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Sesc faz 80 anos reverenciado por público e artistas

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É um bom exemplo de que uma instituição pode superar e engrandecer sua própria definição.

Por Agência Estado

Por definição, o Serviço Social do Comércio (Sesc), criado por decreto há exatos 80 anos, é uma instituição brasileira privada, sem fins lucrativos, que serve para promover o bem-estar e a qualidade de vida dos trabalhadores do comércio e de suas famílias.

É um bom exemplo de que uma instituição pode superar e engrandecer sua própria definição. O melhor jeito de explicar o impacto positivo que o Sesc, essa entidade que integra o chamado Sistema S, causa na sociedade brasileira está no modo geralmente carinhosa com que as pessoas se referem a ele.

“Olho para a piscina do Sesc Belenzinho pensando em serviço de primeiro mundo entregue ao público, que é valorizado e valoriza o oferecimento”, comenta o músico Tom Zé. “E a arquitetura sofisticada de Lina Bo Bardi no Sesc Pompeia é uma multiplicidade de serviços traduzida em soluções arquitetônicas. Estar com o próximo parece ser o pensamento que norteia as ações da entidade.” Sem dar mais detalhes, Tom Zé adianta que está preparando uma música em homenagem ao Sesc. Chamar-se-á Ostenta Oitenta. “É a pessoalidade mais imediata que me ocorre de contar”, acrescenta ele, que tem uma longa relação com a entidade e já apresentou muitos espetáculos em suas unidades.

Nascido no mesmo ano em que a instituição foi fundada, o escritor Mário Prata diz que conheceu praticamente todo o Brasil por causa de eventos literários promovidos pelo Sesc. “Não tem o que falar sobre o Sesc, basta entrar em um”, sintetiza. “O Sesc é do c***.” Prata define a instituição como “o verdadeiro Ministério da Cultura do Brasil”. “O Sesc é o máximo”, afirma.

Sandoval Tibúrcio, artista visual, ator, escritor e cabeleireiro, teve sua vida mudada pelo Sesc. Autor do livro Magnitude, ele se habilitou profissionalmente graças a dois cursos realizados em unidades do Sesc do Rio – o de cabeleireiro e o de maquiagem. “O Sesc tem o papel de abrir portas na vida das pessoas sem que elas percebam, diz ele.

O Sesc nasceu em um contexto de avanços sociopolíticos, trabalhistas e de bem-estar social. O embrião da ideia foi proposto na 1.ª Conferência das Classes Produtoras, evento realizado pelo empresariado do comércio e de serviços em Teresópolis, no Rio, em 1945. No ano seguinte, o setor publicou a Carta da Paz Social, um documento de intenções para uma atuação estruturada na área social. Desse compromisso nasceram a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo, o Senac e o Sesc – este último, oficialmente fundado por decreto federal de 13 de setembro daquele ano.

Acesso democrático

Gradualmente, unidades passaram a ser instaladas nas principais cidades brasileiras, e o Sesc se tornou uma rede profundamente capilarizada, com atividades culturais, educativas, de lazer e serviços de saúde. O que era inicialmente restrito aos trabalhadores do comércio também se ampliou: hoje, o Sesc atende à população em geral e tem entre seus pilares o acesso democrático a bens culturais, educativos e a espaços de convivência.

Em São Paulo, tornou-se uma efervescente potência cultural. Seus palcos receberam atores como Raul Cortez, Marília Pera, Fernanda Montenegro e Laura Cardoso. O Centro de Pesquisa Teatral (CPT), fundado em 1982 pelo encenador Antunes Filho, consolidou-se como importante referência para as artes cênicas. Grandes nomes da MPB, como Gilberto Gil, Caetano Veloso, Elza Soares e Gal Costa, também fizeram do Sesc um local de encontro com o público.

Atualmente, são 44 unidades em funcionamento no estado – e outras duas devem ser inauguradas ainda neste ano. Dados mais recentes mostram que 30 milhões de pessoas passaram pelas unidades paulistas ao longo de 2025. As 39 exposições de arte realizadas no período receberam 1,2 milhão de visitantes. E a rede paulista ofereceu ao longo do ano mais de 11 mil apresentações de teatro, dança, circo e música – alcançando um total de 2,5 milhões de espectadores.

Diretor do Sesc São Paulo, o economista e sociólogo Luiz Galina acredita que o momento do octogésimo aniversário marca a celebração da “trajetória consistente de uma instituição que foi, e continua sendo, atenta às mudanças e aos anseios da sociedade, sem perder de vista aquilo que justificou sua criação”. No caso, “oferecer aos trabalhadores do comércio, seus familiares e à sociedade em geral melhores condições de acesso à cultura, à educação, à saúde, ao esporte e ao lazer”.

“Por isso, a programação deste aniversário procura aproximar diferentes gerações, linguagens e formas de ser reunidas nas unidades”, comenta o dirigente. “Queremos que as pessoas reconheçam nessa programação o Sesc que já conhecem, mas também sejam convidadas a novas experiências, reafirmando nossa vocação de contribuir para o bem-estar social e para o exercício da cidadania.”

O empresário José Roberto Tadros, presidente do Sistema CNC-Sesc-Senac, destaca a presença da entidade no dia a dia dos brasileiros: “Completar 80 anos é a expressão de uma trajetória construída com os trabalhadores do comércio de bens, serviços e turismo e suas famílias e que, ao longo do tempo, passou a fazer parte da vida de milhões de brasileiros”.

