivesse uma fonte inesgotável de recursos.
Mas dinheiro público não é dinheiro sem dono.
É dinheiro de quem acorda cedo, trabalha, produz, vende, compra e paga impostos.
E, quando não é suficiente, é dinheiro emprestado em nome das próximas gerações.
A França está mostrando ao mundo o que acontece quando compromissos públicos crescem além da capacidade de financiamento e o sistema político encontra dificuldades para corrigi-los.
O Brasil deveria observar com atenção.
Porque a verdadeira tragédia não será descobrir que o Estado não pode pagar por tudo.
Será descobrir isso depois de comprometer o futuro de quem ainda nem nasceu.
A França construiu riqueza para depois ampliar seus gastos.
O Brasil está ampliando compromissos na esperança de que algum dia a riqueza apareça.
E existe uma diferença fundamental entre os dois países:
A França tem problemas para sustentar o padrão de vida que conquistou.
O Brasil corre o risco de comprometer o futuro tentando sustentar um padrão de gastos que sua economia ainda não consegue bancar.
No fim das contas, a matemática é a mesma em Paris, Brasília ou na casa de qualquer brasileiro.
Quem gasta mais do que ganha pode até manter a aparência de prosperidade por algum tempo.
Mas o credor, ao contrário do político, não aceita promessa de campanha como pagamento.
E quando a conta chegar, não será o discurso que vai faltar.
Será o dinheiro.