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Diplomatas indígenas relatam experiência em negociações da COP30

O termo kuntari katu, original das línguas indígenas nheengatu e tupi, significa "aquele que fala bem". Na 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30),......

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Por CGN

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O termo kuntari katu, original das línguas indígenas nheengatu e tupi, significa “aquele que fala bem”. Na 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30), em Belém, que registrou a maior participação de povos originários e comunidades tradicionais da história desses eventos, jovens indígenas não apenas ocuparam as mobilizações de rua e os eventos de debate espalhados pela cidade, mas também participam diretamente das complexas negociações diplomáticas internacionais ainda em curso.

Esse processo foi possível graças a um programa de formação desenvolvido numa parceria entre os ministérios dos Povos Indígenas (MPI), das Relações Exteriores (MRE) e o Instituto Rio Branco, este último responsável pela formação de diplomatas brasileiros. Batizado justamente de Kuntari Katu, o curso durou mais de um ano e preparou 30 jovens indígenas, de todas as regiões do país, com uma sólida formação para atuar no processo de negociação da COP30, que termina nesta sexta-feira (21). A reportagem da Agência Brasil conversou com três desses diplomatas indígenas, nos corredores da Zona Azul, a área oficial de negociações.

“Tudo o que está sendo discutido na COP nos impacta direta e indiretamente. Quando vai para a adaptação nos afeta, quando se trata da mitigação nos afeta, o financiamento nos afeta, porque apenas 1% desses recursos chega em nossos territórios, a gente se sente desassistido nesses espaços, por isso estar presente na negociação é importante, falando da nossa realidade. Nós somos nossos próprios porta-vozes, ninguém está falando pela gente”, afirma Wasady Xakriabá, de 28 anos, do norte de Minas Gerais.

Em Belém, ela vem acompanhando a Plataforma de Comunidades Locais e Povos Indígenas, mecanismo oficial do Secretariado do Clima das Nações Unidas (UNFCCC, na sigla em inglês) para debater as questões desses grupos nas negociações climáticas.

>> Acompanhe a cobertura completa da EBC na COP30 

As aulas foram ministradas por diplomatas experientes e especialistas do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), garantindo que os alunos compreendessem tanto a teoria quanto a prática das negociações internacionais.

Indígena do povo Xokleng Laklãnõ de Santa Catarina, Eliel Camlem acompanhou as discussões sobre as metas de adaptação climática na COP30 – Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Estudante de relações internacionais, Eliel Camlem, de 24 anos, é indígena do povo Xokleng Laklãnõ, de Santa Catarina. Na COP30, ele acompanhou as discussões sobre as metas de adaptação climática, que avançou na definição de 59 indicadores. “Muita coisa sobre esses espaços eu aprendi na graduação, mas teoria e prática são coisas diferentes. O que eu posso destacar sobre estar e aprender nesses espaços, e que muitas vezes não dos damos conta, é a força que os indígenas possuem, mesmo sendo poucos acompanhando a negociação”, aponta.

Entre os principais desafios enfrentados na mesa de negociação pelos jovens do Kuntari Katu está a disputa por conceitos que vão aparecer nos documentos finais. “Uma coisa que a gente sempre diz é que a UNFCCC tem um dicionário próprio. Então, quando alguém tenta introduzir uma nova palavra para esse dicionário, acaba gerando um grande entrave nas negociações e acaba parando tudo”, relata Jean Truká, de 24 anos, do povo Truká, de Pernambuco. Também inserido na Plataforma de Comunidades Locais e Povos Indígenas, ele revela que houve embates com outros países para inserir o conceito de demarcação territorial.

“Quando a gente pauta demarcação, dentro da mesa de negociação, os outros países não aceitam porque não é um conceito entendido da mesma forma no resto do mundo”, exemplifica Jean, formado em gestão ambiental.

Jean Truká, de Pernambuco, cita o idioma como um dos obstáculos para a participação indígena nos espaços de negociação da COP – Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

“Até o conceito de povos indígenas em outros países, muitos não se identificam dessa forma, principalmente o pessoal da China, por exemplo. Eles não se identificam como povos indígenas e, às vezes, nem como comunidades tradicionais”, acrescenta Eliel.

O obstáculo do idioma também é um desafio para a participação dos indígenas nos espaços de negociação. “A gente chega em salas de reunião e, muitas vezes, não tem nem português, só o inglês e o espanhol. Então, eu me pego pensando na participação dos nossos anciãos, caciques e das nossas lideranças nesse processo de negociação, isso pode dificultar a incidência dos povos indígenas”, observa Wasady. Mesmo assim, pondera, não há nada que possa deter o protagonismo dos povos tradicionais no cuidado com o planeta.

“A gente está trazendo não só nós nossas vozes enquanto pessoas, mas a voz das florestas, das árvores, dos animais, porque eles não podem falar, né. E a gente está ali vivenciando, então a gente meio que se torna porta-voz de todos os seres que habitam nossos territórios.”

Idealizadora do Kuntari Katu, a ministra dos Povos Indígenas, Sonia Guajajara, explica que o formato foi pensado para garantir não apenas a presença dos indígenas nos espaços, mas desenvolver capacidade de intervenção nos debates negociais que ocorrem nessas conferências.

Fonte: Agência Brasil

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