Nova entrevista exclusiva revela bastidores de violência, abuso sexual e silenciamento em abrigo para órfãos em Cascavel

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Por Luiz Haab

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A CGN traz nesta quarta-feira (28) mais uma entrevista exclusiva sobre os desdobramentos do caso envolvendo o homem de 70 anos preso após ser flagrado gravando vídeos de crianças, sem autorização, no parquinho do Centro Esportivo Ciro Nardi, em Cascavel. Desta vez, uma parente de uma das vítimas – que também viveu em abrigos para crianças órfãs – rompe o silêncio para relatar em detalhes a rotina de abusos, violência e omissão institucional que marcaram a vida de meninas na antiga Casa Lar da cidade. Por medo de represálias, a entrevistada pediu para não ser identificada.

Contexto do caso

O assunto ganhou repercussão no último domingo (25), quando um vendedor ambulante foi detido pela Polícia Militar após ser flagrado gravando imagens de crianças, sem consentimento. O suspeito tentou apagar arquivos do celular e chegou a ameaçar uma das mães, sendo contido até a chegada dos agentes. Após a prisão, mulheres que no passado viveram sob a tutela do mesmo homem, em programas de acolhimento institucional, procuraram a CGN para denunciar supostos abusos sexuais, psicológicos e físicos cometidos por ele durante anos, quando atuava como “pai social” de meninas afastadas do convívio das famílias biológicas.

Desde então, relatos de vítimas e testemunhas têm revelado uma rede de silenciamento, medo e impunidade, que teria permitido a continuidade das violações ao longo de décadas. A cada nova entrevista, emergem detalhes sobre a rotina de violência e a omissão de autoridades e responsáveis pelo abrigo.

Trechos da entrevista

A entrevistada, hoje com 42 anos, tinha cerca de 19 quando acompanhou de perto o sofrimento das meninas menores de idade dentro da Casa Lar. Ela destaca não apenas os abusos sexuais, mas também o abuso de autoridade, as ameaças e o espancamento. “Tirando a parte do abuso, o abuso de autoridade também, né? Porque ameaçar pra não contar é abuso de autoridade, porque eles sabiam que eles podiam mais. Eu fui à defesa das meninas. Fui e vou até hoje”, afirma.

Ela acredita que a própria postura mais combativa e sua posição fora do convívio direto da Casa Lar serviram de proteção para as meninas, ainda que de forma limitada. “Eu tinha voz, eu sempre fui ‘meia doidinha’, e eu não tinha medo do perigo. Eu enfrentava. Por mais que ameaçasse, eu enfrentava, e eu acho que eles tinham medo por causa disso, porque eu nunca fui uma pessoa de abaixar a cabeça e nem me calar”, relata.

Segundo a entrevistada, as meninas eram proibidas de falar com ela, mas, apesar das restrições, conseguiam relatar os horrores vividos no abrigo. “Da agressão, de ser obrigada a dar benção, sentar no colo, entendeu?”, enumera.

Ela descreve que, mesmo muito jovens, as vítimas tinham consciência de que estavam sendo submetidas a situações inaceitáveis, mas eram desacreditadas e culpabilizadas. “As meninas, tanto eu, que eu era jovem também, tinha noção. Só que, pra eles, eles passavam como se elas estavam erradas e não o que estava acontecendo com elas.”

A entrevistada relembra episódios de desespero, como tentativas de fuga e pedidos de socorro ignorados por familiares e autoridades. “Eu vi o momento em que aconteceu de uma das meninas fugirem, né? Ela pediu socorro a um familiar, mas foi deixada na mão, assim como pelo Conselho Tutelar. As entidades maiores também deixaram elas na mão. Essa menina teve que voltar, na marra.”

Sobre a mobilização das vítimas, agora adultas, a entrevistada é enfática: “Nós queremos que ele pague, de qualquer forma, mas que ele pague, porque ele pode ter esquecido o que ele fez com elas, mas elas não vão esquecer isso nunca, Pode passar anos que elas não vão esquecer que elas passaram por aquilo. E outra, ele agora está fazendo com gente mais jovem, né? Crianças, que são anjos. Então, de alguma forma, ele tem que pagar.”