Tadros salienta o papel da instituição tanto na melhoria da “qualidade de vida e formação de cidadãos mais conscientes e participativos”, quanto no peso da programação cultural da entidade, que “trabalha para disseminar vivências e valores, fortalecer a identidade do povo brasileiro e democratizar o acesso aos diversos ambientes culturais”.

“Um trabalho que forma plateias, valoriza artistas, promove a difusão das manifestações artístico-culturais e possibilita a troca de conhecimentos e experiências por todos os cantos do País”, comenta.

Especialistas concordam que se trata de um exemplo muito bem-sucedido.

Ex-diretor do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e ex-conselheiro do Sebrae, o executivo Ricardo Ramos afirma que o Sesc “ocupa um lugar raro no Brasil: trata a cultura como direito e não como luxo”. Autor do livro Presença sob Pressão, Ramos frisa que ali predomina a visão de que o desenvolvimento do trabalhador não se resume à técnica – precisa também de formação humana. “Quem trabalha merece acesso à beleza e ao pensamento, não apenas ao salário no fim do mês”, resume ele. “O Sesc representa a função cultural que deixa de ser acessória e vira quase uma ferramenta de saúde mental coletiva.”

Continuidade

Para Ramos, o segredo do sucesso é o fato de que a instituição se baseia em um sistema de governança que ultrapassa os limites de governos e suas naturais transições. “O modelo, financiado por contribuição compulsória do setor e gerido por uma representação empresarial, garante uma coisa rara no Brasil: continuidade”, enaltece.

“O Sesc transforma pela repetição silenciosa. Nenhuma unidade do Sesc muda o Brasil sozinha, mas a soma de décadas de acesso à saúde, à educação, ao esporte e à cultura em centenas de cidades vai reescrevendo, aos poucos, o que significa qualidade de vida para o trabalhador brasileiro”, define Ramos.

Professor na Universidade Presbiteriana Mackenzie, o arquiteto e urbanista Valter Caldana comenta que a transformação que o Sesc faz na sociedade tem a ver com a maneira como a instituição se posiciona. “Ela se coloca, mais do que como referência de qualidade, como referência de possibilidade de acesso à qualidade. O Sesc subverte a geometria brasileira, que é baseada em horizontalidades, e demonstra que a qualidade pode ser vertical e transversal”, filosofa. “Com isso, possibilita a construção de parâmetros que são absolutamente transformadores individual e coletivamente.”

“O Sesc é transformador na própria essência. Faz 80 anos, mas a sua importância é tamanha que dá a impressão de já ter 800, dada a presença e a estabilidade. Ao mesmo tempo, parece que tem 8, porque é jovem, ágil, instigante e questionador.”

Caldana lembra que o Sesc virou sinônimo de qualidade. “A gente sabe que se é feito no Sesc ou pelo Sesc é bom. Isso é interessante. Tornou-se estrutural para a construção da cidadania e da cultura brasileiras. É parâmetro de qualidade, régua”, elogia Caldana.

Idealizador do evento BOOMSPDESIGN, o designer Beto Cocenza endossa essa ideia. “A formação de público, a programação e os equipamentos beirando a perfeição foram e são fundamentais para uma geração como a minha, que saía de um regime ditatorial para uma abertura a diálogos e conteúdos genuínos e enriquecedores, sem medo de sermos felizes”, afirma. “Shows, exposições, seminários, refeitórios, palestras, encontros, workshops, nossa… frequentei e absorvi muito.”

Tom Zé lembra que, se o Sesc é acessível e democrático para o público, o inverso também ocorre: a instituição costuma abrir espaço para novas gerações de artistas de qualidade. “Em termos de música, artistas iniciantes encontram espaço na programação do Sesc”, comenta. “A ênfase é na qualidade e o público responde de maneira receptiva.”

Convivência

Para Tom Zé, o Sesc influencia a sociedade, pois “congrega pessoas de classes sociais diversas que confiam encontrar ali, e encontram, espaço em que há informação, convivência urbana e, detalhe importante, refeições a preços módicos e, pela reação dos consumidores, saborosas”.

Professor na Universidade Estadual de Ponta Grossa, o escritor Miguel Sanches Neto define o Sesc como “a maior rede nacional de promoção da cultura”, uma entidade que “tem uma função crucial no desenvolvimento de uma mobilização em torno da leitura”. “Ao promover a presença do escritor no interior do Brasil, está criando uma homogeneização dos principais temas contemporâneos, criando espaços de reflexão e de fruição literária”, afirma o escritor, referindo-se às iniciativas da entidade que levam autores e debates sobre literatura para unidades em todo o País.

Editor da revista digital Bula, o escritor Carlos Willian Leite diz que o “nível de excelência” dos eventos do Sesc “muitas vezes nem o próprio poder público consegue oferecer”. “Isso acontece em praticamente todas as áreas da cultura. O Sesc acabou se tornando uma espécie de selo de qualidade”, acrescenta.

“Mas talvez o mais extraordinário seja outra coisa. O Sesc conseguiu democratizar o acesso à cultura de uma maneira muito concreta. Durante muito tempo, para assistir a determinados espetáculos ou encontrar grandes nomes da cultura brasileira, parecia necessário estar em São Paulo ou no Rio de Janeiro. O Sesc ajudou a romper essa lógica”, diz Leite, que vive em Goiânia.

“Hoje, um grande espetáculo pode estar em Goiânia, em Mato Grosso, na Bahia, em diferentes regiões do País. Há projetos que circulam pelo Brasil inteiro e chegam a públicos que, de outra maneira, provavelmente não teriam esse acesso. Nesse sentido, acredito que o Sesc tenha feito e continue fazendo uma verdadeira revolução cultural no País.”

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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