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45 mil eleitores de Cascavel não votaram: abstenção quase iguala votos de deputado eleito na lanterna

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Número de ausentes em Cascavel seria suficiente para rivalizar com a votação total de vários deputados eleitos para a Alep; multa de até R$ 3,51 levanta discussão sobre o peso real da obrigatoriedade do voto.
Imagem referente a 45 mil eleitores de Cascavel não votaram: abstenção quase iguala votos de deputado eleito na lanterna
Foto: Reprodução/CGN

Por Luiz Haab

Atualizado em

Enquanto candidatos disputavam voto a voto nas eleições deste domingo (4), 45.549 eleitores de Cascavel simplesmente não foram às urnas.

O número representa 19,04% dos 239.254 eleitores aptos a votar na cidade. Em outras palavras, praticamente um em cada cinco cascavelenses habilitados a participar da eleição não foi às urnas para apertar nenhum dos botões.

O tamanho desse grupo fica mais evidente quando comparado à eleição para a Assembleia Legislativa do Paraná (Alep). Os 45.549 ausentes de Cascavel são praticamente o mesmo número de votos obtidos em todo o Paraná por Batatinha (PSD), eleito deputado estadual com 46.483 votos.

Mais: o contingente de cascavelenses que não compareceu supera a votação estadual de vários candidatos eleitos. Dr. Antenor (PT), último entre os 54 eleitos quando considerados os votos nominais, conquistou 30.467 votos em todo o Paraná. Deivid Wisley (Novo) foi eleito com 31.935; Thiago Foltran (PT), com 32.831; e Angelo Vanhoni (PT), com 35.862.

Isso não significa que 45 mil votos adicionais de Cascavel automaticamente elegeriam outro deputado da cidade, visto que a eleição para a Alep segue o sistema proporcional, no qual entram na conta os votos dos candidatos e também o desempenho dos partidos e federações em todo o Paraná.

Porém, a comparação serve para dimensionar o tamanho da força eleitoral que Cascavel deixou de colocar nas urnas.

É quase como se uma votação suficiente para rivalizar com a de um deputado estadual inteiro tivesse desaparecido da eleição.

Mas os ausentes mudariam o resultado em Cascavel?

Para as duas principais disputas majoritárias (Governo do Paraná e Presidência da República), a resposta matemática é não.

Na eleição presidencial, Flávio Bolsonaro recebeu 121.234 votos em Cascavel, contra 51.045 de Lula — diferença superior a 70 mil votos. Mesmo que, em uma hipótese extrema, todos os 45.549 ausentes tivessem comparecido e votado em Lula, Flávio ainda terminaria à frente no município.

Situação semelhante ocorreu para governador. Em Cascavel, Sergio Moro obteve 104.919 votos na cidade, contra 41.846 de Requião Filho (candidato que ficou em terceiro lugar na totalização de votos do estado). A diferença, de pouco mais de 63 mil votos, também é superior ao número total de ausentes.

Portanto, a abstenção não mudaria quem venceu para presidente ou governador dentro de Cascavel, mesmo na hipótese artificial de todos os ausentes votarem no segundo colocado.

Nas eleições proporcionais, entretanto, não é possível fazer a mesma afirmação. Dezenas de milhares de votos adicionais poderiam alterar os totais de candidatos, partidos e federações e, consequentemente, os cálculos que determinam a distribuição das cadeiras.

Voto obrigatório — com multa de até R$ 3,51

O tamanho da abstenção também recoloca uma velha contradição brasileira no debate: o voto é obrigatório, mas faltar à eleição pode ter um custo financeiro muito pequeno.

A legislação estabelece que cada ausência injustificada gera débito eleitoral de até R$ 3,51 por turno. Quem não compareceu no domingo ainda pode apresentar justificativa à Justiça Eleitoral até 3 de dezembro. Se ela for aceita, não há multa.

Na prática, isso pode criar uma curiosa equação econômica.

Imagine um eleitor que precise gastar R$ 15 de Uber para chegar ao local de votação e outros R$ 15 para voltar. São R$ 30 para exercer um voto que a lei define como obrigatório, diante de uma eventual multa de até R$ 3,51 caso ele simplesmente não compareça e posteriormente regularize a pendência.

Isso não significa que o custo seja a causa das 45 mil ausências registradas em Cascavel. A abstenção reúne situações muito diferentes: doença, viagem, distância do domicílio eleitoral, dificuldades de locomoção, desinteresse, insatisfação com os candidatos ou uma decisão deliberada de não participar.

Mas a diferença entre o custo de comparecer e o valor da multa ajuda a explicar por que a palavra “obrigatório” pode ter, na prática, um poder de coerção bastante limitado.

Há consequências maiores caso o eleitor acumule pendências. A ausência a três eleições consecutivas — considerando cada turno uma eleição — sem justificativa ou quitação das multas pode levar ao cancelamento do título.

Brasil teve 33,4 milhões de ausentes

Cascavel não é uma exceção. Na realidade, sua taxa de abstenção ficou abaixo da média nacional.

Em todo o Brasil, 33,4 milhões de pessoas não compareceram ao primeiro turno, o equivalente a 21,08% do eleitorado. Foi a maior abstenção em uma eleição geral desde 1998, quando o índice chegou a 21,49%.

A dimensão ganha peso adicional porque a eleição presidencial terminou apertada: Flávio Bolsonaro recebeu cerca de 56,1 milhões de votos, contra 53,9 milhões de Lula — aproximadamente 2,2 milhões de votos de diferença. O contingente nacional que não votou foi cerca de 15 vezes maior que a distância entre os dois candidatos que chegaram ao segundo turno.

Não se pode presumir em quem os ausentes votariam — ou sequer que suas preferências seriam diferentes das apresentadas por quem compareceu. Abstenção não é um partido e tampouco significa necessariamente protesto político. Mas o fato é que tudo poderia ter sido diferente, em todos os níveis. E Cascavel oferece uma medida particularmente concreta do fenômeno.

Uma cidade deixou 45.549 votos potenciais em casa.

É praticamente a votação necessária para colocar alguns dos deputados que acabam de ser eleitos na Assembleia Legislativa do Paraná.

Em uma democracia na qual cada voto é apresentado como decisivo, talvez o número mais provocativo desta eleição em Cascavel seja justamente o daqueles que decidiram não depositar voto algum.

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