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Ateliês de Nise da Silveira completam 80 anos

Os ateliês hoje compõem o Museu de Imagens do Inconsciente (MII), no bairro Engenho de Dentro, na zona norte do Rio de Janeiro.......

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Por CGN

Os ateliês hoje compõem o Museu de Imagens do Inconsciente (MII), no bairro Engenho de Dentro, na zona norte do Rio de Janeiro.

Nascida em Maceió, em 15 de fevereiro de 1905, Nise Magalhães da Silveira foi uma médica psiquiatra que revolucionou o tratamento mental no Brasil.  Ela morreu em 30 de outubro de 1999, no Rio de Janeiro. 

O que é produzido nos ateliês do Museu é objeto de estudo e pesquisa, visando “conhecer mais um pouco o mundo interno do ser humano e os processos psíquicos que pertencem a todos nós, independente de doença ou não”, diz Junior. Com isso, o museu abre um grande leque de pesquisa sobre o imaginário, as imagens e o tratamento.

“Nós temos, inclusive, três clientes que este ano começaram a cursar faculdades”, disse. Dois deles estão na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio), cursando museologia e pedagogia, e um no Colégio Pedro II, cursando filosofia.

O trabalho desenvolvido pelos terapeutas do MII proporcionou não só uma estrutura para que eles conseguissem passar nas faculdades, se aproximando cada vez mais do território, mas ainda construindo uma relação familiar mais digna, uma aproximação da família. “É importante que a família esteja mais presente”, afirmou a psicóloga.

Atividades

De acordo com Lemos, atualmente funcionam sete ateliês com atividades expressivas: roda de mulheres, voltado para questões femininas; pintura; cerâmica; ritmologia; corpo e movimento; atividades plásticas; e teatro. Os chamados “clientes”, como preferia Nise da Silveira, dos ateliês do MII são pessoas que frequentam o Sistema Único de Saúde (SUS) como usuários da saúde mental e são encaminhados para as práticas terapêuticas.

Dentro do museu, a atividade proporciona uma nova linguagem, pela especificidade do trabalho direcionado para olhar a relação do mundo interno com o mundo externo. “Principalmente a pintura proporciona que essa linguagem chegue mais ao “cliente”, por conta da falta mesmo da palavra que, muitas vezes, não alcança o tamanho do sofrimento que a pessoa vive”, explicou Lemos.

“Porque não é só um sofrimento psíquico, mas é toda uma vulnerabilidade social que permeia a vida das pessoas que vêm dos Centros de Atenção Psicossocial (Caps), da Clínica da Família, aqui para o museu. Quando esse usuário chega para o museu, a gente passa a se relacionar com ele como cliente, porque é dentro do método da Nise. E com esse olhar da pessoa ser ativa na relação e não passiva”, complementou a psicóloga. 

Lemos informou que o “cliente” é então inserido em uma atividade não indicada pelos profissionais de saúde do museu, mas de sua preferência. “É ele que escolhe a atividade em que quer estar. Através dessa atividade, a gente vai se relacionando ali com a expressão dele, com a linguagem do inconsciente, com o que ele coloca nas imagens, na emoção de lidar com o objeto escolhido para essa expressão”.

Com isso, os profissionais vão também ampliando essa relação terapêutica e contribuindo com a área social do “cliente” e suas vulnerabilidades.

Essência de tudo

O psiquiatra Lula Wanderley trabalhou com Nise da Silveira durante oito anos, na Casa das Palmeiras, desde que chegou ao Rio de Janeiro, vindo de Pernambuco, em 1976. “Foi uma época muito bonita na minha vida”. Em todo o trabalho que desenvolveu após esse convívio com Nise, Lula Wanderley disse à Agência Brasil sentir muita nostalgia da Casa das Palmeiras.

Idealizada por Nise, a Casa das Palmeiras é uma instituição de reabilitação psiquiátrica com atividades expressivas, terapêuticas ocupacionais, que são realizadas em regime aberto. Ali, Nise da Silveira ia às quintas-feiras para dar supervisão às equipes médicas que trabalhavam no local.

