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Cadê a picanha Lula?

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Lula promete o que não consegue cumprir e o pior, tem gente que ainda acredita.
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Foto: Reprodução/CGN

Por Redação CGN

Atualizado em

Mais de 1 milhão de brasileiros parcelando um pedido de delivery. Mais de 1,3 milhão de pedidos parcelados dentro de um único aplicativo em apenas dois meses — um número que, segundo a própria fintech responsável, mais que dobrou em pouco tempo. Famílias dividindo em seis vezes a pizza de sexta-feira, o remédio, a compra do mês. Se alguém contasse essa história há alguns anos, soaria como exagero de oposição. Hoje é balanço de empresa.

O economista francês Frederic Bastiat ensinou, há quase dois séculos, que existe “o que se vê” e “o que não se vê”. O que se vê é o discurso: o país vivendo, nas palavras do governo Lula, um “momento histórico” de prosperidade, a promessa de que o churrasco de picanha voltaria à mesa do trabalhador. O que não se vê — ou o que se tenta não deixar ver — é o brasileiro comum parcelando o jantar de sexta-feira porque o salário não fecha a conta do mês. Entre a narrativa oficial e a fatura do cartão, há um abismo. E é nesse abismo que mora a verdade que este editorial se propõe a dizer.

Os números por trás da “modernização do consumo” — como alguns preferem chamar — não enganam. O Brasil bateu recorde histórico de pedidos de recuperação judicial em 2025, segundo a Serasa. Despesas de condomínio, que deveriam ser um custo previsível da vida em cidade, dispararam em alguns casos mais de 500% em um único ano, pressionadas por uma cadeia de custos que o Estado insiste em não enxergar como problema seu. Some-se a isso um dado que deveria causar mais desconforto do que causa: metade dos trabalhadores formais do país já recorreu ao saque-aniversário ou ao empréstimo do próprio FGTS — dinheiro que é do trabalhador, mas que ele precisa tomar emprestado, pagando juros, para sobreviver ao próprio mês.

Isso não é modernidade financeira. É espoliação disfarçada de facilidade. Bastiat chamava de “espoliação legal” o mecanismo pelo qual o Estado, por meio de leis, impostos e políticas mal desenhadas, transfere riqueza do produtivo para o improdutivo, do trabalhador para a máquina que o tributa e depois lhe devolve, em migalhas e sob juros, o que já era dele. O FGTS parcelado é a ilustração perfeita: o Estado guarda compulsoriamente o dinheiro do trabalhador, permite que os bancos lucrem com ele, e depois vende ao próprio dono do dinheiro o “privilégio” de acessá-lo mediante juros. Não é ajuda. É intermediação lucrativa sobre o suor alheio.

O papel de uma empresa como o iFood, aqui, é apenas o de espelho. Nenhuma companhia parcelaria pizza em seis vezes se a demanda não existisse — e a demanda só existe porque o poder de compra do brasileiro foi corroído por uma inflação de serviços essenciais, por uma carga tributária que penaliza quem produz e por um Estado que insiste em se apresentar como solução, quando é, na maior parte das vezes, a origem do problema. Chamar isso de “tendência de consumo” é uma tentativa de maquiar com linguagem de mercado aquilo que é, na origem, um sintoma de empobrecimento.

Há um padrão nesse governo que já não deveria surpreender ninguém, mas que continua sendo tratado com uma tolerância inexplicável: o hábito de prometer uma coisa e entregar exatamente o contrário. Prometeu-se que o trabalhador voltaria a comer picanha; entrega-se um país em que ele não consegue nem fechar a conta de uma pizza sem dividi-la em seis vezes. Repete-se, com a boca cheia, que o Brasil vive um “momento histórico” de prosperidade; enquanto isso, recorde de recuperações judiciais, condomínios impagáveis e famílias inteiras afogadas em dívida desmentem, no dia a dia, cada palavra do discurso oficial. Diz-se que o governo protege o trabalhador; na prática, entrega-se o dinheiro que é dele — o próprio FGTS — para que bancos lucrem emprestando-o de volta, com juros, ao seu legítimo dono. Isso não é desencontro de comunicação, não é “ruído”, não é imprecisão. É engano deliberado, repetido, sistemático — a promessa usada não para informar, mas para manipular quem já não tem margem para verificar se o que ouve tem qualquer relação com o que vive. E um governante que constrói seu discurso sobre promessas que sabe, ou deveria saber, que não vai cumprir, não erra: engana. E o povo que sofre na ponta dessa mentira tem todo o direito de chamar isso pelo nome.

O discurso oficial insiste que o país vai bem. Mas o povo não mede o país pelo discurso — mede pela fatura. E a fatura, hoje, não fecha. Enquanto a retórica promete fartura, a realidade mostra famílias fracionando o básico. Essa distância entre o que se anuncia e o que se vive não é acidente nem exagero de crítico. É a evidência mais simples e mais dura de que a política econômica em curso está falhando com quem mais precisava dela.

Se 2026 é, como muitos já apontam, um ano decisivo, que seja decisivo também para que o eleitor pergunte, sem medo: quem, afinal, se beneficia de um país onde o cidadão precisa parcelar a própria sobrevivência?

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