
Moda independente: como marcas de nicho navegam pelas turbulências do mercado
Apesar de grandes corporativas da moda enfrentarem uma fase de quedas, marcas independentes têm se destacado no mercado....
Publicado em
Por Redação CGN

A indústria da moda no Brasil está entrando em uma fase de recuperação cautelosa. Segundo dados do IBGE, referentes a janeiro de 2026, o setor registrou crescimento de 0,8% — um número modesto à primeira vista, mas que representa o primeiro resultado positivo em cinco meses, sinalizando uma possível virada de tendência. O Brasil não é um caso isolado: muitos mercados passam atualmente por uma transformação estrutural mais ampla no comportamento do consumidor. Até o fim de 2025, o varejo de moda na Espanha havia recuado 1,1%; as vendas de vestuário na França caíram 1,7% e, nos Estados Unidos, os gastos nessa categoria ficaram 3,9% abaixo dos níveis anteriores. Esses números refletem um realinhamento global nos padrões de consumo, aos quais a indústria vem se adaptando ativamente em todo o mundo.
Esse ambiente de transição exige respostas estratégicas dos grandes players, à medida que modelos operacionais tradicionais passam a estar cada vez mais associados a riscos financeiros. Um dos casos mais notáveis do último ano foi a reestruturação da varejista de moda feminina Zinzane, que opera 175 lojas em 25 estados brasileiros e enfrentou forte pressão financeira. Antes disso, a Marisa também passou por um rigoroso processo de reestruturação de dívidas. Esses acontecimentos impactaram toda a cadeia de valor, incluindo os setores têxtil e de calçados.
Analistas da Bain & Company apontam que a indústria da moda contemporânea está enfrentando “turbulências mais complexas em múltiplos eixos”. Essa avaliação é reforçada pelo mais recente relatório The State of Fashion 2026, no qual 46% dos executivos afirmam esperar uma deterioração das condições de mercado este ano, contra 39% no ano anterior. Nesse cenário, marcas locais e emergentes vêm demonstrando forte resiliência, apoiadas por maior agilidade e ciclos de adaptação mais rápidos em comparação aos grandes grupos multinacionais.
Madame & Mister Sibarita (Espanha) na Moscow Fashion Week
Um exemplo dessa capacidade de adaptação é a marca espanhola Madame & Mister Sibarita, fundada em 2024, durante esse período de transformação estrutural. Sua fundadora, a designer Patricia Emma Fernandez Ortiz, tem apostado na expansão internacional, apresentando coleções na Itália, na Indonésia e na Moscow Fashion Week em março deste ano.
“Após nossa participação em semanas de moda (Fashion Weeks), fomos contatados por distribuidores interessados na nossa marca e, definitivamente, por muitas outras plataformas de moda que queriam que fizéssemos parte de suas estruturas. Isso não se traduziu diretamente em clientes finais ou vendas, mas sim em uma conquista de marketing”, observa Patricia Emma Fernandez Ortiz.
Em um contexto no qual participar do chamado “Big Four” (Paris, Nova York, Londres e Milão) tornou-se cada vez mais proibitivo em termos de custo, designers têm buscado plataformas alternativas que ofereçam tanto visibilidade quanto oportunidades comerciais. Entre as mais proeminentes está a Moscow Fashion Week que, somente em março, atraiu mais de 300 designers de diferentes países. A São Paulo Fashion Week, China Fashion Week, Lakmé Fashion Week e outros eventos em rápido crescimento também vêm ganhando relevância dentro do ecossistema global da moda.
“Participar de eventos internacionais como uma Fashion Week permite que uma marca se apresente sob os holofotes da mídia global. Não se trata apenas de um lançamento de marca com alta exposição, mas também de uma oportunidade para obter validação de instituições internacionais reconhecidas. Isso nos ajuda efetivamente a acessar, em um curto período de tempo, uma gama mais ampla de recursos da indústria, redes de compradores e potenciais clientes, construindo assim um reconhecimento de marca que ultrapassa fronteiras”, afirma Yan Haoyi, designer da marca chinesa Xuaujin, que participou da temporada recém-encerrada da Moscow Fashion Week.
Elisabetta na Moscow Fashion Week
Os resultados dessa abordagem já são visíveis. Após seu desfile em Moscou, a marca russa Za_Za recebeu um convite para participar da Semana de Moda da Costa Rica. A Kuchugova está expandindo sua presença no Cazaquistão e no Tajiquistão, enquanto, segundo a designer Alyona Chuprinina, sua marca Elisabetta fortaleceu seu posicionamento para continuar crescendo na Rússia e no exterior. A designer Darya Kipriyanova descreve a Moscow Fashion Week como um importante motor de crescimento: “Participamos três vezes e, em todas elas, tivemos resultados mensuráveis. Isso gerou convites de varejistas multimarcas, e hoje a marca está presente em seis cidades russas. Cada nova parceria está, direta ou indiretamente, ligada à exposição gerada durante a Fashion Week.”
Kuchugova na Moscow Fashion Week
Apesar da contínua transformação digital, os desfiles físicos não perderam relevância; pelo contrário, tornaram-se um pilar de crescimento para marcas de nicho. A designer brasileira Mayari Jubini, cuja marca Artemisi já foi adotada por grandes celebridades globais, enxerga as Semanas de Moda como uma etapa essencial da expansão internacional. “Plataformas como a Moscow Fashion Week são ferramentas poderosas para aumentar significativamente a visibilidade de uma marca. Elas reúnem imprensa internacional, compradores e líderes das indústrias criativas, criando um ambiente em que novas conversas sobre moda são moldadas”, enfatiza Mayari.
Sob sua perspectiva, participar dessas plataformas permite a Artemisi não apenas apresentar sua direção estética, mas também compartilhar sua expertise técnica com um público mais amplo. “Isso nos possibilita entrar em novos mercados, promover intercâmbio cultural e reforçar a ideia de que a moda pode ser, ao mesmo tempo, visionária e responsável”, conclui a designer.
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