Busca por justiça

As vítimas e testemunhas, cada vez mais organizadas, buscam justiça e visibilidade para que os crimes não fiquem impunes e para evitar que novas crianças sejam vítimas das mesmas violações.

Denúncias

Responsáveis legais por menores de idade que aparecem nos vídeos devem procurar o Nucria (Núcleo de Proteção à Criança e ao Adolescente Vítimas de Crimes) para registrar Boletim de Ocorrência.

Nucria de Cascavel: R. das Palmeiras, 3427 – Bairro Coqueiral. Telefone (45) 3326-4909.

Resumo do que aconteceu

O que aconteceu no parquinho do Ginásio Ciro Nardi em Cascavel e por que o caso chocou a cidade?
R: No dia 25 de janeiro de 2026, um vendedor ambulante de 70 anos foi flagrado filmando crianças, sem autorização, no parquinho do Ginásio Ciro Nardi, em Cascavel. Ele tentou apagar os vídeos ao ser confrontado por mães e acabou detido pela Polícia Militar. O caso ganhou grande repercussão após denúncias de que o suspeito já teria cometido abusos sexuais e psicológicos contra meninas em abrigos da cidade.
Quem é o homem preso e qual seu histórico com crianças e adolescentes?
R: O homem preso tem 70 anos e atuou como 'pai social' em programas de acolhimento institucional como a antiga Casa Lar e o programa Família Acolhedora de Cascavel. Diversas mulheres, que viveram sob sua tutela quando eram adolescentes, relataram abusos sexuais, psicológicos e físicos cometidos por ele, além de ameaças e silenciamento das vítimas.
Como o suspeito foi flagrado e qual foi a reação dos pais das crianças envolvidas?
R: O suspeito foi flagrado por uma mãe enquanto filmava sua filha de dois anos sem autorização. Ao ser confrontado, ele negou e tentou apagar os vídeos do celular, elevando o tom de voz e ameaçando a mãe. O pai das crianças expressou indignação e disse ter vontade de fazer justiça com as próprias mãos, mas optou por acionar a polícia.
Que tipo de material o suspeito produzia e o que fazia com os vídeos gravados?
R: Segundo relatos de vítimas, o homem mantinha um perfil no TikTok com quase mil seguidores, onde compartilhava vídeos feitos sem consentimento de crianças e jovens em locais públicos, como ônibus e parques. As pessoas filmadas não sabiam que estavam sendo gravadas.
Quais denúncias antigas vieram à tona após a prisão do homem?
R: Após a prisão, várias mulheres relataram à imprensa que sofreram abusos sexuais, psicológicos e físicos do suspeito durante a infância e adolescência, enquanto viviam sob sua tutela em abrigos. Elas descreveram episódios de violência, ameaças, espancamentos, silenciamento e omissão das autoridades e responsáveis pelos abrigos.
Como funcionava o esquema de silenciamento e omissão institucional relatado pelas vítimas?
R: As vítimas relataram que eram ameaçadas pelo agressor para não denunciarem os abusos. Quando tentavam buscar ajuda, eram desacreditadas, culpabilizadas e, em alguns casos, afastadas da instituição. Provas concretas, como roupas com sêmen, teriam sido sumidas por funcionários da escola e do abrigo. Denúncias feitas à polícia, escola e assistentes sociais eram ignoradas.
Qual foi o papel da esposa do acusado nos episódios relatados?
R: Segundo as vítimas, a esposa do acusado era omissa e tinha total consciência dos abusos. Ela reforçava a autoridade do marido, obrigando as meninas a sentar no colo dele e a beijá-lo, alegando que ele era o 'pai' das meninas.
Que consequências enfrentaram as garotas que tentaram denunciar os abusos?
R: Algumas meninas que denunciaram os abusos foram afastadas do convívio das demais, transferidas para outras instituições ou simplesmente desapareceram sem explicação. Uma das vítimas relatou que, após denunciar, foi isolada e enviada para uma instituição voltada a adolescentes em situação de reincidência com prostituição ou drogas, mesmo sem se enquadrar nesse perfil.
