CGN - Últimas notícias de Cascavel, Paraná e Brasil
Acesse aqui o Discover e busque as mais lidas por mês!

Cascavelense viaja para ver Messi e ganha ingresso horas antes da despedida

Publicado em

Há sonhos que cabem em uma passagem de ônibus. Outros precisam de um pouco mais de coragem.
Cascavelense viaja para ver Messi e ganha ingresso horas antes da despedida

Por Diego Cavalcante

Atualizado em

Há sonhos que cabem em uma passagem de ônibus. Outros precisam de um pouco mais de coragem.

João Lucas Pinto Ribeiro sabia que estava fazendo uma aposta. Aos 27 anos, morador do bairro São Cristóvão, em Cascavel, ele embarcou para Buenos Aires sem ter a certeza de que conseguiria entrar no Monumental de Núñez.

Tinha a passagem de ônibus comprada com a ajuda do pai, contou também com a ajuda da tia Neuzinha para tentar conseguir um ingresso, mas acabou encontrando apenas uma entrada para a FanFest, evento destinado aos torcedores nos arredores do estádio. Ainda assim, decidiu ir. Afinal, havia uma despedida que ele não queria assistir pela televisão: a de Lionel Messi com a camisa da Argentina.

Foram 23 horas de viagem entre os dias 4 e 5 de outubro. Dentro do ônibus, João fazia o que podia para tentar transformar a viagem em uma passagem para dentro do estádio. Participava de sorteios no Instagram, marcava pessoas, compartilhava publicações e registrava cada etapa do caminho.

Quando parava em uma cidade, fazia uma foto ou gravava um vídeo contando onde estava e há quanto tempo estava na estrada. Era uma espécie de diário de uma viagem que ainda não tinha um final garantido. Ele já estava em Buenos Aires, mas o principal objetivo continuava distante.

No dia 5, depois de chegar ao hostel, João continuou tentando. Um dos sorteios era realizado pelo X, antigo Twitter, e pedia que os participantes explicassem por que deveriam assistir à partida. Ele contou a própria história e seguiu acompanhando os resultados.

À noite, porém, veio a notícia que não queria receber: os sorteios haviam terminado e ele não tinha sido escolhido. Restava a FanFest. O sonho de entrar no Monumental parecia ter acabado antes mesmo de começar. João foi dormir chateado, acreditando que, no dia seguinte, teria de acompanhar a despedida de Messi do lado de fora do estádio.

Só que a manhã seguinte começou de uma maneira diferente. O celular estava cheio de mensagens de argentinos perguntando quem ele levaria para o jogo. João não entendia nada. Foi até o X para descobrir o motivo de tanta gente estar falando com ele e encontrou a publicação de uma empresa argentina responsável por um dos sorteios.

O cascavelense havia sido escolhido. A frase usada para anunciar o resultado dizia que o “louco se arriscou e ganhou”. O apelido tinha motivo: João havia viajado praticamente sem dinheiro para permanecer na Argentina. Segundo ele, tinha cerca de R$ 100 para se alimentar durante os três dias, valor que recebeu do pai. Mesmo sem saber como tudo terminaria, ele tinha ido.

O ingresso mudou completamente o rumo daquela manhã. João foi para o Monumental e, antes mesmo de entrar, já vivia algo que jamais havia imaginado. Acabou dando entrevistas para veículos da Itália, do Egito, da Argentina e do Brasil, incluindo a ESPN.

Depois veio a parte que mais parecia um teste para saber se aquilo tudo era mesmo verdade. No estádio, havia quatro catracas pelas quais precisava passar. Ele aproximou o QR Code da primeira. Funcionou. Foi para a segunda. Funcionou novamente. A cada passagem, a possibilidade de que o sonho fosse real ficava maior. Até que, finalmente, João colocou os pés dentro do Monumental.

Foi naquele instante que toda a viagem pareceu fazer sentido. Ele conta que ficou em uma espécie de catarse. Não conseguia falar, não conseguia chorar e não conseguia explicar o que estava sentindo. Apenas olhava. Os fogos começaram, as músicas tomaram o estádio e dezenas de milhares de argentinos transformaram a despedida em uma grande celebração.

