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“Ele usa o procedimento judicial para legalizar estelionato”, diz advogado que tenta estancar golpe das semijoias

Segundo Túlio Bandeira, o suposto golpe aplicado por revendedor de Cascavel já teria causado prejuízo de R$ 12 milhões. ...

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Por Luiz Haab

O pedido protocolado na Justiça de Cascavel pode mudar o rumo de um suposto golpe milionário que vem sendo trazido à tona pela CGN, em Cascavel. Depois de semanas de denúncias, relatos emocionados e uma avalanche de processos judiciais espalhados pelo Paraná, o advogado Túlio Bandeira ingressou com uma petição pedindo a suspensão de todas as ações movidas pelo suposto responsável pelo chamado “golpe das semijoias”. A medida busca interromper execuções judiciais que, segundo as vítimas, vêm destruindo famílias inteiras.

A ofensiva jurídica ocorre em meio a uma sequência de reportagens publicadas pela CGN, que demonstrou a dimensão do esquema: centenas de mulheres relatam ter recebido mostruários de semijoias, assinado notas promissórias como “garantia” e, depois, acabado alvo de ações de cobrança milionárias, mesmo após devolverem os produtos.

Segundo Túlio Bandeira, o caso já ultrapassa qualquer parâmetro considerado normal no mercado de revenda de semijoias.

“São mais de 800 ações. Pessoas perdendo bens, fazendo acordos forçados para não perder ainda mais. Algo assim não é comum”, afirmou o advogado durante entrevista à CGN.

A declaração veio acompanhada de um dado que chama atenção. De acordo com o advogado, uma revendedora tradicional de semijoias em Cascavel, com mais de 20 anos de atuação, relatou possuir menos de dez ações judiciais por inadimplência em toda a carreira. Já o suposto golpista investigado teria ajuizado centenas de execuções.

A comparação levanta uma pergunta inevitável: como um modelo de negócio que acumula tantos supostos prejuízos continuaria funcionando por tantos anos?

Questão tributária

Na petição apresentada ao Judiciário, Túlio Bandeira pede a suspensão imediata dos processos cíveis movidos contra as vítimas até que a situação seja investigada de forma aprofundada.

O advogado afirma que o objetivo é permitir que a Justiça apure a origem das dívidas cobradas, a legalidade das promissórias e até possíveis crimes tributários.

“Ele usa o procedimento judicial para legalizar supostamente crimes de estelionato”, declarou.

Segundo Bandeira, há indícios de que o esquema funcione há mais de uma década. As vítimas relatam um modus operandi semelhante: recebem o mostruário, assinam uma nota promissória e, quando devolvem os produtos, não recebem a promissória de volta. Depois, acabam surpreendidas por execuções judiciais.

Muitas afirmam que nunca imaginaram que um documento assinado como “garantia” pudesse se transformar em penhoras, bloqueios e ameaças de leilão de bens.

“Um terror na vida dessas pessoas”

Durante a entrevista, o advogado revelou ter encontrado inconsistências que considera graves. Segundo ele, ao consultar registros da Receita Federal, verificou que a empresa ligada ao suposto revendedor estaria baixada.

“Como alguém representa joias sem ter empresa ativa? Sem nota de entrada, sem nota de saída? Mas tem nota promissória para cobrar centenas de pessoas?”, questionou.

Bandeira também afirmou que pretende pedir acesso a movimentações financeiras, fluxo de mercadorias e possíveis vínculos tributários.

“Estamos falando de cifras milionárias. Fazendo uma média simples, isso pode ultrapassar R$ 12 milhões”, disse.

O clima entre as vítimas é de revolta e medo. Muitas relatam vergonha, depressão e desespero diante das cobranças judiciais. Há mulheres que afirmam ter perdido economias de uma vida inteira. Uma delas, segundo o advogado, teria prejuízo estimado em R$ 180 mil.

A suspeita que ronda os bastidores

Outro ponto citado durante a entrevista envolve a suposta rapidez na tramitação dos processos. Segundo relatos, a esposa do investigado seria servidora concursada do Judiciário em Cascavel.

Túlio Bandeira afirmou que não pode acusar qualquer envolvimento, mas disse considerar necessário que a situação seja apurada.

“Não posso afirmar nada, mas é estranho. As ações andam muito rápido e têm desfechos rápidos”, afirmou.

Ele também destacou que, no entendimento das vítimas, o esquema teria conseguido transformar o sistema judicial em ferramenta de pressão.

“A nota promissória é um título executivo. Não existe uma fase longa para discutir a dívida. Executa-se direto. E isso teria sido usado para dar aparência legal a algo que precisa ser investigado”, declarou.

Mulheres se unem contra o suposto esquema

O que começou com relatos isolados se transformou em um movimento coletivo. Hoje, vítimas de várias cidades mantêm grupos de WhatsApp, trocam documentos, compartilham audiências e articulam ações conjuntas.

A união, segundo o advogado, pode ser decisiva.

“Não são oito vítimas. Não são 80. São centenas de famílias sofrendo”, disse.

Enquanto a Justiça analisa o pedido de suspensão dos processos, cresce a expectativa por uma resposta oficial que possa interromper o avanço das execuções judiciais e esclarecer se houve, de fato, um esquema estruturado por trás das cobranças.

O alerta que fica

Ao final da entrevista, Túlio Bandeira fez um alerta para quem busca renda extra no mercado de revenda.

Ele orienta que qualquer negociação seja cercada de provas: contratos detalhados, identificação da empresa, recibos, testemunhas, fotos, vídeos e, principalmente, a devolução imediata da nota promissória no momento em que o mostruário é entregue de volta.

“Todo cuidado é pouco”, resumiu.

Em Cascavel, o caso das semijoias já deixou de ser apenas uma disputa judicial. Tornou-se um drama coletivo — marcado por dívidas, medo e pela esperança de que a Justiça consiga separar cobranças legítimas de um possível esquema milionário que, segundo as vítimas, destruiu vidas silenciosamente ao longo de anos.

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