Quantas vítimas estima-se que tenham sofrido abusos do suspeito?
R: Uma das vítimas estima que entre 10 e 15 meninas tenham sido vítimas diretas de abusos semelhantes. Há também indícios de que meninos sob a tutela do casal apresentavam sinais de trauma.
Por que o caso gerou tanta revolta e mobilização entre as vítimas e a sociedade?
R: O caso gerou revolta porque expôs décadas de impunidade, silenciamento e omissão institucional, permitindo que o suspeito continuasse a ter acesso a crianças e adolescentes. A prisão trouxe esperança de justiça e motivou antigas vítimas a se organizarem para denunciar e buscar punição ao agressor.
Como as vítimas estão se mobilizando atualmente para buscar justiça?
R: As vítimas, agora adultas, estão se organizando em grupos, compartilhando depoimentos e buscando apoio jurídico e visibilidade para que os crimes não fiquem impunes. Elas pretendem mobilizar outras vítimas e pressionar as autoridades por justiça.
O que autoridades e especialistas recomendam para pais e responsáveis diante do caso?
R: A Polícia Militar e o Núcleo de Proteção à Criança e ao Adolescente Vítimas de Crimes (Nucria) recomendam que pais e responsáveis fiquem atentos a comportamentos suspeitos em espaços públicos e denunciem imediatamente qualquer situação de risco ou abuso.
Como proceder caso uma criança tenha aparecido nos vídeos gravados pelo suspeito?
R: Responsáveis legais por menores de idade que aparecem nos vídeos devem procurar o Nucria de Cascavel para registrar Boletim de Ocorrência. O endereço é Rua das Palmeiras, 3427, Bairro Coqueiral, e o telefone é (45) 3326-4909.
O que mudou após a prisão do suspeito?
R: A prisão do suspeito trouxe à tona antigos relatos de abusos, mobilizou vítimas a se unirem e aumentou o alerta entre famílias e frequentadores de espaços públicos em Cascavel. O caso segue sob investigação da Polícia Civil.
Há indícios de reincidência e de que o suspeito continuava a buscar contato com crianças?
R: Sim. Após o fechamento do orfanato, o suspeito passou a vender doces e balões em locais frequentados por crianças, como o parquinho do Ciro Nardi, onde foi preso. Mães relataram já terem percebido comportamentos estranhos dele no local.
O que as vítimas esperam com a exposição do caso na mídia?
R: As vítimas esperam que a exposição do caso na mídia ajude a dar voz às vítimas, mobilizar outras pessoas que sofreram abusos, pressionar as autoridades e garantir que o suspeito seja responsabilizado criminalmente, evitando que novas crianças sejam vítimas.
Quais foram as principais falhas apontadas pelas vítimas no sistema de proteção à infância?
R: As principais falhas apontadas foram a omissão de escolas, psicólogos, assistentes sociais, direção dos abrigos e até do Conselho Tutelar, que não acolheram as denúncias e, em alguns casos, sumiram com provas e isolaram as vítimas.
O que dizem as vítimas sobre o sofrimento psicológico causado pelos abusos?
R: As vítimas relataram traumas profundos, sensação de abandono, medo constante e dificuldade em serem ouvidas e acreditadas. Muitas só conseguiram se abrir e buscar apoio após atingirem a maioridade e se reencontrarem com outras vítimas.
Como a comunidade de Cascavel reagiu após a divulgação dos fatos?
R: A comunidade ficou em alerta, com muitos pais e frequentadores do ginásio relatando preocupação e reforçando a necessidade de vigilância. O caso gerou indignação e pedidos de justiça por parte da sociedade.
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