João cantou junto, acompanhou o show e tentou guardar tudo o que podia daquele momento. No meio daquela multidão, havia um cascavelense que tinha atravessado a fronteira sem saber sequer se conseguiria entrar e que agora estava sentado em um setor de cadeiras numeradas, assistindo ao último jogo de Messi pela Argentina.

Talvez a emoção tenha sido tão grande porque, para João, Messi não apareceu simplesmente em algum momento da vida. Messi esteve ali desde que ele começou a entender o futebol. Nascido em 1999, ele se lembra de jogar Winning Eleven quando criança e colocar o argentino pela direita, Ronaldinho pela esquerda e Eto’o no ataque.

Depois, o videogame ficou para trás, mas Messi continuou fazendo parte da vida dele. João acompanhou os títulos pelos clubes, as Bolas de Ouro, as finais perdidas pela Argentina, as críticas, as lágrimas e até o momento em 2016 em que Messi chegou a anunciar que deixaria a Seleção.

Ele viu o jogador voltar. Viu a Argentina conquistar a Copa América de 2021, título que acompanhou enquanto trabalhava em Cascavel. Depois chorou diante da televisão na Copa do Mundo de 2022. Comemorou novamente a Copa América de 2024 e acompanhou a caminhada até a Copa do Mundo de 2026. Durante todos esses anos, João viu Messi ganhar, perder, cair e continuar. E diz que essa trajetória acabou se tornando uma lição para a própria vida: não desistir quando alguma coisa parece impossível.

Foi exatamente o que ele fez para estar naquele estádio. Quando os sorteios terminaram e nenhum deles havia dado resultado, poderia ter ficado com a FanFest. Quando não tinha dinheiro suficiente para a viagem, poderia ter desistido.

Quando estava diante das catracas, ainda existia a possibilidade de alguma coisa dar errado. Mas continuou. E, quando finalmente viu Messi no gramado, percebeu que aquela insistência tinha levado a um lugar que, até poucos dias antes, parecia impossível.

“Eu não conheci o futebol sem o Messi”, disse João ao tentar explicar o tamanho daquela experiência. É uma frase simples, mas talvez seja justamente por isso que ela diga tanto. Para uma geração inteira, Messi não foi apenas um jogador que apareceu, jogou e foi embora.

Ele esteve presente na infância, nos videogames, nas partidas assistidas pela televisão, nas comemorações e nas frustrações. João cresceu vendo Messi tentar conquistar a Argentina e, depois de tantos anos, estava no Monumental justamente para assistir ao momento em que aquela história chegava ao fim.

A despedida foi tão intensa que João conta ter chorado tudo o que tinha para chorar naquela noite. Por isso, ao falar sobre a experiência depois, já não conseguia encontrar muitas palavras. Disse que será difícil se acostumar com o futebol sem Messi e que o argentino representa muito em sua vida. Para ele, não era simplesmente o fim de uma carreira internacional. Era o encerramento de uma presença que acompanhou praticamente toda a sua relação com o futebol.

Só que, depois de realizar o sonho, João ainda precisa resolver uma parte importante dessa aventura. O mesmo cascavelense que conseguiu chegar a Buenos Aires, ganhar um ingresso quando já havia perdido as esperanças e entrar no Monumental agora precisa de ajuda para voltar para casa. Ele busca auxílio para conseguir o valor da passagem de retorno a Cascavel. Quem puder ajudar pode entrar em contato pelo telefone e WhatsApp (45) 92000-7502.

A viagem começou com a ajuda do pai, passou pela tia Neuzinha, por 23 horas dentro de um ônibus e por uma sequência de sorteios que pareciam não dar em nada. Terminou com João sentado no Monumental, cercado por argentinos, cantando, vendo fogos e acompanhando a despedida do jogador que conhece desde os tempos do Winning Eleven.

Agora falta o último trecho dessa história: encontrar uma maneira de deixar Buenos Aires e voltar para Cascavel. Mas, quando chegar em casa, João provavelmente terá muito mais do que uma lembrança para contar. Terá a certeza de que, pelo menos uma vez, decidiu correr atrás de um sonho antes de perguntar se ele era possível.

Veja também

Notícias Mais Acessadas Agora

Notícias Mais Lidas