Por que os perfumes árabes viraram febre no Brasil?
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Por Diego Cavalcante
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Quem acompanha as redes sociais provavelmente já se deparou com vídeos de frascos dourados, caixas luxuosas e pessoas testando perfumes que prometem permanecer na pele por horas. O que até pouco tempo atrás era um nicho restrito a colecionadores e apaixonados por perfumaria ganhou espaço nas prateleiras, nos marketplaces e até nas grandes redes de beleza.
Os perfumes árabes viraram uma verdadeira febre no Brasil — e o fenômeno não acontece por acaso.
Marcas como Lattafa, Armaf, Al Wataniah e outras fabricantes do Oriente Médio passaram a aparecer com frequência no TikTok, Instagram, YouTube e em grupos dedicados à perfumaria. Fragrâncias como Yara, Asad, Khamrah e Fakhar se transformaram em objetos de desejo e ajudaram a popularizar uma categoria que apresenta uma proposta bastante diferente daquela tradicionalmente associada aos perfumes franceses e às grandes marcas internacionais.
Dados ajudam a dimensionar o tamanho desse movimento. Segundo informações da Circana citadas pela revista Veja, o mercado de fragrâncias árabes movimentou mais de R$ 20 milhões no Brasil em 2024, crescimento de 380% em relação ao ano anterior. No primeiro semestre de 2025, o segmento registrou novo avanço expressivo.
Mais recentemente, a procura continuou crescendo. Segundo levantamento citado pela Folha, as buscas por “perfumes árabes” no Google aumentaram 132% desde o fim de 2024.
Mas afinal, o que esses perfumes têm de tão especial?
Perfumes que querem ser percebidos
Uma das principais explicações para o sucesso está justamente na característica que mais chama a atenção de quem experimenta essas fragrâncias: a intensidade.
A perfumaria árabe tradicionalmente trabalha com combinações mais densas, incluindo ingredientes como oud, âmbar, almíscar, açafrão, baunilha, madeiras, rosas e diversas especiarias. O resultado costuma ser uma fragrância mais encorpada, com projeção — ou seja, capacidade de ser percebida ao redor de quem usa — bastante evidente.
Para muitos consumidores brasileiros, essa característica representa uma vantagem.
Em vez de um perfume que desaparece poucas horas depois da aplicação, o consumidor procura uma fragrância que permaneça na pele, nas roupas e deixe um rastro por onde passa.
A alta fixação se tornou praticamente uma palavra-chave na popularização dos perfumes árabes. Consumidores passaram a compartilhar nas redes sociais testes de duração, comparações e relatos sobre quantas horas o cheiro permanece.
Essa característica é apontada por especialistas do setor como um dos principais motivos para a mudança no comportamento do consumidor.
O preço também explica o fenômeno
Outro fator decisivo é o custo-benefício.
Os perfumes importados de grandes grifes europeias podem alcançar valores bastante elevados no Brasil. Ao mesmo tempo, diversas marcas árabes oferecem frascos de 100 ml por preços consideravelmente menores, criando uma porta de entrada para consumidores que desejam experimentar uma perfumaria mais sofisticada sem gastar centenas ou até milhares de reais.
A diferença de preço ajudou a transformar o perfume árabe em uma espécie de “luxo acessível”.
Em vez de pagar por uma fragrância de grife, o consumidor pode encontrar uma opção árabe com embalagem sofisticada, grande volume, cheiro marcante e desempenho considerado alto por uma parcela dos usuários.
Segundo dados apresentados pela Folha, importadores apontam justamente o preço das fragrâncias ocidentais como uma das oportunidades que abriram espaço para as marcas do Oriente Médio no mercado brasileiro.
É importante, porém, fazer uma ressalva: perfume árabe não significa automaticamente perfume barato ou de qualidade superior. Existem diferentes marcas, linhas e níveis de qualidade, assim como acontece na perfumaria ocidental.
O poder do TikTok
Se a qualidade e o preço ajudam a explicar a procura, as redes sociais foram responsáveis por transformar o interesse em fenômeno.
O perfume é um produto especialmente adaptado para o formato dos vídeos curtos.
Criadores conseguem mostrar o frasco, borrifar a fragrância, descrever as notas, comparar com perfumes famosos e contar quanto tempo o cheiro permaneceu na pele. O público, por sua vez, compartilha experiências e cria novas recomendações.
É um ciclo que se retroalimenta.
Uma pessoa descobre um perfume em um vídeo. Depois procura avaliações. Encontra outro vídeo comparando a fragrância com um perfume de luxo. Procura o produto em uma loja virtual. Compra. Depois publica a própria avaliação.
A experiência deixa de ser apenas uma compra e passa a fazer parte do conteúdo das redes.
A CNN já havia identificado em 2025 um aumento expressivo do interesse pelo segmento, destacando justamente a atuação do TikTok e de criadores que passaram a publicar reviews e testes das fragrâncias.
A Folha também aponta que as redes sociais democratizaram a conversa sobre perfumaria, fazendo com que consumidores comuns passassem a discutir temas antes mais restritos aos especialistas, como notas olfativas, projeção, duração e assinatura do perfume.
Frascos que chamam atenção
Não é apenas o cheiro.
Quem já viu um perfume árabe provavelmente percebeu que os frascos também fazem parte da estratégia.
Embalagens grandes, detalhes dourados, formatos diferentes e caixas trabalhadas ajudam a criar uma sensação de produto luxuoso antes mesmo da primeira borrifada.
Nas redes sociais, isso é particularmente importante.
