No mercado de juros, DIs sobem com tensão geopolítica, Copom hawkish e leilão do Tesouro
Publicado em
Por Agência Estado
Os relatos de explosão no Estreito de Ormuz reacenderam preocupações firmes com a inflação energética mundial e embutiram mais prêmio de risco na curva de juros no período da tarde desta quinta-feira, com as taxas intermediárias e longas subindo mais de 10 pontos-base. O movimento dá sequência à abertura da curva desde cedo, na esteira de ajustes após o Comitê de Política Monetária (Copom) ter deixado claro que o balanço de riscos está assimétrico, mas sem fechar as portas para novos cortes da taxa Selic.
A curva precifica um corte de 17 pontos-base na Selic em setembro, o que configura visão majoritária de corte de 0,25 ponto porcentual, mas ainda há apostas de manutenção da taxa em 14%. O leilão do Tesouro, considerado expressivo em período de hiato de dealerança (em que os dealers do Tesouro não têm metas a cumprir), também contribuiu para a abertura e a inclinação da curva.
A taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 encerrou em 13,77%, de 13,755% do ajuste de quarta-feira, a para janeiro de 2029 subiu de 14,009% para 14,12% e a para janeiro de 2031 avançou de 14,193% para 14,33%.
Os juros futuros renovaram sucessivas máximas no período da tarde, a partir da piora do quadro geopolítico. Houve relatos de que os termos do acordo entre EUA e Omã envolvendo a reabertura do Estreito de Ormuz proíbem a navegação de navios dos EUA, Israel e “países hostis”. No pico da sessão, o petróleo subiu mais de 5% no pregão eletrônico após a Tasnim reportar que houve duas explosões na ilha Qeshm, no Irã, decorrente de disparos contra alvos inimigos na entrada da principal rota do petróleo.
O sócio João Ferreira, da One, avalia que os investidores estão observando muito atentamente o mercado de juros lá fora, que acentuou alta a tarde a partir do aumento de risco geopolítico. Os rendimentos dos Treasuries subiram desde cedo com a notícia do Financial Times de que o presidente do Federal Reserve (Fed), Kevin Warsh, está preparado para aumentar as taxas de juros na reunião de setembro se as leituras de inflação divulgadas nas próximas semanas forem altas e os mercados subirem expectativas pra os custos de empréstimos.
O quadro externo mais negativo, ajustes pós-Copom e a expectativa do Tesouro de aproveitar janelas favoráveis para emitir mais títulos prefixados acabaram contribuindo para a inclinação da curva nesta quinta-feira, resume o chefe de Estratégia Macro e Dívida Pública, Luis Felipe Vital. “O Tesouro fez uma oferta muito próxima da média do ano, mesmo com o hiato de dealerança.”
O estrategista-chefe da Sincra, Gustavo Cruz, considera que os riscos de inflação mais alta apontados pelo Copom no comunicado puxaram a percepção de que o comunicado foi mais hawkish, o que impulsionou a curva de juros a partir dos vértices intermediários e longos.
A falta de sinalização sobre o que acontecerá na reunião de setembro impõe cautela e o reflexo disso é abertura da curva de juros, acrescenta Luise Coutinho, Head de Produtos e Alocação da HCI Advisors.
Na sexta, o mercado monitora o relatório do mercado de trabalho norte-americano, conhecido como payroll, que será divulgado às 9h30. O Projeções Broadcast estima criação de 63 mil a 130 mil empregos em julho, com mediana de 80 mil.