Outros ateliês

O modelo dos ateliês é replicado também em outros locais. O diretor-geral do Centro Psiquiátrico do Rio de Janeiro (CPRJ), unidade da Secretaria de Estado de Saúde (SES-RJ), Francisco Sayão, assegurou à Agência Brasil que todos os psiquiatras que compartilham as ideias de Nise da Silveira tentam dar sequência ao que ela fez, colocando o que as pessoas sabem em funcionamento nos ateliês de tratamento.

Segundo Sayão, nos ateliês em funcionamento no CPRJ, criados seguindo o modelo de Nise da Silveira, ele constata que o paciente é o protagonista do que está fazendo.

Um desses pacientes artistas é Israel Alves Correia, conhecido pelos dragões que confecciona no ateliê de arte e que ele mesmo foi desenvolvendo a partir de materiais diversos, como embalagens, vidros de shampoo, joelhos de PVC, entre outros.

Israel informou à Agência Brasil que durante 18 anos construiu cabeças de boi, berrantes, mas acabou optando por criar dragões. Uma de suas inspirações foram as obras de barro de Mestre Vitalino. Israel trabalha com durepox (massa epóxi bicomponente de alta resistência e secagem rápida) e não tem intenção de realizar uma exposição de suas obras, nem de vender. “Não vendo nada do que é meu. Quem quiser ver meus trabalhos venha aqui”, diz. 

Os “clientes” desenvolvem trabalhos que se destacam pela delicadeza e cuidado. Eni citou o caso de Israel Alves Correia, considerado um paciente gravíssimo, com histórico bem difícil e em que, no momento em que está produzindo no ateliê de arte, “não existe loucura”. Todo o projeto foi desenvolvido por ele.

No CPRJ, além do ateliê de arte, que engloba pintura e escultura, funciona o ateliê de bordado. Nesses espaços, não existe diálogo de doenças, mas de cuidado, e isso surte um efeito muito grande e acaba dando sentido para a vida das pessoas que participam. “Para mim, tudo que eu vejo hoje na prática são referências da dra. Nise. Um retrato bordado da médica psiquiatra foi confeccionado no ateliê, em março deste ano, junto com os de outras mulheres consideradas referência no país.

O primeiro ateliê aberto está programado para o dia 23.

Durante o ano todo, em cada mês, o processo se repetirá com ateliês abertos de cada especialidade, sendo o de pintura o mais antigo e carro-chefe, revelando grandes talentos, pessoas que utilizaram sua criatividade para encontrar um caminho de vida, de sobrevivência no mundo, como ressaltou Eurípedes Junior.

Programação

As comemorações incluem o fórum científico batizado A Emoção de Lidar – 80 anos da terapêutica segundo Nise da Silveira, organizado pelo Grupo de Estudos do Museu, criado pela própria Nise em 1968 e que continua funcionando até hoje.

A programação inclui ainda, entre outros eventos, a exposição Geometria e Cor, de Manoel Godin, artista contemporâneo do ateliê; lançamento do documentário Um caminho para o infinito: Emygdio de Barros, com texto e roteiro de Nise da Silveira e direção de Luiz Carlos Mello. 

O filme narra a trajetória de Emygdio de Barros, considerado um dos maiores nomes da arte revelado nos ateliês da médica psiquiatra.

O Museu de Imagens do Inconsciente está fechando ainda parcerias no exterior para publicação de livros de Nise da Silveira em inglês, francês e espanhol. Vários projetos estão em andamento com esse objetivo de internacionalização do trabalho da médica psiquiatra brasileira. 

Em paralelo, a Sociedade Amigos do Museu de Imagens do Inconsciente está fazendo um grande esforço ainda para disseminação do conhecimento resultante dos resultados das pesquisas da médica no meio acadêmico, por meio de cursos de extensão e pós-graduação.

A meta é que a psiquiatra seja mais estudada, além do nível simbólico da luta antimanicomial que representa. “A gente quer que as ideias dela penetrem no campo da saúde mental, da psicologia, da psiquiatria e das humanidades em geral”, afirmou Eurípedes Junior. 

A programação disponível pode ser conferida aqui. 

Fonte: Agência Brasil

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