Papa condena e classifica eutanásia como 'falsa compaixão' imoral
Publicado em
Por Agência Estado
O Papa Leão XIV condenou veementemente a legalização da morte assistida por meios médicos, classificando-a como uma “falsa compaixão” imoral, ao reafirmar os ensinamentos católicos sobre a vida durante uma visita, neste domingo, 27, a Lourdes, santuário católico francês associado a curas milagrosas de enfermos.
Em seu terceiro dia na França, Leão voltou a abordar o debate sobre o fim da vida, que tem ganhado força em países de todo o mundo.
A questão agitou a política francesa durante anos, culminando recentemente em uma legislação que permite a adultos com doenças incuráveis receberem medicação letal.
A visita de Leão à França, país outrora profundamente católico e hoje oficialmente laico, tem sido marcada por multidões imensas – como as 800 mil pessoas presentes na missa celebrada por ele na icônica Place de la Concorde, em Paris – e por suas mensagens contra o aborto e a morte assistida.
Neste domingo, o papa norte-americano celebrou uma missa para cerca de 150 mil pessoas – muitas delas em cadeiras de rodas – no gramado ao lado da basílica principal de Lourdes.
Em seguida, visitou um centro de assistência a enfermos nas dependências do santuário.
Ele buscou encorajar, especialmente aqueles que vivem com “dores terríveis”, lembrando-lhes de que possuem uma dignidade inerente que nenhuma lei ou algoritmo pode “eliminar”.
“Pelo contrário, é precisamente em nome dessa dignidade inalienável da pessoa humana que devemos rejeitar a tentação de provocar a morte sob o pretexto de uma falsa compaixão”, afirmou. “O que é legal não é necessariamente moral”, disse Leão, sob aplausos da multidão.
Lourdes tornou-se um importante destino de peregrinação depois que a Igreja Católica reconheceu oficialmente as visões da Virgem Maria relatadas no local por uma jovem, em 1858.
O santuário, situado perto da fronteira com a Espanha, atrai milhões de peregrinos todos os anos, especialmente fiéis doentes e pessoas com deficiência que buscam a cura nas famosas águas da fonte da Gruta de Lourdes, onde as visões teriam ocorrido.
Leão chegou a Lourdes vindo de Paris na noite do sábado, 26; logo ao chegar, rezou na Gruta das Aparições e bebeu da água da fonte.
“Ele trouxe uma mensagem de esperança para a França – uma mensagem de esperança e grandeza para a França, e de renovação para a França”, contou Pierre Caziljc, um peregrino vindo de Paris.
Papa transmite mensagem sobre a vida durante visita à França
Na França, o Papa tem apelado repetidamente por um respeito renovado à vida, em conformidade com o ensinamento católico de que toda vida humana deve ser protegida e defendida desde a concepção até a morte natural. Esse ensinamento traduz-se em uma firme oposição ao aborto, à eutanásia e à morte assistida.
Em Lourdes, onde a Igreja reconheceu 72 curas “milagrosas” como autênticas, a questão do respeito aos mais frágeis, doentes e vulneráveis torna-se particularmente premente.
“Suas muletas, suas cadeiras de rodas e suas lágrimas ocultas não são obstáculos; pelo contrário, são o próprio lugar onde vocês são plenamente respeitados e acolhidos”, disse em sua homilia. “Lourdes é abençoada como um lugar para professar a beleza e a santidade da vida, pois aqui a vida é acolhida como um dom precioso de Deus.”
Sobreviventes visitam Lourdes como parte de seu processo de cura
Mais recentemente, Lourdes também se tornou um local de cura para sobreviventes de abuso sexual cometido por membros do clero. Leão deveria encontrar-se com sete sobreviventes mais tarde neste domingo, incluindo uma pessoa que sofreu abuso já na idade adulta, reconhecendo assim a nova frente da crise de abusos que a Igreja enfrenta.
