
Familiares recebem pertences de pianista morto pela ditadura argentina
Objetos pessoais do pianista Tenório Júnior foram entregues nesta quarta-feira (25) para familiares na sede do Ministério Público Federal (MPF), no Rio de Janeiro. O músico......
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Por CGN
Objetos pessoais do pianista Tenório Júnior foram entregues nesta quarta-feira (25) para familiares na sede do Ministério Público Federal (MPF), no Rio de Janeiro. O músico brasileiro foi morto por militares argentinos em Buenos Aires, em 1976.
A Equipe Argentina de Antropologia Forense (EAAF) descobriu os restos mortais de Tenório no ano passado e recuperou dois colares que pertenceram ao músico.
“Esses colares são a única memória física que nós temos dele, porque não existe muita possibilidade de conseguir qualquer resto moral. São uma coisa mais afetiva e íntima”, explica Elisa Cerqueira, filha de Tenório.
“Além disso, temos a certidão de óbito, emitida no fim do ano passado. Espero que, com ela, consigamos uma reparação e um reconhecimento oficial da responsabilidade dos Estados argentino e brasileiro nessa morte”, completa.
O investigador forense argentino Carlos Somigliana entregou os pertences de Tenório Júnior a familiares do pianista brasileiro – Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
A entrega dos objetos foi feita pelo antropólogo argentino Carlos Somigliana, membro da EAAF.
“Muitas pessoas, do passado e do presente, tornaram isso possível. Há, em especial, um grupo de mulheres que trabalha na Unidade de Direitos Humanos na Argentina, que percebeu que estes colares pertenciam a uma pessoa desaparecida e fizeram tudo o que estava ao alcance para preservar os itens”, explica Carlos.
A cerimônia no MPF ocorreu no mesmo dia em que o golpe militar na Argentina completa 50 anos. O pianista desapareceu seis dias antes. A ditadura terminaria apenas em 1983. Organizações de direitos humanos estimam que o regime deixou, pelo menos, 30 mil desaparecidos.
Segundo o procurador Ivan Marx, há 14 brasileiros desaparecidos na Argentina e cinco no Chile – Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
“Temos 14 brasileiros desaparecidos na Argentina e cinco no Chile. A ideia do nosso trabalho é conseguir coletar amostras sanguíneas dos familiares dos desaparecidos, para enviar para esses países e fazer a identificação”, explica Ivan.
“Queremos mostrar a verdade sobre esse período e fazer justiça sobre o passado, além de dar uma satisfação para as famílias que têm o direito de ter o seu luto”, complementa.
Histórico
Francisco Tenório Cerqueira Júnior iniciou a carreira aos 15 anos, nos estudos de acordeão e violão. Depois, passou a se dedicar ao piano, instrumento que o faria famoso. Participou de vários festivais e turnês no país e no exterior, além de ter trabalhado com grandes nomes da música brasileira.
Em 1976, com 33 anos de idade, o pianista acompanhava os músicos Toquinho e Vinícius de Moraes em uma turnê pela América do Sul. Ele estava na Argentina poucos dias antes do golpe de estado que derrubaria María Estela Martinez Perón da Presidência e instalaria uma ditadura militar no país.
Na madrugada do dia 18 de março, Tenório deixou o Hotel Normandie, em Buenos Aires. Uma das hipóteses é de que teria ido comprar cigarro e remédio. Nunca mais foi visto.
Depois de passar por uma delegacia de polícia, foi transferido para a Escola de Mecânica da Armada (ESMA), onde 5 mil argentinos teriam sido levados durante o período ditatorial. Pela manhã, as autoridades argentinas entraram em contato com a Embaixada do Brasil. Com a ciência do Serviço Nacional de Informações (SNI), foi torturado para revelar nomes de “artistas comunistas”.
Documentos apresentados pelo ex-torturador argentino Cláudio Vallejos mostraram que o capitão de corveta Jorge E. Acosta enviou um comunicado para o embaixador brasileiro sobre a morte de Tenório. O governo militar brasileiro não se manifestou, nem procurou se comunicar com os familiares do músico.
Fonte: Agência Brasil
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