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Falta de política de Estado dificulta busca por desaparecidos forçados

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Foto: Reprodução/CGN

Por CGN

Há exatos 62 anos, um golpe militar instaurou no Brasil um regime autoritário que duraria 21 anos. Além de retirar direitos constitucionais, exercer forte repressão política e censura à imprensa, a ditadura militar brasileira (1964-1985) perseguiu, torturou e matou opositores, muitos deles ainda com seus corpos desaparecidos.

Mesmo após a redemocratização, na década de 1980, o país enfrenta desafios no processo de memória, reparação e justiça, especialmente em relação aos desaparecimentos forçados.

“Não há um programa nacional, um programa fixo, uma institucionalidade para busca de desaparecidos e trabalho forense de identificação humana”, disse.

Ele mencionou que, em países onde os desaparecimentos foram investigados, foi criada uma política permanente de busca e de identificação. A medida seria uma forma de garantir estabilidade de normas e práticas de estado, independentemente de políticas dos governos vigentes.

Os estudos levaram à identificação dos restos mortais de quatro desaparecidos do período: Dimas Antônio Casemiro e Aluísio Palhano Pedreira Ferreira, identificados em 2018; e Denis Casemiro e Grenaldo de Jesus Silva, em 2025.

No entanto, a pesquisa na instituição depende de renovação periódica de contratos de financiamentos e sofreu prejuízos durante o governo federal anterior, que suspendeu parte dos recursos destinados à identificação das ossadas.

“No início do governo Bolsonaro, vigia um acordo que se chamava Grupo de Trabalho Perus. E o que o Bolsonaro fez foi extinguir esse grupo de trabalho [em 2019], o que dificultou qualquer repasse e financiamento”, relatou Edson Teles.

“A Unifesp teve que [pagar] para fazer a manutenção, porque são elementos biológicos, os remanescentes humanos, e exige um trabalho diário de manutenção. Mas não conseguiu fazer o trabalho de investigação para busca objetivando a identificação dos remanescentes”, disse, sobre o período em que o GT foi extinto.

Em 2024, o governo federal firmou novo Acordo de Cooperação Técnica junto ao CAAF, focado na retomada das análises das ossadas.

 “Já em 2023, o atual governo Lula retomou os diálogos e pode colocar no orçamento para 2024 a retomada do pagamento completo, pleno, do acordo para o trabalho de identificação”, explicou. 

Segundo o coordenador do CAAF, com esses recursos, foi possível retomar os trabalhos que resultaram na identificação já em 2025 de duas vítimas de desaparecimento forçado.

“Não há nenhuma garantia [de financiamento]. Se muda a política do Estado a partir da mudança de governo, da recomposição de governo ou se há um corte intenso de orçamento, tudo isso pode afetar [a continuidade das identificações].”

“Ainda [hoje] determinados grupos que apoiaram a ditadura ostentam o poder”, disse o pesquisador sobre um dos fatores que dificultam as pesquisas sobre a temática no Brasil.

“O Brasil e a América Latina talvez sejam os países mais complicados em nível de memória histórica por, seguramente, essa questão de que a elite política, econômica e militar da ditadura ainda detém poder”, avaliou Andres. 

Ele integra o Grupo de Trabalho (GT) Memorial DOI-Codi, que realiza escavações arqueológicas no prédio em que o órgão de repressão, subordinado ao Exército, funcionou durante a ditadura militar em São Paulo. No local, já foram encontrados objetos associados ao funcionamento do DOI-Codi, além de material orgânico identificado como sangue, que passa a integrar o conjunto de provas da ocorrência de violência naquelas salas.

“Sempre tivemos muitas dificuldades, [com] autorizações e recursos. É importante esclarecer que todos neste projeto trabalhamos até de forma ad honorem [expressão usada quando uma tarefa é feita sem remuneração], às vezes, colocando o dinheiro do nosso bolso”, contou Andres.

“A gente está trabalhando aqui com a vala de Perus, mas tem outras centenas de corpos desaparecidos que não estão sendo buscados”, lembrou Edson.

Ele chama a atenção para a importância de compreensão da prática do desaparecimento forçado como uma violência de Estado que ainda acontece.

“É fundamental saber que uma máquina de desaparecimento foi criada a partir do Estado brasileiro nos anos 70, para que a gente consiga hoje lidar com o problema e criar políticas públicas que desfaçam esse modelo de violência de Estado que funciona até hoje”, avaliou.

Edson Teles ressalta que atualmente essa violência é praticada especificamente contra corpos periféricos e negros, mas o modo de funcionamento é muito semelhante ao que era feito na ditadura militar.

“Isso mostra a gente desconhecer essa história que permitiu que esse tipo de estrutura de violência continuasse em democracia.”

“Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, pouco mais de 80 mil pessoas desaparecem por ano. Uma parte disso é de desaparecimento forçado, seja por má conduta de agentes do Estado, seja por crime organizado, ou outras formas de violência institucional que permanecem funcionando”, citou o coordenador.

Fonte: Agência Brasil

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