Por que a UFRJ revogou título de Doutor Honoris Causa de embaixador americano
Publicado em
Por Agência Estado
A Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) aprovou a cassação do título de Doutor Honoris Causa concedido ao diplomata norte-americano Lincoln Gordon. Segundo a instituição, a ação foi motivada pela atuação do embaixador no apoio dos Estados Unidos ao golpe militar de 1964.
A proposta foi apresentada pelo Centro de Filosofia e Ciências Humanas (CFCH) em 2024 e aprovada por unanimidade durante sessão do Conselho Universitário (Consuni) na última quinta-feira, 13. No parecer da decisão, a relatora do processo Gilda Avarenga afirmou que a manutenção da honraria se opõe aos valores que orientam a gestão da universidade.
“A revisão da homenagem não implica apagamento histórico nem censura, representa o reconhecimento de que uma universidade pública pode preservar criticamente sua memória institucional, distinguindo entre estudar historicamente determinado personagem e manter-lhe uma distinção honorífica institucional.”
Gordon recebeu a honraria em 1968, durante o governo de Humberto de Alencar Castelo Branco. Ele foi embaixador dos Estados Unidos no Brasil entre 1961 e 1966, sendo um dos articuladores do movimento que depôs o então presidente João Goulart e consolidou o regime militar no Brasil.
Um dos papéis mais relevantes de Gordon no golpe foi nos preparativos da “Operação Brother Sam”, que consistiu no envio de tropas navais ao litoral brasileiro para apoiar as forças militares em caso de resistência.
“A Constituição Federal de 1988 estabeleceu a democracia, a dignidade da pessoa humana e a prevalência dos direitos humanos como fundamentos da República. A manutenção de homenagem oficial à personalidade com atuação relacionada ao apoio da ruptura da ordem democrática mostra-se contraditória com esses mesmos princípios constitucionais”, diz o parecer da UFRJ.
UFRJ e outras universidades já tomaram medidas semelhantes
A UFRJ já havia retirado o título de Doutor Honoris Causa do ex-senador e signatário do AI-5 Jarbas Passarinho, em 2021, e do ex-presidente Emílio Garrastazu Médici, em 2015.
Médici também teve a honraria cassada em outras quatro instituições de ensino superior: a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), em 2022; a Universidade Federal de Pelotas (UFPel), em 2024; a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e a Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), no ano passado.
Outros nomes ligados ao regime militar que perderam títulos de Doutor Honoris Causa pelo Brasil foram os ex-presidentes Castelo Branco, Arthur da Costa e Silva e Ernesto Geisel.
Outra ação tomada pelas instituições de ensino superior é a diplomação póstuma de vítimas da ditadura. A UFRJ, por exemplo, concedeu, no último mês de julho, o diploma póstumo de bacharel em Ciências Econômicas a Stuart Angel Jones, estudante assassinado pelo regime em 1971. Já a Universidade de São Paulo (USP) aprovou, em fevereiro, a entrega do título de Doutor Honoris Causa ao jornalista Vladimir Herzog, morto pelos militares em 1975.