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Jornada 5×2 pode custar R$ 267 bi ao Brasil e executivos do PR questionam: ‘Bem-estar ou bomba-relógio na produtividade?’

A entidade, que reúne cerca de 400 executivos financeiros no Paraná, acaba de realizar uma pesquisa para medir a percepção do setor sobre os impactos econômicos...

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Por Luiz Haab

A possível substituição da escala 6×1 pelo modelo 5×2, com redução da jornada semanal de 44 para 40 horas, colocou trabalhadores e empresários no epicentro de um debate que, à primeira vista, parece binário. Mas, para o vice-presidente institucional do Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças do Paraná (IBEF-PR), Gino Mitshar Oyamada, a discussão precisa sair da polarização e migrar para outro eixo: produtividade (clique no vídeo e assista à entrevista completa).

A entidade, que reúne cerca de 400 executivos financeiros no Paraná, acaba de realizar uma pesquisa para medir a percepção do setor sobre os impactos econômicos da proposta. Segundo Oyamada, o levantamento foi conduzido nos últimos dois meses, acompanhando o avanço do tema na agenda pública. A conclusão converge com estudos realizados a nível Brasil: aumento relevante de custos e potencial pressão inflacionária.

Impacto bilionário e efeitos setoriais

Dados da Confederação Nacional da Indústria (CNI) estimam que a redução da jornada pode elevar os custos das empresas brasileiras em até R$ 267 bilhões por ano — cerca de 7% da folha formal. Em cenários alternativos, considerando compensações parciais por reorganização de escala, o impacto ainda ficaria em torno de R$ 178 bilhões anuais.

“Você imagina tirar a rentabilidade das companhias nesse montante ou aumentar custos dessa magnitude”, comenta o vice-presidente o IBEF-PR. Para ele, o efeito não é homogêneo. Setores como comércio e construção civil podem enfrentar elevações de custos entre 12% e 13%. No varejo que opera aos fins de semana — shoppings, por exemplo — o adicional pode chegar a 20%.

A preocupação central é a equação financeira. “Na medida em que você repassa isso, você tem impacto inflacionário. Ou você reduz a rentabilidade das organizações, que já está afetada por outras variáveis, como o custo financeiro das dívidas”, argumenta.

Estudos da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) reforçam a possibilidade de repasse ao consumidor. Já análises do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) indicam que, em alguns segmentos, o impacto pode ser moderado caso haja ganhos de produtividade e reorganização eficiente dos processos — ponto que, para o IBEF-PR, ainda não está devidamente equacionado.

Mais contratações em um cenário de escassez

Um dos argumentos favoráveis à mudança é a geração de empregos. Oyamada reconhece o efeito potencial: para manter o mesmo nível de produção com quatro horas semanais a menos, as empresas precisariam ampliar o quadro em aproximadamente 8%.

“Para você manter o mesmo grau de produção, vai ter que contratar gente”, diz. O problema, segundo ele, é estrutural: “Hoje temos um apagão de mão de obra no Brasil. Construção, indústria e comércio têm dificuldade de contratar”.

Na prática, a promessa de expansão do emprego pode esbarrar na baixa oferta de trabalhadores qualificados, pressionando salários ou reduzindo a eficiência operacional — especialmente em micro e pequenas empresas.

O nó da produtividade

Para o vice-presidente do IBEF-PR, o debate sobre horas trabalhadas é secundário diante de um problema mais profundo: a produtividade brasileira.

Com base em dados da Organização Internacional do Trabalho (OIT), ele aponta que o Brasil ocupa a 94ª posição entre 184 países em produtividade por hora trabalhada. O valor médio é de US$ 21,2 por hora, bem abaixo de economias desenvolvidas: Estados Unidos (US$ 74) e Japão (US$ 53). Mesmo na América Latina, o país aparece atrás de Chile e Uruguai.

“Esses números nos envergonham”, afirma. “Quando você reduz jornada sem um programa ativo e factível de aumento de produtividade, é custo na veia direta.”

Ele ressalta que, em termos de carga horária semanal, o Brasil não figura entre os extremos globais. O problema, portanto, não estaria no volume de horas, mas na eficiência com que elas são convertidas em valor.

Educação técnica: o gargalo silencioso

A crítica do executivo avança para o campo da formação profissional. Dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) mostram que, na média dos países-membros, 37% dos jovens entre 15 e 19 anos cursam formação técnico-profissionalizante. No Brasil, esse índice é de 11%.

“De cada 100 jovens brasileiros, apenas cerca de 10 têm alguma formação profissionalizante. E ainda precisamos discutir a qualidade desses cursos”, observa.

Para Oyamada, países como Alemanha, Coreia e Canadá consolidaram modelos de alta produtividade ancorados em qualificação técnica e integração entre educação e setor produtivo. “Eles chegam ao mercado muito melhor preparados do que nós.”

A consequência, em sua avaliação, é uma força de trabalho menos capacitada, que pressiona programas sociais e limita ganhos de eficiência. “Optamos pelo quantitativo no ensino universitário e não pelo qualitativo”, critica.

Discussão técnica ou agenda política?

O IBEF-PR não se posiciona frontalmente contra a redução da jornada, mas defende que a transição esteja vinculada a metas claras de produtividade, programas de qualificação e avaliação de impactos setoriais.

“A discussão é legítima. Também queremos o bem-estar da classe trabalhadora. Mas a proposta carece de mais debate técnico, consulta às partes interessadas e estabelecimento de programas que coloquem o Brasil em um patamar de competitividade mais elevado.”

Ele também pondera sobre o timing político. “Não é um tema que, em ano eleitoral, deva ser discutido de forma apressada. Mudanças estruturais exigem maturidade e visão de longo prazo.”

Próximos passos

A entidade pretende levar os resultados de sua pesquisa a parlamentares do Paraná e a representantes de federações empresariais, integrando-se a um movimento mais amplo de interlocução com a política nacional.

“Temos nossas conexões junto aos legisladores e esse é o nosso papel: colocar a discussão em outro nível”, finaliza.

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