Um perfume com uma embalagem chamativa funciona bem em vídeos e fotografias. O produto acaba sendo desejado não apenas pelo aroma, mas também pela aparência.
A estética ajuda a explicar por que os perfumes árabes conseguiram se destacar em um ambiente digital dominado por imagens.
E existem os chamados “contratipos”
Outro elemento que contribuiu para a explosão da categoria é a presença de fragrâncias que apresentam semelhanças olfativas com perfumes famosos.
Algumas marcas árabes ficaram conhecidas por oferecer perfumes que lembram fragrâncias de grandes grifes internacionais, mas por preços muito menores.
Isso criou uma espécie de caça ao “perfume parecido”.
Nas redes sociais, vídeos com títulos como “perfume árabe parecido com…” ou “vale a pena trocar o perfume de grife por este?” ajudam a despertar a curiosidade.
A comparação, porém, não significa que os perfumes sejam necessariamente iguais. Normalmente existem diferenças na composição, evolução, qualidade das matérias-primas e desempenho.
Ainda assim, para quem busca uma experiência olfativa semelhante sem pagar o preço de uma grife, a proposta é bastante atraente.
O brasileiro já é apaixonado por perfumes
Existe ainda um fator cultural importante.
O Brasil é um dos maiores mercados de perfumaria do mundo e possui uma relação muito forte com fragrâncias. Marcas nacionais construíram durante décadas o hábito de usar perfume diariamente, seja para trabalhar, sair, encontrar amigos ou simplesmente manter uma sensação de frescor.
Isso cria um público naturalmente receptivo a novas fragrâncias.
A chegada dos perfumes árabes encontrou, portanto, um consumidor que já tinha interesse pelo segmento e estava disposto a experimentar novidades.
A diferença é que, agora, esse consumidor passou a ter acesso a uma enorme quantidade de informações sobre perfumaria pela internet.
Antes, escolher um perfume dependia muito da experiência dentro de uma loja. Hoje, o consumidor chega ao estabelecimento sabendo o nome da fragrância, as notas, possíveis perfumes semelhantes e até relatos sobre sua duração.
Uma perfumaria diferente
A popularidade também está relacionada à busca por aromas que escapem do padrão.
Muitos perfumes árabes apostam em combinações doces, ambaradas, especiadas e amadeiradas bastante marcantes. Alguns apresentam uma abertura intensa e uma evolução perceptível ao longo das horas.
Para quem está acostumado a fragrâncias mais frescas e discretas, a experiência pode ser completamente diferente.
E essa diferença virou justamente parte do charme.
O consumidor não está necessariamente procurando outro perfume igual ao que já possui. Ele quer experimentar algo novo, receber elogios, deixar uma assinatura olfativa diferente e, em muitos casos, chamar atenção.
Yara, Asad e Khamrah: nomes que ajudaram a popularizar a categoria
Algumas fragrâncias se tornaram verdadeiros “embaixadores” dos perfumes árabes no Brasil.
Entre os nomes frequentemente citados nas listas de produtos mais procurados estão o Yara, o Asad, o Khamrah e o Fakhar, da Lattafa.
O Yara ganhou enorme popularidade principalmente entre o público feminino, enquanto o Asad se tornou conhecido entre os consumidores que procuram fragrâncias mais intensas.
Já o Khamrah chamou atenção por seu perfil doce e especiado.
Esses perfumes funcionaram como porta de entrada para consumidores que, depois de experimentar uma fragrância, passaram a conhecer outras marcas e linhas.
O fenômeno já mudou o mercado
O crescimento foi tão rápido que as empresas tradicionais começaram a perceber a oportunidade.
Marcas brasileiras passaram a lançar produtos inspirados em elementos da perfumaria do Oriente Médio. A Natura, por exemplo, trabalha com oud em sua linha Essencial Oud, enquanto O Boticário lançou a linha Hadiya, inspirada na tradição da perfumaria árabe. A Veja relata que o primeiro lote da novidade do Boticário chegou a esgotar durante a pré-venda.
Ou seja, o fenômeno deixou de ser apenas uma tendência entre consumidores e passou a influenciar decisões da própria indústria.
É uma moda passageira?
Ao que indicam os números, não parece ser apenas uma moda momentânea.
O interesse pelas fragrâncias árabes vem crescendo há alguns anos, e o segmento conseguiu passar de um nicho de colecionadores para um mercado relevante.
A combinação é difícil de ignorar: preços competitivos, fragrâncias marcantes, alta projeção, embalagens chamativas e uma máquina de divulgação alimentada pelas redes sociais.
Além disso, o consumidor brasileiro descobriu que existe um universo muito maior na perfumaria do que apenas as marcas tradicionais que ocupam as prateleiras das grandes lojas.
O resultado é uma mudança no comportamento de compra.
Hoje, antes de escolher um perfume, muita gente pesquisa no TikTok, procura avaliações no YouTube, compara preços, consulta comunidades especializadas e busca saber quantas horas determinada fragrância permanece na pele.
Os perfumes árabes se beneficiaram exatamente dessa nova forma de consumir.
No fim das contas, a febre não nasceu de um único motivo. Ela é resultado da combinação entre curiosidade, redes sociais, custo-benefício, estética e, principalmente, a busca por perfumes que sejam percebidos e durem bastante.
O que começou como uma tendência importada do Oriente Médio acabou encontrando no Brasil um público especialmente receptivo. E, enquanto os vídeos continuam viralizando e novas marcas chegam ao mercado, tudo indica que os perfumes árabes já deixaram de ser apenas uma moda para ocupar um espaço permanente no mercado brasileiro de beleza.