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Editorial: "O Doente da América"

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O Brasil tornou-se, por direito e teimosia, o "Doente da América".
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Ilustração CGN

Por Redação CGN

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Imagine um fazendeiro dono da melhor terra da região. Ele vende o boi por quilo, compra o hambúrguer pronto do vizinho e, no fim do mês, reclama que a vida está cara. Pois esse fazendeiro tem nome, CPF: chama-se Brasil.

Somos o maior produtor de soja do planeta. Somos potência em carne bovina, suína e de frango. Fazemos café que ganha prêmio lá fora. Temos petróleo e uma das maiores reservas de terras raras do mundo. Com esse currículo, qualquer país seria rico. O Brasil conseguiu a proeza de ser, ao mesmo tempo, campeão de recursos e de desculpas.

Essa paralisia crônica, mascarada por recordes de safras que não se traduzem em bem-estar social, exige um diagnóstico mais severo do que a já comprovada incompetência de gestão. Há um termo na geopolítica tradicional reservado a nações outrora vigorosas que mergulham em uma letargia institucional profunda: “O doente da Europa”. Cunhado no século XIX pelo czar russo Nicolau I para descrever o declínio do Império Otomano — e mais tarde ressuscitado para definir o Reino Unido dos anos 1970, paralisado por greves e inflação —, o rótulo aponta para países ricos em potencial, mas incapazes de se curar de seus próprios vícios estruturais.

Ao insistirmos em exportar o boi para importar o hambúrguer, ao assistirmos à desindustrialização precoce e ao dependermos de remédios paliativos para mascarar febres fiscais, o veredito se torna inevitável. O gigante deitado em berço esplêndido acordou, mas descobriu-se na UTI. O Brasil tornou-se, por direito e teimosia, o “Doente da América”.

O grão de café especial embarca para a Europa. Ao brasileiro sobra, em muitos casos, o de qualidade inferior, torrado sem cerimônia e servido com o orgulho de quem “não reclama”. A carne de primeira, que sai daqui aos montes, virou item de domingo, quando dá. Quem cria o boi olha o preço do bife e faz conta de padeiro.

E o posto de gasolina? Paga-se um valor absurdo por um combustível misturado com 30% de etanol, num país que produz etanol de sobra. O problema não está na mistura. Está na conta que vem por cima: tributos federais, ICMS estadual e uma política de preços que o consumidor financia sem ser consultado.

Terras raras são a matéria-prima dos ímãs, dos chips e da eletrônica moderna. O Brasil senta em cima de um dos maiores estoques do mundo e, com raras exceções, como o projeto da Serra Verde, em Goiás, continua olhando o tesouro como quem admira uma paisagem. Extrair pouco e não beneficiar nada é a receita perfeita para vender barato o que o mundo compra caro.

Em meados dos anos 1980, a indústria respondia por aproximadamente um terço do PIB. Hoje, a de transformação anda perto de 10%. Não foi sequestro: foi abandono lento, com impostos que sufocam, burocracia que cobra pedágio até para produzir e o famoso Custo Brasil, que faz de abrir uma fábrica um esporte radical.

O Reino Unido de 1979 conhecia essa doença. Era o “doente da Europa”: sindicatos que paralisavam o país, estatais que davam prejuízo e impostos que puniam quem produzia, qualquer semelhança com o Brasil atual não é mera coincidência. Margaret Thatcher não distribuiu ilusão. Privatizou British Telecom, British Gas e British Steel, enfrentou o corporativismo e devolveu ao produtor o direito de prosperar. Já Churchill resumiu o dilema no Parlamento, em 1945: “o defeito do capitalismo é a desigualdade na divisão das bênçãos, e a virtude do socialismo é a igualdade na divisão das misérias”.

Lula governou de 2003 a 2010, no maior ciclo de alta das commodities da história recente. Teve dinheiro, popularidade e maioria no Congresso. Não faltou vento a favor. Faltou capacidade ao presidente e ao país faltou sair da condição de vendedor de matéria-prima.

Lula voltou ao poder e o roteiro é conhecido: quando o resultado não vem, a culpa é do antecessor, do Congresso, do mercado, do clima, de quem estiver à mão. Governar, porém, é assumir o resultado, não arranjar culpado. Quem pede confiança pela quarta vez deveria explicar porque não fez das outras três anteriores, chega de desculpas.

E não basta apenas trocar o dono da caneta. O problema é o modelo: um Estado que arrecada como país rico e entrega como país pobre. Bastiat já descrevia esse Estado como a grande ficção pela qual todos tentam viver à custa de todos. Hayek explicou por que o planejamento central falha: nenhum burocrata em Brasília sabe o que milhões de brasileiros sabem sobre o próprio negócio, a própria roça e a própria vida.

Burke dizia que a sociedade é uma parceria entre os que já morreram, os que vivem e os que ainda vão nascer. Nesse contrato, a nossa geração está assinando uma herança curiosa: solo fértil, subsolo generoso e uma dívida que só cresce.

Circula por aí um ditado que a internet atribui ora a Churchill, ora a Nietzsche, ora a Mark Twain, sem que ninguém apresente a fonte: “a diferença entre humanos e animais é que os animais nunca permitem que um incapaz lidere a manada”. Seja de quem for, a frase incomoda por um motivo simples. Na manada, o líder se impõe pela força e pela sua capacidade. Aqui, ele é escolhido por voto, sem comprovar sua capacidade. Mas lembre-se, quem aperta o botão da urna somos nós.

A indignação, porém, não basta. Um país que se resigna com o café ruim, o bife raro e o tanque caro acaba achando normal o que é apenas conformismo. Cobrar resultado de quem governa não é radicalismo. É o mínimo que se espera de quem administra o dinheiro alheio.

O Brasil não é pobre. Pobre é o que se faz com ele.

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