Farmacêutico é denunciado e vira réu após paciente relatar queimaduras graves durante peeling em Cascavel
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Por Redação CGN
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A Justiça da Comarca de Cascavel recebeu denúncia apresentada pelo Ministério Público do Paraná (MPPR) contra o farmacêutico Tiago Tomaz da Rosa, acusado pelos crimes de lesão corporal grave e falsidade ideológica. O caso se refere a um procedimento estético realizado em 2018, e tornou-se processo criminal em outubro de 2025, após o juiz aceitar a acusação formal. Na mesma decisão, o juiz reconheceu a prescrição de um terceiro crime — exercício irregular de profissão — e declarou extinta a punibilidade quanto a esse ponto. Com o recebimento da denúncia pelo juiz Marcelo Carneval, o farmacêutico tornou-se réu no processo.
De acordo com o MP, o profissional teria causado lesões permanentes na paciente A.R.D. ao aplicar peeling químico com fenol, substância de alta toxicidade, em diversas partes do corpo — incluindo rosto, pescoço, colo, mãos e braços.
A denúncia descreve ainda que ele teria utilizado o carimbo e falsificado a assinatura da esposa, médica, em receitas médicas entregues à paciente.
Depoimento da vítima: “Eu entrei pra fazer o rosto e acordei com os braços feitos”

Em depoimento prestado à Polícia Civil em fevereiro de 2025, a paciente relatou que acreditava estar sendo atendida por um médico e que o procedimento teria sido feito sem seu consentimento completo.
“Eu fui achando que ele fosse médico, e depois descobri que ele não era médico”, afirmou.
“Era pra fazer o peeling de fenol no rosto, mas não seria um fenol tão drástico como o que foi feito em mim. Era pra amenizar manchas, porque eu tinha acne. Ele estimulou pra eu fazer o pescoço também, o colo e as mãos. No dia do procedimento, ele me dopou, e eu acordei com os braços feitos. Não era pra fazer meus braços.”
A vítima disse que, ao acordar, percebeu queimaduras graves e que o farmacêutico teria afirmado que os resultados “melhorariam com o tempo”.
“Ele falou assim: ‘Nem pensa nisso, pensa que daqui dez anos seus braços vão estar lindos’. Eu fiquei na expectativa de que ia ficar bom, e ficou cheio de cicatriz”, contou.
A paciente também relatou que sofre de doença renal grave e afirmou ter alertado o profissional sobre isso antes do procedimento:
“Eu ainda questionei ele. Eu tenho problema renal sério. Ele falou: ‘É tudo tranquilo, você vai ficar linda, maravilhosa, não precisa de exame’.”
Ela contou que o procedimento foi feito na própria sala da clínica, sem médico presente, e que foi sedada sem aviso:
“Ele não me avisou que ia me sedar. Eu poderia ter feito qualquer coisa enquanto eu tava dormindo, sem saber.”
Reaplicação e agravamento das queimaduras

A paciente relatou que cerca de 45 dias depois, o farmacêutico fez uma nova aplicação sobre as áreas já queimadas, o que teria agravado as dores e as cicatrizes.
“Ele queimou em cima do que já tava queimado. Eu gritava de dor”, afirmou.
“Na segunda vez, ele quis refazer o fenol. Foi uma dor insuportável.”
Ela afirmou ainda que o profissional alterou o prontuário, registrando procedimentos diferentes dos realizados:
“No prontuário dele tá escrito ‘peeling de ouro’. Mentira. Peeling de ouro deixa o rosto amarelo. O fenol deixa branco, e eu saí de lá toda branca.”
A paciente também descreveu sequelas físicas e psicológicas que enfrenta até hoje:
“Eu nunca mais fui a mesma pessoa. Durmo com corticoide, tenho alergias, minha pele ficou seca. Eu pensei em tomar remédio pra esquecer o que aconteceu comigo.”
Receitas médicas e falsificação
Em seu depoimento, a vítima afirmou que recebeu receitas assinadas e carimbadas em nome da esposa do farmacêutico, que é médica, e que segundo o Ministério Público estava em licença-maternidade na época e nunca atendeu a paciente.
“Ele carimbava o nome dela e assinava. O que ele não podia prescrever, ele colocava no nome dela”, disse.
Essas informações foram confirmadas na denúncia criminal, que inclui cópias das receitas e prontuários anexadas ao inquérito.
Interrogatório do acusado: “Ela topou na hora, foi consentimento verbal”
Em agosto de 2025, Tiago Tomaz da Rosa foi interrogado e negou irregularidades. Ele disse que a paciente aceitou, verbalmente, ampliar o procedimento para os braços no dia do atendimento.
“Ela veio fazer rosto e pescoço. No dia do procedimento, eu sugeri incluir braços e ela topou. Foi um consentimento verbal”, declarou.
O profissional afirmou ainda que o agravamento das lesões pode ter ocorrido no pós-procedimento, por ansiedade e descuido da própria paciente:
“A gente orienta, dá o auxílio, mas o paciente vai pra casa. Às vezes, por ansiedade, começa a arrancar a pele, e isso aprofunda as lesões. O paciente assume o risco.”
Sobre a suspeita de falsificação, o farmacêutico negou ter usado o nome da esposa:
“Eu tinha o meu receituário e o meu carimbo. O que eu podia prescrever, eu prescrevia. Tínhamos CNPJs e licenças sanitárias distintas.”
MP aponta gravidade e recusa acordo
A denúncia, assinada pela 9ª Promotoria de Justiça de Cascavel, cita laudos, fotos e mensagens como provas do dano causado. O Ministério Público rejeitou qualquer proposta de acordo por considerar que houve violência física e conduta reiterada do acusado em outros casos semelhantes.
Outros casos semelhantes
A CGN já havia divulgado, em dezembro de 2024, outro caso envolvendo o mesmo profissional. Na ocasião, a paciente relatou complicações após uma harmonização facial feita na mesma clínica e também ingressou com ações cível e criminal.
O profissional não é considerado culpado
A decisão apenas recebeu a denúncia, o que não implica condenação. O acusado ainda poderá apresentar defesa e o caso seguirá para instrução criminal.