Cão atropelado e com sinais de maus-tratos expõe irresponsabilidades e pergunta: de quem é a culpa?
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Por Luiz Haab
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Um cachorrinho foi atropelado por uma motocicleta em Cascavel e acabou ferido no asfalto. O acidente foi registrado por uma câmera de segurança e, apesar de a motociclista deixar o local, o caso não terminou no momento do impacto. O animal precisou de atendimento veterinário e segue em tratamento.
O cão sofreu fratura na mandíbula, além de inchaço nos olhos e na língua. O resgate foi realizado por uma protetora ligada à causa animal, que levou o animal para receber atendimento.
O caso chama atenção para uma realidade que se repete nas ruas de Cascavel: animais abandonados, atropelados, doentes ou sem responsáveis acabam dependendo da ação de protetores e organizações para receber atendimento.
Além dos riscos para os próprios animais, a presença de cães e gatos soltos nas ruas também preocupa moradores e motoristas. Animais podem provocar acidentes ao atravessar repentinamente as vias, enquanto situações de abandono e reprodução sem controle aumentam o número de animais em situação de vulnerabilidade.
Quando o socorro depende de quem pode pagar
Quando um animal é ferido, o problema rapidamente se transforma em uma corrida contra o tempo. Consultas, exames, medicamentos e cirurgias podem custar centenas ou até milhares de reais — valores que muitas famílias não conseguem bancar.
Em Cascavel, existe o Samucão, serviço municipal destinado ao atendimento de animais sob tutela de pessoas de baixa renda. O serviço, porém, possui critérios para acesso e não funciona aos fins de semana. Com isso, existem situações em que a família não consegue atendimento ou não se enquadra nas regras, enquanto o animal continua precisando de socorro.
Nesses casos, a responsabilidade acaba sendo transferida para protetores, ONGs ou pessoas que se mobilizam para evitar que o animal fique sem tratamento.
O problema é que, quando o poder público não consegue atender, a conta não desaparece. Ela muda de mãos. A conta pode chegar a uma família sem condições financeiras, a um protetor que já cuida de dezenas de animais ou a uma ONG que depende de doações para continuar funcionando.
Protetores também têm limite
Organizações e protetores independentes ocupam justamente esse espaço. São eles que resgatam animais, providenciam alimentação, levam para atendimento veterinário, compram medicamentos e procuram novos lares. Mas a capacidade de atendimento também é limitada.
Há casos de pessoas que acumulam dezenas de cães e gatos em condições inadequadas. Algumas situações começam com a tentativa de ajudar um animal e acabam se transformando em um cenário em que o responsável já não consegue cuidar de todos. Também existem casos de maus-tratos intencionais, que precisam ser denunciados e podem resultar em responsabilização.
Por isso, o problema não envolve apenas quem gosta ou não de animais. Abandono, animais doentes nas ruas, reprodução sem controle, acumuladores e falta de atendimento atingem também o trânsito, as famílias, os serviços públicos e a saúde pública.
Quem paga a conta?
No caso do cachorrinho atropelado, o Instituto Viva Cascavel informou que busca identificar a motociclista envolvida. Enquanto isso não acontece, o tratamento precisa continuar.
A entidade também divulgou uma chave Pix para receber contribuições destinadas ao atendimento do animal e de outros casos:
Instituto Viva Cascavel
CNPJ/Chave Pix: 66.792.073/0001-53O episódio deixa uma questão que vai além do atropelamento: quem responde pelo animal quando ele é abandonado, fica doente ou é machucado?
Quando a família que acolheu o animal não consegue pagar pelo tratamento, alguém precisa assumir os custos e garantir o atendimento. Porque existe uma conta a pagar, um tratamento a ser feito e, principalmente, uma responsabilidade que precisa ter dono.
A situação do cachorrinho mostra que, entre o abandono e o atendimento, existe hoje um espaço que vem sendo ocupado por protetores e entidades. O problema é que esses grupos também têm limites — financeiros, estruturais e humanos.
E a discussão passa justamente por isso: até onde pode ir a responsabilidade de quem resgata, e quem deve assumir o restante da conta quando o animal precisa de ajuda?
O que diz a Prefeitura
A Secretaria de Meio Ambiente divulgou uma nota oficial com esclarecimentos sobre o funcionamento do Samucão. Confira na íntegra:
”A Secretaria de Meio Ambiente informa que em 2026, até o momento, o Samucão realizou 1.341 atendimentos de baixa, média e alta complexidade, média de 149 animais por mês.
Foram realizados 1.022 procedimentos, incluindo castrações e cirurgias de alta complexidade. É uma média de 113 procedimentos por mês.
Para o exercício de 2026, a ação orçamentária “Manutenção das Atividades dos Programas de Bem-Estar Animal e Banco de Ração” prevê R$ 1.135.000,00, o equivalente a uma média de R$ 94.583,33 por mês. Esse valor contempla a ação como um todo e não corresponde exclusivamente aos atendimentos do Samucão.
Critérios de acesso: Conforme o Decreto Municipal nº 17.933, podem ser atendidos:
- Famílias em situação de vulnerabilidade social que participem de programas de transferência de renda no âmbito da assistência social e do SUAS;
- Famílias inscritas no CadÚnico com renda per capita de até ¼ do salário mínimo;
- Pessoas com transtorno de acumulação de animais, conforme avaliação conjunta da SEASO, da SESAU e da equipe técnica do Bem-Estar Animal;
- ONGs constituídas e cadastradas junto à Prefeitura de Cascavel;
- Protetores independentes cadastrados junto ao Município.
Quanto aos animais, os critérios incluem aqueles em situação de rua, resgatados ou vítimas de maus-tratos.
O Samucão atende de segunda a sexta-feira, das 8h às 12h e das 13h30 às 17h.
As demandas recebidas fora do expediente, inclusive nos fins de semana e feriados, são avaliadas no próximo dia útil, conforme a disponibilidade e os critérios do programa. Quando o animal necessita de atendimento imediato e não pode aguardar, a orientação é procurar atendimento veterinário particular de urgência. A mesma orientação é dada quando o solicitante ou o animal não se enquadram nos critérios do serviço público.
O Município realiza atendimentos a animais em situação de rua e ações de controle populacional por meio da castração. Para encaminhar um animal em situação de rua ao Samucão, é necessário identificar uma pessoa responsável por acompanhá-lo durante o tratamento e assegurar os cuidados após a alta, como a administração de medicamentos e o cumprimento das orientações veterinárias. Isso não obriga a pessoa a adotar o animal.
Nas castrações, também é necessário um responsável pelos cuidados antes e depois do procedimento. Esse acompanhamento permite a continuidade do tratamento, considerando que o serviço municipal não dispõe de estrutura para acolher permanentemente todos os animais em situação de rua.”