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O que Lula teme tanto? As ameaças contra a ex-amiga de Lulinha e as perguntas que o presidente não responde

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Uma empresária investigada, duas filhas ameaçadas, ministros que frequentavam sua casa e um presidente que prefere desqualificar a mulher a esclarecer as relações do próprio filho com o governo.
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Foto: Reprodução/CGN

Por Redação CGN

Atualizado em

Editorial – Há algo profundamente perturbador na entrevista concedida pela empresária Roberta Luchsinger à CNN Brasil neste sábado (17). E não estamos falando apenas das acusações que ela faz contra o presidente Lula, nem da possibilidade de uma delação premiada que poderá atingir pessoas próximas ao Palácio do Planalto.

Estamos falando de uma mulher que apareceu diante das câmeras dizendo que teme pela própria vida e pela segurança de suas duas filhas.

Roberta afirma receber cerca de 50 ameaças de morte por dia. Relata que as redes sociais das filhas foram invadidas e que elas receberam ameaças de estupro e de violência com faca.

E faz uma acusação gravíssima: responsabiliza politicamente o presidente Lula pelo ambiente de hostilidade que, segundo ela, se formou depois que ele passou a chamá-la publicamente de “pilantra”.

É necessário fazer uma distinção fundamental. Não existe, nessa entrevista, prova de que Lula tenha ordenado, organizado ou participado dessas ameaças. A própria empresária atribui ao presidente a responsabilidade por suas consequências, e não apresenta evidências de que as mensagens violentas tenham partido dele.

Mas isso não encerra a discussão. Pelo contrário. Abre uma questão ainda mais importante.

Que tipo de presidente da República utiliza o alcance e a autoridade do próprio cargo para desqualificar publicamente uma cidadã que ainda está sendo investigada?

Lula poderia ter dito que confiava nas investigações. Poderia ter defendido a atuação da Polícia Federal. Poderia ter explicado as relações entre a empresária, integrantes do governo e seu filho.

Preferiu chamá-la de pilantra.

E repetiu o ataque.

Não estamos falando de uma discussão entre dois cidadãos numa esquina. Estamos falando do presidente da República, diante de milhões de brasileiros, usando palavras que podem destruir a reputação de alguém antes mesmo de qualquer condenação.

A Roberta investigada deve explicações à Justiça. Mas o Lula presidente deve explicações à sociedade.

Uma coisa não elimina a outra.

O desespero de quem tem medo do que pode ser revelado?

É impossível assistir à entrevista sem perceber que Roberta conhece os bastidores do poder.

Ela afirma que ministros frequentavam sua residência, que integrantes do governo procuravam sua ajuda para conseguir agendas e que o próprio Lulinha participava daquele ambiente de relações políticas.

Também reconhece ter ajudado financeiramente um integrante da estrutura presidencial, embora negue qualquer contrapartida ilegal.

Agora, anuncia que pretende fazer uma delação premiada e garante que não poupará ninguém, nem mesmo o presidente ou seu filho.

Diante disso, surge uma pergunta inevitável: por que Lula escolheu atacá-la pessoalmente, em vez de concentrar sua resposta em fatos e documentos?

Seria irritação? Uma tentativa de se distanciar de alguém que se tornou inconveniente? Ou o temor político de que as investigações revelem relações constrangedoras para o governo?

Não sabemos. E seria irresponsável transformar suspeitas em certezas.

Mas uma coisa sabemos: chamar uma investigada de pilantra não responde a nenhuma das perguntas levantadas por ela.

O insulto não esclarece os encontros com ministros. Não explica a intermediação de agendas. Não esclarece eventuais pagamentos. E, principalmente, não responde qual era a participação de Lulinha nas relações descritas pela empresária.

O presidente pode repetir a palavra “pilantra” quantas vezes quiser. Nenhuma repetição substituirá uma explicação convincente.

Quando uma mulher denuncia ameaças, a obrigação do Estado é protegê-la

Existe outra contradição que merece reflexão.

Lula construiu parte de seu discurso político em torno da defesa das mulheres, do combate à violência e do respeito à dignidade feminina.

Pois bem.

Agora uma mulher, investigada, mas não condenada, relata publicamente que ela e suas filhas estão recebendo ameaças gravíssimas.

O mínimo que se espera de um presidente comprometido com esses princípios é uma posição inequívoca em defesa da integridade física das três.

