Quando 56 milhões de votos mudam o eixo da política
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Por Redação CGN
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Editorial – A eleição do último domingo não foi apenas uma disputa entre nomes. Foi, em grande medida, um julgamento político sobre o legado de Lula, sobre três anos e meio de seu atual governo e sobre um projeto que ocupa o centro do poder brasileiro há décadas.
E o recado das urnas foi impossível de ignorar.
Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno na liderança, com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula. Foram mais de 56 milhões de votos no candidato do PL. Pela primeira vez desde a redemocratização, a diferença entre os dois primeiros colocados em um primeiro turno presidencial ficou abaixo de dois pontos percentuais.
Mas olhar apenas para a eleição presidencial seria enxergar só uma parte da história.
Em São Paulo, Tarcísio de Freitas foi reeleito governador no primeiro turno com 62,65% dos votos válidos e 14,49 milhões de votos, o maior percentual de um governador paulista desde a redemocratização. Guilherme Derrite recebeu 13,27 milhões de votos para o Senado, tornando-se o senador mais votado da história do país.
Em Minas Gerais, Nikolas Ferreira recebeu mais de 3,1 milhões de votos para deputado federal, estabelecendo novo recorde para o cargo. Mais do que isso, tornou-se um dos grandes puxadores políticos de uma nova geração conservadora que ajudou a eleger deputados em diversos estados.
Isso não parece um acidente eleitoral.
Parece mudança de ciclo.
Durante anos, dizia-se que o bolsonarismo sobrevivia exclusivamente de Jair Bolsonaro. A eleição mostrou algo diferente. Existe hoje uma estrutura política muito maior: governadores fortes, parlamentares com milhões de votos, novas lideranças e uma base eleitoral que continuou mobilizada mesmo com Jair Bolsonaro fora da disputa presidencial.
E há um aspecto particularmente importante na candidatura de Flávio Bolsonaro.
Ele não precisava estar ali.
Tinha um mandato confortável no Senado, oito anos de estabilidade política e todos os incentivos para permanecer onde estava. Preferiu abandonar a posição mais segura para entrar na disputa presidencial num ambiente de máxima pressão política, exposição pública e confronto.
Pode-se gostar ou não dele. Mas é difícil negar o risco pessoal e político dessa escolha.
Durante meses disseram que seria um candidato fraco.
As urnas responderam.
Flávio terminou o primeiro turno à frente de um presidente da República que disputava a reeleição, superando Lula nacionalmente e vencendo em quatro das cinco regiões brasileiras. Liderou em 14 estados e no Distrito Federal.
Esse resultado também desmontou uma narrativa recorrente de que a direita brasileira estaria isolada ou reduzida a um nicho radicalizado.
Cinquenta e seis milhões de votos não são nicho.
São uma parte gigantesca do Brasil.
Enquanto isso, o campo político construído em torno de Lula sai desta eleição menor do que entrou.
Isso talvez seja consequência de um problema que acompanha o petismo há muito tempo: Lula tornou-se tão dominante dentro de seu próprio campo que praticamente não permitiu o surgimento de um sucessor com dimensão nacional semelhante.
Durante décadas, aliados orbitaram Lula. Pouquíssimos conseguiram construir luz própria.
O resultado aparece agora.
A esquerda chega a 2026 novamente dependente de um líder que está na política nacional desde os anos 1980, enquanto a direita apresenta uma geração inteira de governadores, senadores, deputados e comunicadores com eleitorado próprio.
Até o chamado centro político recebeu um recado.
Os candidatos que tentaram ocupar uma posição intermediária tiveram desempenho limitado diante de uma eleição novamente polarizada. Ronaldo Caiado, Romeu Zema e outras alternativas não conseguiram romper a disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro.
O eleitor parece ter decidido antes dos partidos.
E agora surge uma oportunidade que o Brasil raramente teve nas últimas décadas: combinar uma eventual mudança no Executivo com um Congresso ideologicamente mais próximo de uma agenda reformista.
Esse ponto é fundamental.
Fernando Henrique Cardoso precisou governar negociando com o velho PMDB. Lula fez o mesmo. Dilma também. Jair Bolsonaro acabou recorrendo ao Centrão.
Governar o Brasil sempre significou construir maiorias parlamentares heterogêneas, frequentemente pagando um preço alto em concessões políticas.
A nova composição do Congresso pode alterar parte dessa equação.
E é exatamente aí que deveria começar uma nova agenda nacional.
Responsabilidade fiscal.
Controle da dívida.
Segurança jurídica.
Investimento privado.
Reformas.
Produtividade.
Crescimento.
Menos Estado tentando comandar cada aspecto da economia e mais espaço para quem produz, trabalha, investe e empreende.
