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‘A pessoa mais importante da alimentação mundial’: Carlo Petrini morre aos 76 anos

Carlo Petrini nasceu em Bra, Itália, onde também faleceu. Dia 22 de junho de 1949 foi a data em que aquele que se tornaria uma das...

Publicado em

Por Agência Estado

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“A pessoa mais importante da alimentação mundial”, líder, visionário, gênio e alguém que lutava sempre, é assim que quem conviveu com Carlo Petrini o define.

Carlo Petrini nasceu em Bra, Itália, onde também faleceu. Dia 22 de junho de 1949 foi a data em que aquele que se tornaria uma das maiores personalidades da gastronomia veio ao mundo. Foi responsável por fundar o movimento internacional Slow Food, que se estendeu por 160 países.

Em comunicado oficial, a organização Slow Food Internacional o chamou de “intelectual com um profundo compromisso com o bem comum, as relações humanas e o mundo natural” e contou que Petrini fundou não apenas o Slow Food, mas o encontro internacional Terra Madre e a Universidade de Ciências Gastronômicas em Pollenzo. “Através dessas iniciativas, ele deu vida a um movimento global enraizado nos valores de comida boa, limpa e justa para todos, conectando comunidades, agricultores, artesãos de alimentos, cozinheiros, ativistas e jovens em todo o mundo.”

“Quem semeia utopia colhe realidade – uma frase que Carlo Petrini adorava dizer, encapsula a sua vida. Ele acreditava firmemente que sonhos e visões, quando são justos, capazes de inspirar a participação coletiva, e perseguidos com convicção, não são impossíveis de alcançar. Ele combinou a capacidade de sonhar com um profundo sentimento de alegria e propósito coletivo, abrindo caminhos concretos em direção à mudança social”, declaram.

‘Foi o primeiro a mostrar o caminho’

Georges Schnyder, diretor da Prazeres da Mesa e uma das pessoas que ajudaram a fundar a Associação Slow Food Brasil, no Brasil, teve dificuldades de enquadrar o velho amigo em apenas uma palavra, optou por termos como “pai inspirador” e a frase “a pessoa mais importante da alimentação mundial”. “Só” isso.

Muito emocionado, diz que ele foi importante para muita gente. “Hoje eu estou fazendo o programa O Sabor de São Paulo, feito por nós em parceria com a Secretaria de Turismo, que fomenta produtores artesanais. E comecei o dia pensando que tudo que estamos fazendo é baseado no que ele ensinou. Se eu não tivesse o conhecido, eu não estaria fazendo o que estou fazendo agora.”

“O que mais me impressiona é que ele foi um dos primeiros a perceber que o mundo estava indo para o caminho errado, no começo da década de 1980. E foi o primeiro a mostrar o caminho de como resolver. O movimento slow, esse conceito voltado a rever as coisas, o consumo desenfreado, foi muito bem fundamentado por ele já em 1986.”

A chef Bel Coelho, do Cuia e Clandestina, declara que está sentindo bastante a perda de Petrini. “Ele foi muito importante para mim. Todo o movimento do Slow Food, do qual eu já sou parte desde 2005/2006, é uma das diretrizes para o meu trabalho, para a minha inspiração como chef criativa. Então, ele foi um farol na forma como a gente enxerga o alimento, sua cadeia e como o chef de cozinha pode – e deve – se implicar nessa cadeia de forma mais ativa, sociopoliticamente.”

Mariella Lazaretti, também diretora da Prazeres da Mesa, conta que é a perda de alguém muito próximo e um grande amigo. Entre as muitas histórias que viveram juntos, ela relembra a eleição brasileira de 2022, cuja apuração de votos ele acompanhou em sua casa. “Depois, a gente foi juntos para a Avenida Paulista”, relembra.

“Ele lutava não só pela gastronomia sustentável, poder do pequeno produtor, cozinha de território e a tradição de alimentos, mas lutava pela igualdade e sócio-biodiversidade. Era extremamente inclusivo, inteligente e visionário. Para nós, é uma perda de um amigo querido, um líder e um mentor, mas, para o mundo, é algo inenarrável”, completa.

Schnyder conclui afirmando que “perder uma pessoa dessa neste momento, nesta década que, na minha opinião, tudo está acontecendo, é uma pena, porque ele é a voz que precisava estar falando alto, que ainda tinha tudo a dizer”.

Um verdadeiro brasileiro

“Um verdadeiro brasileiro, fugia do frio italiano e passava o réveillon no Brasil, ele curtia e adorava o País”. Em uma das suas viagens, conheceu os sabores do Complexo do Alemão ao lado de Georges e chefs como Claude Troisgros, David Herzt e Alice Waters. “Fizemos um almoço no Complexo do Alemão, organizado junto à comunidade, com uma cozinheira e banqueteira, em uma laje”, conta.

Mariella concorda com o marido. “Era uma pessoa que amava o Brasil loucamente, tudo que ele podia arrumar de desculpa para vir para cá, ele vinha. Ele subiu ao palco do Mesa Tendências muitas vezes e se tornou um amigo pessoal muito querido.”

‘Sem Carlo, eu e tantos outros não estaríamos aqui’: Petrini por uma aluna e parceira de trabalho

Há dez anos, Júlia Ferrari foi apresentada ao Movimento Slow Food e, no ano seguinte, à Universidade de Ciências Gastronômicas de Pollenzo (UNISG) – Universidade fundada por Carlo em 2004, na Itália. Pouco tempo depois, arrumou as malas, mudou-se para Pollenzo e nunca mais voltou.

Em 2019, fez um mestrado. Hoje, trabalha na UNISG. “Aqui, conheci realmente a sentido de comunidade, gente junta e apaixonada pelo mesmo princípio.”

Ao relembrar quando encontrou Carlo pela primeira vez, conta que foi no Brasil, em 2017. “Ele foi, junto a estudantes brasileiros, lançar o livro da Arca do Gosto Brasil. Era uma estrela pra mim, O CARA sim, em letras garrafais. Mal sabia que anos depois eu teria o privilégio de dividir a mesa com ele e escutar suas ideias e discutir a gastronomia como só ele era capaz, sempre rodeado de boa comida, taça cheia e estudantes atentos.”

Depois que se mudou para o país da bota, “os anos se passaram, a figura de Carlo se tornou mais quotidiana – mas não por isso menos emblemática – e nos últimos tempos trazia calor no coração vê-lo caminhar na cantina entre os estudantes. Presente de corpo e alma, Pollenzo foi seu sonho e é meu maior privilégio poder dizer que seguiremos avante semeando utopia”.

Essa frase tem tudo a ver com Petrini, afinal, uma de suas aspas mais conhecidas é “quem semeia utopia, colhe realidade”. E os seus sonhos refletiram e impactaram todos que por sua vida passaram. Gratidão é o que fica no coração apertado de quem o perdeu.

Ferrari conclui tudo com isso bem claro: “Slow Food, Terra Madre e Universidade de Ciências Gastronômicas são fruto do sonho e da esperança de Carlin. Obrigada por ter sonhado e por ter nos deixado a esperança de um mundo bom, limpo e justo através da comida”.

E tudo, inclusive este texto, acaba como o mundo deve continuar ressoando: “Grazie, Carlin!”.

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