‘Não havia motivo para matar': família levanta questões sobre policial executado por advogado
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Por Luiz Haab
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Na última tarde antes de morrer, João Ezequiel Baptista Pereira reviu amigos de infância. Faltavam poucas horas para o policial de 52 anos ser morto a tiros.
O crime foi no início da noite daquele domingo, 28 de junho. Câmaras de segurança registraram quando ele chegou a uma casa no bairro Brasmadeira, onde uma namorada estava passando a tarde com Jean Oliver José Garcia, advogado que seria amigo dela há mais de trinta anos.
O interfone do imóvel estaria estragado, o que explicaria as várias batidas fortes que João Ezequiel deu no portão. A reação do dono da casa foi agressiva, com xingamentos e, minutos depois, um tiro para o alto com arma carregada e sem registro do advogado.
O policial foi até o carro e também pegou a arma de trabalho. As imagens seguintes mostram uma tentativa de acalmar os ânimos, mas a discussão fica intensa e três tiros são ouvidos.
Diante da namorada, o policial levou três tiros do amigo dela: um no rosto, um na cabeça e um nas costas.
O João Ezequiel, chamado carinhosamente de Ezequiel, é o quinto de uma família de nove filhos. O pai já é falecido há 12 anos. A matriarca é uma senhora de 82 anos de idade que sofre de Alzheimer. No último mês, ela recebeu várias vezes, como se fosse a primeira vez, a notícia do assassinato do filho e pergunta todos os dias, para evitar que esse sofrimento se repita diariamente. Agora os familiares preferem dizer que o Ezequiel viajou. A última foto que a idosa tirou com o filho foi no dia das mães deste ano.
Duas irmãs do policial morto conversaram nesta segunda-feira (27) com a CGN. São as advogadas Lidiane Pereira Deichmann e Viviane Pereira. Para elas, o conteúdo das gravações não deixa dúvidas.
“Ele demonstra, o vídeo e os áudios, a troca de áudio, que foi um assassinato, foi uma execução, sem motivo. A denúncia oferecida pelo Ministério Público considerou isso motivo fútil, porque não teve nada que motivasse tamanha ira, tamanha raiva. O João não ofereceu em nenhum momento qualquer tipo de atitude ou situação que indicasse que ele estava oferecendo algum tipo Ele não, o tempo todo ele calma, não pediu para o rapaz abaixar a arma, ele pediu para ele pensar na família dele, o mundo não fala isso. Mesmo assim, ele matou, matou um homem, um filho, eu falei, nossa, muito amado, a minha mãe era muito apegada a ele, e mesmo sem ter essa consciência de influência dela, ela sabe o que aconteceu”, conta Lidiane.
As irmãs dizem que Ezequiel conhecia Jean e estranham a relação da suposta namorada com o assassino. “Amigo dela, segundo ela, há mais de 30 anos de confiança dela. Ela disse que ele era como um irmão dela, disse que era um protetor, um amigo, nas palavras dela, e era muito amiga dela. E estava lá sozinha, o nosso irmão não estava com ela, ela estava lá sozinha, bebendo com esse rapaz, e a noite aconteceu o que aconteceu”, acrescenta Viviane
Uma mulher e uma criança também estavam no local.
Na noite da morte, representantes da OAB estiveram na cena do crime, onde prestaram apoio ao advogado que disparou os tiros. As irmãs questionam esse posicionamento, pois Jean não estaria em exercício profissional.
“A família espera que o réu que tirou a vida de uma pessoa responda à altura do crime que ele cometeu, que a justiça seja aplicada, independente da função dele, se ele era advogado, se ele era pedreiro, independente da função, do ofício dele, ele precisa responder, porque ele tirou a vida de uma pessoa, ele escolheu tomar arma irregular dentro de casa, e ele escolheu apertar o gatilho na cabeça de uma pessoa, não dando chance nenhuma para essa pessoa sobreviver. Então a lei precisa ser aplicada, independente de quem comete o início do crime”, alega Lidiane.
Nesta segunda-feira, o advogado Luciano Katarinhuk, contratado pela família da vítima, falou sobre a denúncia de homicídio triplamente qualificado oferecida pelo Ministério Público.
“O MP já ofereceu essa denúncia, que está com o juiz. O Ezequiel era um policial civil extremamente respeitado, com 20 manos de casa, e que deixou um vácuo para a família e para a policia”, disse o agora assistente de acusação.
“O que nós esperamos, e isso vai trazer talvez um acalento para o nosso coração, porque nesse momento a gente, não existe nada que possa amenizar a dor, mas a gente acredita que a sensação de justiça pode trazer um acalento para a família, para a sociedade, então nós esperamos muito uma condenação”, acrescenta Lidiane.
Em um crime que ainda precisa de muitas explicações, a família do policial morto precisa de respostas.
“Na verdade, existem muitas dúvidas, porque a gente não entende o que que aconteceu, por que que aconteceu, o contexto, parece que está faltando alguma coisa, sabe? Porque a pessoa chegou lá na casa de um conhecido e foi assassinada, então a gente tem vários pontos de interrogações que a gente fica pensando e tentando fazer com que encaixe, e isso é muito doloroso, porque a gente fica o tempo todo pensando, o tempo todo tentando entender o incompreensível”, finaliza Viviane.