Depois de anos discutindo aumento de arrecadação, expansão de gastos e novas formas de intervenção estatal, talvez tenha chegado o momento de perguntar novamente uma coisa muito mais simples: como fazer o Brasil crescer?
A resposta dos mercados na segunda-feira seguinte à eleição foi eloquente.
O Ibovespa disparou, ultrapassou os 200 mil pontos e fechou com alta de 7,7%, depois de registrar valorização ainda maior durante o pregão. O dólar chegou a ficar abaixo de R$ 5, enquanto os juros futuros recuaram fortemente. Bancos, varejistas e outras empresas sensíveis à atividade econômica e ao crédito estiveram entre os destaques.
Nada estrutural havia mudado na economia brasileira entre sexta-feira e segunda-feira.
O que mudou foi a política.
Mais precisamente, mudou a percepção sobre o futuro da política econômica.
Investidores passaram a precificar uma possibilidade maior de mudança na condução fiscal e de aprovação de reformas.
É evidente que Bolsa não é eleição.
Mercado financeiro não substitui urna.
E um pregão de euforia não resolve dívida pública, produtividade ou crescimento.
Mas preços carregam expectativas.
E a expectativa mudou de forma brutal em poucas horas.
Isso deveria produzir alguma reflexão em Brasília.
Porque talvez o problema brasileiro não seja falta de potencial.
Talvez seja excesso de obstáculos.
Um país continental, com recursos naturais extraordinários, agricultura competitiva, empresários resilientes, mercado consumidor gigantesco e milhões de trabalhadores dispostos a prosperar deveria estar discutindo crescimento de longo prazo — não maneiras cada vez mais criativas de financiar um Estado permanentemente faminto.
Há ainda outro debate que a eleição colocou sobre a mesa.
Durante anos, parte da imprensa e do establishment político passou a classificar praticamente toda manifestação relevante da direita como “extrema-direita”.
Mas o que exatamente houve de extremo no domingo?
Milhões de pessoas acordaram, foram às seções eleitorais, apertaram alguns números numa urna eletrônica e voltaram para casa.
Nenhuma revolução.
Nenhuma ruptura.
Nenhum tanque.
Apenas voto.
Esse é justamente o mecanismo mais civilizado de mudança política inventado pelas democracias.
Também será inevitável discutir, nos próximos anos, os limites entre os Poderes.
O Brasil viveu um período de enorme tensão institucional. Decisões monocráticas, embates entre Supremo Tribunal Federal e Congresso, restrições determinadas judicialmente e discussões sobre os limites da atuação das cortes transformaram-se em temas centrais da política brasileira.
Há quem considere essas decisões necessárias à proteção das instituições. Há também quem enxergue nelas um avanço excessivo do Judiciário sobre terrenos que deveriam pertencer ao Legislativo, ao Executivo ou à própria sociedade.
Essa discussão não desaparecerá depois da eleição.
Ao contrário.
Um Congresso fortalecido provavelmente recolocará o tema da separação entre os Poderes no centro do debate nacional.
E isso também faz parte da democracia.
Democracia não significa ausência de conflito.
Significa resolver conflitos dentro das regras.
É por isso que o resultado de domingo possui um significado maior do que a soma das votações individuais.
As urnas mostraram que milhões de brasileiros desejam mudança.
Mostraram que o lulismo continua poderoso, mas já não possui a hegemonia que seus aliados muitas vezes imaginaram.
Mostraram que o bolsonarismo não desapareceu sem Jair Bolsonaro na urna.
Mostraram que uma nova geração conservadora ganhou dimensão nacional.
E mostraram, sobretudo, que nenhum poder da República pode ignorar indefinidamente o eleitor.
Ainda existe um segundo turno.
Nada está decidido.
Lula continua representando uma parcela enorme do país e recebeu quase 54 milhões de votos no primeiro turno. O Brasil permanece dividido e profundamente competitivo politicamente.
Mas alguma coisa mudou no domingo.
A sensação de inevitabilidade acabou.
Depois de anos em que Lula parecia ocupar sozinho o centro gravitacional da política brasileira, surgiu diante do país uma alternativa eleitoral capaz de superá-lo no primeiro turno e acompanhada por uma poderosa estrutura parlamentar e estadual.
É apenas o começo de uma nova disputa sobre qual Brasil queremos construir.
Um Brasil permanentemente preso ao passado, às mesmas lideranças e às mesmas fórmulas?
Ou um país capaz de reencontrar responsabilidade fiscal, crescimento, segurança jurídica e confiança de quem trabalha e produz?
As urnas não encerraram essa discussão.
Elas a abriram.
E talvez esse tenha sido o maior recado de domingo.
No fim das contas, acima dos políticos, dos partidos, dos tribunais, dos comentaristas e dos mercados, existe uma autoridade que nenhuma democracia pode esquecer: O eleitor.