
Roubo de infância: Rússia separa, reeduca e treina crianças da Ucrânia para guerra
O documento, intitulado “Crianças roubadas da Ucrânia: dentro da rede de reeducação e militarização da Rússia”, identifica vítimas com idades entre 4 e 17 anos....
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Por Katiane Fermino
Um relatório divulgado nesta terça-feira (16) pelo HRL (Humanitarian Research Lab), ligado à Escola de Saúde Pública de Yale, denuncia a existência de um programa sistemático, em larga escala, de deportação, reeducação e militarização de crianças ucranianas pelo governo russo.
O documento, intitulado “Crianças roubadas da Ucrânia: dentro da rede de reeducação e militarização da Rússia”, identifica vítimas com idades entre 4 e 17 anos.
Segundo o levantamento, a rede foi intensificada desde o início da guerra entre Rússia e Ucrânia, em 2022. Os pesquisadores afirmam que a prática viola convenções internacionais e pode configurar crime de guerra.
A pesquisa identificou uma rede de 210 locais utilizados para o programa, distribuídos em território russo, Bielorrússia, Crimeia e áreas ocupadas da Ucrânia. Nessas instalações, menores são enviados pelo governo russo sem o consentimento das famílias.
Retirada forçada e adoções ilegais
O relatório detalha que crianças com famílias foram retiradas de suas casas em territórios ocupados e enviadas a “acampamentos de férias” ou internatos, sendo posteriormente impedidas de retornar. Já as crianças em situação de vulnerabilidade — órfãs, institucionalizadas, com deficiência ou de famílias pobres — foram alvos preferenciais do programa. Nesses casos, há registros de adoções forçadas por famílias russas, prática proibida pelo direito internacional.
O Direito Internacional Humanitário e a Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos da Criança determinam que crianças órfãs ou separadas de suas famílias em contexto de guerra devem receber proteção especial, podendo ser evacuadas apenas temporariamente, com garantia de segurança, identidade e nacionalidade. Se o retorno ao país de origem não for possível, devem ser acolhidas por um país neutro. O HRL aponta que o programa russo viola essas determinações.
Rede de instalações e reeducação cultural
A investigação, baseada em dados públicos e imagens de satélite de alta resolução, identificou oito tipos de instalações para onde as crianças ucranianas são levadas: escolas de cadetes (com treinamento militar), bases militares, instalações médicas, instituições religiosas, escolas e universidades civis, entidades comerciais de estadia temporária, orfanatos e centros de apoio familiar, além de acampamentos e sanatórios.
Em 61,9% desses locais, foram documentadas atividades de “reeducação cultural”, caracterizadas pela promoção de mensagens e ideias alinhadas aos interesses do governo russo.
As crianças passam por processos de assimilação cultural, com currículos adaptados para reforço da identidade russa, uso de símbolos estatais, exaltação da figura de Vladimir Putin e negação da história e soberania da Ucrânia.
As atividades incluem palestras sobre história e geopolítica, visitas a museus, canto do hino nacional da Rússia e participação em programas patrióticos conduzidos exclusivamente em russo.
Militarização sistemática
O relatório revela que crianças a partir de 8 anos são direcionadas para programas de militarização, nos quais recebem condicionamento físico e psicológico segundo práticas do exército russo, incluindo simulações de combate e treinamento com armas de fogo.
Pelo menos 18,6% dos locais identificados são dedicados a tais atividades, que abrangem o desenvolvimento de equipamentos militares e a montagem e desmontagem de armas.
Mais da metade dos centros de militarização (58%) são gerenciados diretamente pelo governo russo, seja por meio de fornecimento de recursos logísticos e financeiros, controle de órgãos federais ou criação e financiamento de organizações não governamentais.
Ao término do programa, o destino das crianças varia: algumas retornam para casa após a reeducação; outras permanecem detidas por tempo indefinido. Em certos casos, são incluídas em programas de acolhimento e adoção coercitiva, tornando-se cidadãos russos naturalizados.
Violações e crimes de guerra
O relatório do HRL conclui que a combinação de deportação e transferência forçada, reeducação cultural coercitiva, militarização, separação das famílias e da identidade nacional, sob direção do governo russo, constitui violações graves das leis internacionais, configurando crimes de guerra e crimes contra a humanidade.
“Estamos diante de uma política centralizada que busca reeducar, militarizar e apagar a identidade nacional de crianças ucranianas”, afirmam os pesquisadores, que solicitam resposta internacional urgente e responsabilização das autoridades russas em instâncias multilaterais.
Fonte: Metrópoles
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