Não é necessário acreditar na inocência de Roberta para exigir que ela seja protegida.

Não é necessário concordar com suas acusações para condenar ameaças contra suas filhas.

E não é necessário gostar da empresária para reconhecer que nenhuma pessoa deve ser submetida a um linchamento público.

Aliás, esse princípio também vale para os adversários de Lula. A dignidade humana não pode depender de alinhamento político.

A empresária afirma que já levou as ameaças às autoridades. Cabe às instituições apurá-las, identificar os responsáveis e garantir a segurança das vítimas.

Se Roberta cometeu algum crime, que seja investigada, processada e, se houver provas suficientes, condenada.

Mas ninguém deve ser condenado pela palavra de um presidente.

E por que ninguém pergunta do que vive Lulinha?

Chegamos ao ponto que talvez seja o mais incômodo de toda essa história.

Fábio Luís Lula da Silva não é uma criança. É um homem adulto, com vida própria, relações empresariais e responsabilidades individuais.

Ninguém precisa pedir autorização ao pai para trabalhar, empreender ou ganhar dinheiro.

Mas quando o pai é o presidente da República, e o filho aparece citado em investigações sobre possíveis relações de influência dentro do governo, a situação deixa de ser apenas familiar.

Passa a ser uma questão de interesse público.

Roberta descreve um Lulinha que frequentava ambientes ministeriais, viajava com integrantes do governo e demonstrava interesse em projetos ligados ao setor de saúde. Também relata reuniões reservadas dele com empresário ligado a uma construtora.

Esses encontros, isoladamente, não provam nenhum crime. É importante deixar isso claro.

Mas justificam perguntas.

Afinal, do que vive Lulinha?

Quais são suas atividades profissionais? Que serviços presta? Quais empresas o remuneram? Qual é a natureza de suas relações comerciais com empresários que mantêm interesses junto ao governo federal?

E, acima de tudo, sua proximidade com o presidente foi utilizada, em algum momento, para favorecer negócios privados?

São perguntas legítimas. Não exigem exposição indevida de sua vida íntima, mas transparência sobre eventuais conflitos de interesses e negócios relacionados ao poder público.

Lula não é obrigado a conhecer cada movimentação financeira do filho adulto. Mas, como presidente, tem a obrigação de não utilizar o cargo para protegê-lo de questionamentos legítimos e de garantir que as investigações sejam conduzidas com independência.

Quando o assunto é a empresária, Lula parece disposto a emitir julgamentos públicos.

Quando o assunto é o próprio filho, o que a sociedade precisa são respostas objetivas.

O presidente não é dono da verdade

O Palácio do Planalto negou que Lula tenha mantido interlocução com Roberta e questionou o momento escolhido para a divulgação das declarações, às vésperas do segundo turno das eleições.

É uma posição que também deve ser considerada.

Roberta tem interesses próprios, está sob investigação e suas acusações precisam ser confrontadas com provas. Uma eventual delação somente terá valor se produzir informações verificáveis e for submetida aos procedimentos legais.

Mas o fato de a entrevistada ser investigada não transforma automaticamente todas as suas declarações em mentiras.

Da mesma forma, o fato de Lula ser presidente não transforma suas palavras em verdades absolutas.

O Brasil não pode aceitar que a reputação de um cidadão seja definida pelo humor de quem ocupa o Palácio do Planalto.

Muito menos admitir que uma mulher e suas filhas recebam ameaças enquanto o debate público se limita a decidir de que lado político elas estão.

Se Roberta está mentindo, que os fatos demonstrem.

Se há irregularidades envolvendo ministros, empresários ou familiares do presidente, que sejam investigadas.

Se existem criminosos ameaçando uma família, que sejam identificados e punidos.

E se Lula deseja encerrar essa controvérsia, existe um caminho muito mais eficiente do que distribuir insultos.

Responder às perguntas.

Porque o país não precisa saber quantas vezes o presidente consegue chamar uma mulher de pilantra.

Precisa saber se houve utilização indevida da máquina pública, quem se beneficiou das relações com o governo e qual foi, afinal, o papel do filho do presidente nessa história.

O silêncio não prova culpa. A indignação não prova inocência. E a palavra de um presidente não substitui a investigação.

Mas uma pergunta continuará ecoando enquanto não houver respostas satisfatórias:

Presidente Lula, afinal, do que vive o seu filho?

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