A Igreja na França tem passado por um doloroso acerto de contas com seu legado de abusos. Um relatório independente de 2021 estimou que 330 mil crianças foram vítimas de abuso ao longo de 70 anos, perpetrado por cerca de 3 mil padres e funcionários da Igreja.
Apesar das críticas à metodologia e às conclusões do relatório, os bispos franceses implementaram um sistema independente de indenização para as vítimas que, até o momento, recomendou que a Igreja pagasse mais de 20 milhões (R$ 118,5 milhões).
Durante uma reunião com bispos franceses durante a manhã, Leão elogiou a resposta deles às vítimas e incentivou-os a continuar. No entanto, ele também reconheceu que a queda acentuada nas vocações sacerdotais na Igreja francesa está relacionada ao escândalo, visto que o sacerdócio passou a ser visto, por vezes, com desconfiança. “Para que as vocações sacerdotais floresçam, o padre deve ser acolhido, aceito e amado”, disse.
No dia em que o Papa chegou a Paris, um grupo de vítimas escreveu uma carta aberta pedindo que ele reconhecesse a responsabilidade da Igreja no escândalo, destacando o que críticos consideram um conflito de interesses: bispos sendo chamados a atuar tanto como pais espirituais de seus padres quanto como juízes quando estes cometem abusos.
“A Igreja deve abrir mão de sua posição de atuar simultaneamente como juíza e parte nos processos”, escreveram as vítimas na carta publicada pelo jornal francês Libération. As vítimas também reclamaram do fato de que apenas sete delas, escolhidas pela Igreja, se reuniriam com Leão.
O monsenhor Pierre-Antoine Bozo, porta-voz da conferência episcopal, afirmou que o Papa quis, deliberadamente, manter o grupo reduzido para permitir um encontro mais íntimo. “Quando se trata de ouvi-las, não dá para ter 50 pessoas à sua frente”, disse. “Então, acho que foi exatamente isso que o Papa escolheu: ouvir para que possamos agir e responder de forma mais eficaz.”
Mosaicos são um lembrete doloroso de supostos abusos
Em Lourdes, Leão também foi confrontado com um caso delicado de abuso herdado do Papa Francisco.
A fachada de uma das basílicas de Lourdes foi projetada pelo Reverendo Marko Rupnik, um artista religioso especializado em mosaicos.
Rupnik está sendo julgado atualmente em um tribunal do Vaticano, acusado por mais de duas dezenas de mulheres de tê-las submetido a abusos psicológicos, espirituais e sexuais desde a década de 1990, inclusive durante a criação de suas obras de arte.
O caso foi encoberto por três décadas por seus superiores jesuítas, e até mesmo Francisco chegou a ser suspeito de ter protegido seu colega de ordem. Em resposta à repercussão na mídia, Francisco ordenou um processo canônico em 2024, que está em andamento.
O caso Rupnik levantou a questão sobre o que fazer com seus mosaicos, que adornam basílicas ao redor do mundo.
Em 2025, o bispo de Lourdes, Jean-Marc Micas, decidiu cobrir a fachada da Basílica Notre Dame du Rosaire, argumentando que as vítimas de abuso que visitam Lourdes em busca de cura não deveriam ser obrigadas a vê-los. Ainda no domingo, o Papa passou de papamóvel diante da basílica, circulando pela área e passando pelos painéis de mosaico, que agora estão cobertos por cortinas cor de mostarda fixadas com abraçadeiras de plástico.
Em uma carta enviada ao Papa antes de sua viagem, cinco mulheres que afirmam ter sido abusadas por Rupnik elogiaram a decisão de Micas de cobrir os mosaicos. No entanto, elas criticaram a forma como o Vaticano conduziu o caso e o fato de terem levado três décadas para serem ouvidas.
“Esse silêncio prolongado e ruidoso foi vivenciado por nós, as vítimas, como uma violência adicional e contínua”, escreveram elas./AP
*Este conteúdo foi traduzido com o auxílio de ferramentas de Inteligência Artificial e revisado pela equipe editorial do Estadão. Saiba mais em nossa Política de IA.