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O que Lula tem na cabeça?

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Quem for votar sem pensar nisso corre o risco de aprender, na marra, a mesma lição que o Brasil já aprendeu uma vez.
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Foto: Reprodução/CGN

Por Redação CGN

Atualizado em

O que Lula tem na cabeça? A pergunta virou piada de grupo de zap. Tem quem jure que é nada, tem quem garanta que existe alguma coisa e tem quem prefira nem arriscar um palpite educado. Fica cada um com a sua teoria. Mas tem uma coisa que dá pra responder com precisão: o que Lula tem na cabeça, literalmente, é a marca de uma cirurgia recente contra câncer de pele. E essa resposta boba é a porta de entrada pra uma pergunta séria.

Em 15 de janeiro de 1985, o Colégio Eleitoral escolheu Tancredo Neves para presidir o Brasil depois de 21 anos de regime militar. Tancredo nunca tomou posse. Internado às vésperas da cerimônia, foi operado seis vezes e morreu 38 dias depois, sem governar um único minuto. Quem sentou na cadeira que era dele foi o vice, José Sarney — um nome que boa parte de quem votou em Tancredo nem enxergava como alternativa de governo.

O Colégio Eleitoral escolheu um presidente. O país foi governado por outro.

Essa história não é peça de museu para quem tem mais de 45 anos. E ela devia estar na cabeça de quem pretende votar em Lula em outubro.

Uma conta que não fecha só com intenção de voto

Lula completa 81 anos em 27 de outubro. Não é uma provocação dizer isso — é um fato, e fatos têm peso na hora de escolher quem vai comandar um país de mais de 200 milhões de pessoas pelos próximos quatro anos.

Este editorial não é sobre se Lula foi ou não um bom presidente. Existe gente séria dos dois lados dessa discussão, e não é isso que está em jogo aqui. O que está em jogo é mais simples e mais concreto: quem, na prática, vai governar o Brasil se Lula for eleito e sua saúde não aguentar o mandato inteiro.

Desde que teve um carcinoma removido do couro cabeludo, Lula não aparece mais em público sem boné ou chapéu — recomendação médica para proteger a região operada do sol. Não é detalhe de vaidade. É o sinal mais visível de que o corpo de um homem de 81 anos, com histórico de câncer, já não responde como o de décadas atrás. Isso não é ataque pessoal: é biologia, e vale para qualquer ser humano na mesma faixa etária, não é uma condição exclusiva de Lula.

O nome que está atrás dele

E é aqui que a história de Tancredo volta a valer. Se algo impedir Lula de concluir o mandato, quem assume é o vice: Geraldo Alckmin.

Alckmin não é uma figura nova nesse tabuleiro. Foi adversário direto de Lula na eleição de 2006 e, na reta final daquela campanha, em meio à crise do “dossiê”, chegou a comparar publicamente o presidente a um ladrão de carro, questionando como Lula poderia alegar não saber de nada sobre o esquema de compra de informações contra o PSDB. Anos depois, disputou a presidência de novo em 2018 fazendo campanha dura contra o PT e os escândalos de corrupção que marcaram os governos petistas. Só se aproximou de Lula em 2022, quando os dois formaram a chapa por conveniência eleitoral, não por afinidade histórica de projeto.

Isso não faz de Alckmin um vilão. Faz dele um político que já teve o PT como alvo declarado e que hoje ocupa a cadeira ao lado do trono. A pergunta que o eleitor petista precisa se fazer é direta: esse é o nome que ele quer ver despachando políticas públicas, indicando ministros e conduzindo o país, caso Lula não consiga terminar o mandato?

A história pode se repetir

Ninguém está desejando mal a Lula. Envelhecer e adoecer não é falha moral — é condição humana, e vai alcançar qualquer presidente que chegue aos 80 anos no cargo. O problema não é Lula ficar doente. O problema é o eleitor ir às urnas pensando que está escolhendo um nome e, na prática, estar assinando um cheque em branco para outro.

Foi assim com Tancredo. Ninguém em 1985 apostava em José Sarney — e foi Sarney quem governou o Brasil nos anos seguintes, com uma agenda que boa parte de quem torcia por Tancredo jamais teria escolhido.

Como a história vai ser escrita dessa vez, só o resultado das urnas em outubro vai dizer. Mas quem for votar em Lula sabendo do que se trata vota com os olhos abertos. Quem for votar sem pensar nisso corre o risco de aprender, na marra, a mesma lição que o Brasil já aprendeu uma vez: a urna elege um nome. Quem governa pode ser outro.

O que é um editorial?

Editorial é o texto no qual um veículo de comunicação expressa sua opinião institucional sobre um fato, tema ou personagem da atualidade. Diferente das reportagens, que seguem critérios de apuração, isenção e pluralidade de fontes, o editorial é, por definição, um espaço de opinião.

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