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Novas paisagens da arte latino-americana: o que ver (e comprar) na SP-Arte Rotas

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Exibida pela primeira vez no Brasil, a obra pode ser lida como um retrato da relação íntima do artista com a cultura popular brasileira, apresentando figuras do sertão baiano sobre azulejos monocromáticos.

Por Agência Estado

Ao centro do estande da SUR, galeria vinda da cidade uruguaia de Punta del Este especialmente para a SP-Arte Rotas, está um imponente painel de cerâmica de quase oito metros de comprimento produzido em 1957 por Carybé (1911-1997), grande artista argentino que viveu a maior parte da vida na Bahia, amigo próximo de Dorival Caymmi e Jorge Amado.

Exibida pela primeira vez no Brasil, a obra pode ser lida como um retrato da relação íntima do artista com a cultura popular brasileira, apresentando figuras do sertão baiano sobre azulejos monocromáticos. Para Fernanda Feitosa, fundadora e diretora-executiva da SP-Arte, o painel é não só um dos destaques da feira, mas símbolo da direção que ela vem tomando nos últimos anos.

A Rotas será aberta nesta quarta, 26, para convidados, e recebe o público entre quinta, 27, e domingo, 30, na Arca, na Vila Leopoldina, na zona oeste da capital. Em sua quinta edição, ainda menor do que sua “irmã mais velha”, a SP Arte, ela conta com mais de 70 galerias e instituições ligadas à arte. A intenção da organização, contudo, é dar enfoque especial a artistas e galerias de fora do eixo Rio-SP, com participação de casas de todas as regiões do País.

Ao mesmo tempo, Fernanda Feitosa vem investindo na ideia de que o Brasil pode e deve ser um grande polo da arte na América do Sul – e no mundo, por que não? Por isso mesmo, cresce também o número de galerias estrangeiras. Neste ano, participam, além da Sur, três argentinas (Barro, Isla Flotante e W-galería), uma colombiana (Casa Zirio) e uma italiana (Orma).

“É um trabalho de insistência, de formação de público e de educação, no sentido de expor ao público brasileiro uma quantidade cada vez maior, a cada ano, de artistas latino-americanos”, diz. Esse trabalho, claro, já é feito até certo ponto por galerias brasileiras que representam artistas latino-americanos. Mas Fernanda reforça que é um movimento diferente trazer galeristas de fora ao Brasil para terem contato direto com os brasileiros.

“Acredito que o Brasil deveria chamar para si esse papel e ser um país líder na América do Sul. O mercado brasileiro, os colecionadores, curadores e os museus têm não só conhecimento como sofisticação suficiente e capacidade econômica para fazer circular no País obras latino-americanas e ampliar esse dito Mercosul, que nunca sai do papel”, argumenta.

Projetos curatoriais diversos

As galerias estrangeiras dividem os corredores com casas tradicionais de São Paulo – Vermelha, Almeida & Dale, Dan Galeria, Zipper, Claraboia, para citar algumas – e com galerias de outras regiões do País, como a Lima, de São Luis (MA), a Marco Zero, de Recife (PE), a Midlej, de Salvador (BA), e a Karla Osório, de Brasília (DF).

“Nesse momento do Rotas, temos um olhar mais atento à produção dessas regiões. É uma produção muito diversa da que nós estamos acostumados e do que costumamos entender como a arte brasileira. Ampliamos esse recorte para trazer a arte produzida em todas as regiões do Brasil”, diz Fernanda.

A principal diferença para a SP-Arte é o caráter mais intimista, com projetos curados por galerias especialmente para a feira. A Flexa, que vem do Rio, apresenta cerca de 70 obras cujo ponto de convergência é o estudo da cor. A galeria traz trabalhos de Tomie Ohtake (1913-2015), Alfredo Volpi (1896-1988), Adriana Varejão (1964) e Beatriz Milhazes (1960), por exemplo.

A Marco Zero reúne obras de 30 artistas brasileiros, como Abiniel João Nascimento (Carpina, 1996) e Marlene Almeida (Bananeiras, 1942), que circulam a temática da natureza e seus elementos. Há galerias que escolhem dedicar todo seu estande a um só artista, caso da Danielian, que dedica seu espaço a uma individual da artista visual e fotógrafa Mariana Tassinari (São Paulo, 1980), e da argentina Barro, que apresenta obras de La Chola Poblete (Guaymallén, 1989), artista que ganhou uma mostra recentemente no Masp.

Há também um espaço dedicado a projetos especiais. Fernanda destaca a Galeria Jaider Esbell de Arte Indígena Contemporânea, um coletivo formado em Boa Vista (RR) e hoje liderado por aprendizes do escritor e artista Macuxi que morreu em 2021. Esbell foi um dos principais responsáveis pela defesa da pluralidade da arte produzida por povos originários, comumente relegada à ideia de que deve ser presa ao passado, sem diálogo com a contemporaneidade.

O estande d’A Casa do Povo apresenta um conjunto de pinturas realizadas por artistas do povo Maxakali a partir do projeto Aldeia-Escola-Floresta, localizado na região de Itamunheque (MG). As telas foram realizadas com inspiração em cantos e narrativas sobre a Pukkutok, o Filho da Abelha, figura central da mitologia Maxakali. A venda das obras será revertida ao fundo Xug, criado por lideranças da comunidade para manter o bem-estar da aldeia.

E quem circular pela feira não vai demorar a encontrar o setor Mirante, já tradicional na Rotas, que neste ano apresenta uma exposição que reúne 66 trabalhos de 50 artistas diferentes em torno de diferentes interpretações da temática paisagem. A mostra tem curadoria do diretor artístico da feira, Bernardo Mosqueira, curador carioca radicado em Nova York e fundador do Solar, instituição dedicada à arte e educação no Rio de Janeiro.

“O Mirante é como se fosse um radar que nos indica, ilumina ou mostra os diferentes caminhos que a arte pode percorrer. Não existe um caminho só, uma só tendência ou movimento. Existem vários”, explica Fernanda.

Precisa ser colecionador para visitar?

Nem todo mundo que vai à feira sai de lá com uma obra comprada, admite Fernanda. A variedade de obras e galerias, contudo, pode atender à demanda de um jovem colecionador até àquela de um agente com maior poder aquisitivo. A fundadora estima que, neste ano, os preços variem entre R$ 3 mil e R$ 1,5 milhão, mas estes números podem mudar a depender das negociações entre compradores e galeristas.

“A curiosidade é o fator principal da feira de arte. Ela é quase um encontro, uma materialização de uma comunidade que gosta de arte, que é curiosa pela arte, que está sempre antenada na vida cultural do País”, afirma. A principal dica é: vá com calma, com roupas confortáveis, crie repertório e aprecie o melhor da arte brasileira.

SP-Arte Rotas 2026

– Endereço: ARCA (Av. Manuel Bandeira, 360, Vila Leopoldina, São Paulo).

– Datas: 26 a 30 agosto – 26 para convidados – 27 e 28 das 13h às 20h – 29 das 12h às 20h – 30 das 12h às 19h.

– Ingressos: R$ 60 (meia-entrada) e R$ 120 (inteira).

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