
Escândalo trabalhista: frigorífico deixa de registrar milhares de acidentes de trabalho
Advogadas especialistas alertam para possível “epidemia silenciosa” de acidentes e doenças ocupacionais no setor frigorífico....
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Por Fábio Wronski

Uma fiscalização realizada no fim de março revelou um cenário alarmante em um frigorífico no Oeste do Paraná. Segundo documento do Ministério Público do Trabalho (MPT), acessado pela reportagem, a empresa de Medianeira, deixou de registrar mais de 7 mil casos de acidentes de trabalho e doenças ocupacionais — todos sem emissão da Comunicação de Acidente de Trabalho (CAT).
O caso expõe uma possível epidemia silenciosa no setor e coloca em risco a saúde de milhares de trabalhadores. A situação gerou grande repercussão em Cascavel e em toda a Região Oeste do Paraná, diante de relatos semelhantes em outros frigoríficos. Para debater o tema, a CGN conversou com as advogadas Patricia Compagnoni e Patrícia Marchiori, que orientaram os trabalhadores sobre seus direitos.
De acordo com os dados levantados pela força-tarefa, foram identificados 7.094 casos sem registro formal. Para especialistas, o número revela um problema grave e estrutural.
A advogada Patricia Compagnoni explicou que a falta de emissão da CAT impede o trabalhador de exercer seus direitos e acessar benefícios previdenciários. Segundo ela, “a não comunicação do acidente faz com que o trabalhador perca a oportunidade de acessar benefícios como auxílio-doença acidentário e até auxílio-acidente, caso tenha sequelas”, além de dificultar o reconhecimento de doenças ocupacionais. “Sem a CAT, é como se o acidente não tivesse existido, o que acaba prejudicando o trabalhador e favorecendo o empregador”, afirmou.
A fiscalização apontou ainda que nenhuma CAT havia sido emitida para doenças ocupacionais, dificultando ainda mais o acesso a direitos. Para a advogada Patrícia Marchiori, a situação é “extremamente alarmante”, pois envolve milhares de trabalhadores sem assistência. “Estamos falando de uma verdadeira epidemia silenciosa dentro da empresa, que sequer aparece nos dados oficiais”, ressaltou.
Entre as consequências da falta de registro estão dificuldades para acessar benefícios previdenciários e a perda de direitos, como estabilidade no emprego e indenizações. Compagnoni reforça que, sem a CAT, fica difícil comprovar o acidente. “O trabalhador pode perder indenizações, estabilidade e benefícios como auxílio-doença e auxílio-acidente”, disse, destacando que a emissão do documento é obrigação da empresa e deve ser exigida.
Marchiori destaca que, ao sofrer um acidente, o trabalhador deve buscar atendimento médico imediato e exigir a emissão da CAT. “Se a empresa se recusar ou orientar a omitir a informação, o trabalhador não deve aceitar, pois isso pode prejudicá-lo diretamente”, explicou. Ela também recomenda informar no hospital que se trata de acidente de trabalho e procurar o sindicato, para evitar que o caso fique oculto.
Outro ponto crítico identificado foi a exposição de 69 trabalhadoras gestantes a níveis elevados de ruído, acima do limite considerado seguro.
Além da subnotificação, a força-tarefa encontrou falhas na ergonomia, ritmo intenso de trabalho, deficiência na proteção de máquinas e riscos relacionados ao uso de amônia. Especialistas apontam que esse cenário é comum no setor frigorífico, já conhecido pelas condições desafiadoras.
Compagnoni explica que a doença ocupacional tem evolução lenta e pode demorar a ser percebida. “Sem a emissão da CAT, a empresa pode alegar que o problema é degenerativo, e não causado pelo trabalho, o que dificulta ainda mais a situação do trabalhador”, afirmou, destacando a importância do registro também nesses casos.
Já Patrícia Marchiori afirma que as situações encontradas são frequentes no setor. Segundo ela, após a divulgação da fiscalização, houve aumento na procura de trabalhadores de outros frigoríficos. “Muitos relataram que os problemas são semelhantes e pediram que outras unidades também sejam investigadas. Infelizmente, essa é uma realidade comum no Paraná”, disse.
Ao final, Compagnoni destacou o grande número de irregularidades identificadas e afirmou que, na análise individual dos casos, a situação é ainda mais grave. “Recebemos relatos de trabalhadores orientados a buscar atendimento médico sem informar que foi acidente de trabalho, o que é uma omissão gravíssima”, afirmou. Ela reforça que os trabalhadores não devem se omitir e precisam comunicar corretamente os acidentes.
Complementando, Marchiori afirmou que o caso deve servir de exemplo para incentivar novas fiscalizações e conscientizar os trabalhadores. “Ainda existe uma cultura de esconder acidentes e adoecimento no ambiente de trabalho, e isso precisa mudar. A prevenção não é opcional, é uma obrigação da empresa”, destacou.
A orientação final é que trabalhadores que se sintam lesados procurem um advogado especialista em acidentes de trabalho para garantir seus direitos.
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